Terapia existencial ou humanista: qual a diferença?
São parentes próximas, e a fronteira entre elas é discutida. A terapia humanista (ACP de Carl Rogers, Gestalt) aposta na tendência da pessoa a crescer e trabalha a experiência presente numa relação de aceitação. A terapia existencial vem da filosofia e trabalha as questões que todo mundo enfrenta: morte, liberdade, solidão e sentido. Nos Estados Unidos, costuma ser vista como uma das humanistas; algumas escolas europeias se definem como tradição filosófica própria. A existencial tende a servir a quem vive uma crise de sentido.
Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026
Lado a lado
| Critério | Existencial | Humanista |
|---|---|---|
| De onde vem | Existencial: Da filosofia existencial e da fenomenologia europeias, levadas pra clínica por psiquiatras e psicólogos como Viktor Frankl e, nos Estados Unidos, Rollo May e Irvin Yalom. | Humanista: Da psicologia americana de meados do século 20, com Abraham Maslow e Carl Rogers, como alternativa à psicanálise e ao behaviorismo. |
| Como vê o ser humano | Existencial: Livre e limitado ao mesmo tempo. Capaz de crescer, e também capaz do mal; a finitude faz parte do quadro. | Humanista: Com uma tendência a crescer e se realizar, que aparece quando encontra condições pra isso. |
| Temas que costumam entrar na sessão | Existencial: As questões de existir: morte, liberdade e responsabilidade, solidão, identidade, sentido da vida. | Humanista: Os sentimentos e a experiência de agora, a distância entre o que você vive e o que acha que precisa ser, a autoestima. |
| Como lê a angústia | Existencial: Como parte de estar vivo, mais do que como doença a eliminar. O trabalho é encarar essas questões de frente. | Humanista: Como sinal de que a pessoa se afastou da própria experiência, muitas vezes pra caber no que esperam dela. |
| Técnica | Existencial: Não há técnica própria fixa. Alguns terapeutas existenciais usam recursos de outras linhas, guiados por uma postura filosófica. | Humanista: Depende da linha: na ACP, a atitude da terapeuta é o instrumento; na Gestalt, há experimentos na sessão. |
| Principais escolas | Existencial: Daseinsanálise, logoterapia de Frankl, escola britânica e a linha existencial-humanista americana. | Humanista: Abordagem Centrada na Pessoa, Gestalt-terapia, terapia focada nas emoções, focusing e a própria linha existencial-humanista. |
| Pesquisa | Existencial: Pouca e de qualidade baixa. Uma meta-análise de 2015 achou benefício em terapias estruturadas de sentido, sobretudo com pessoas com doença física. | Humanista: Revisões com meta-análises apoiam as terapias humanistas pra várias queixas, embora elas apareçam pouco nas diretrizes clínicas. |
| Pra quem costuma servir | Existencial: Quem atravessa uma crise de sentido, uma perda, uma doença, uma decisão grande, ou sente que a vida ficou sem direção mesmo com tudo “no lugar”. | Humanista: Quem quer ser escutada e se reencontrar com o que sente, numa relação próxima, sem um caminho pronto. |
Terapia existencial é humanista ou não?
Depende de quem responde, e as duas respostas têm defensores sérios.
Pela primeira visão, a existencial é uma das terapias humanistas. O psicólogo Louis Hoffman, que escreve sobre a linha existencial-humanista, observa que é comum, ao menos nos Estados Unidos, ver a terapia existencial como uma das humanistas: as duas nasceram em diálogo, houve tentativas de juntá-las (a psicoterapia existencial-humanista de James Bugental é a mais conhecida) e elas compartilham valores, como a atenção à experiência vivida e à relação real entre terapeuta e paciente. O manual de pesquisa da Associação Americana de Psicologia sobre psicoterapias humanistas tem um capítulo inteiro sobre as terapias existenciais.
Pela segunda visão, a existencial é uma tradição própria, enraizada na filosofia europeia. A New School of Psychotherapy and Counselling, de Londres, ligada à escola britânica, define a abordagem existencial como, antes de tudo, filosófica, e descreve terapeutas que usam técnicas de várias outras linhas, incluindo a centrada na pessoa e a Gestalt, sem se confundir com elas.
Na prática, pra quem está escolhendo terapia, vale saber que as duas conversam muito, e que perguntar à profissional de onde ela parte ajuda mais do que o rótulo.
No que Carl Rogers e Rollo May discordavam?
Rogers, criador da ACP, e May, um dos nomes da terapia existencial nos Estados Unidos, discutiram publicamente no começo dos anos 1980, com uma carta aberta de May publicada no Journal of Humanistic Psychology e uma resposta de Rogers. A troca mostra bem onde as duas linhas se separam.
O primeiro ponto foi o mal. Pra Rogers, a destrutividade vinha sobretudo da cultura e da criação, e não da natureza humana. Pra May, cada pessoa carrega desde dentro o potencial pro bem e pro mal, e a terapia precisa lidar com os dois.
O segundo ponto toca a minha abordagem de perto. May se preocupava que, ao focar tanto no cliente e na resposta empática, a terapia centrada na pessoa deixasse de lado um encontro mais profundo, em que o terapeuta também traz a própria experiência. É uma crítica que eu levo a sério. Na ACP, a autenticidade da terapeuta já faz parte das condições que Rogers descreveu, ao lado da empatia, e a crítica de May me lembra de não deixá-la em segundo plano.
Quais são as linhas da terapia existencial?
A terapia existencial é uma família, e não uma técnica única. Costumam ser apontadas quatro escolas principais:
- Daseinsanálise: oferece uma relação permissiva em que a pessoa pode se expressar livremente e se abrir mais pro próprio mundo.
- Logoterapia e terapias de sentido, a partir de Viktor Frankl: ajudam a pessoa a encontrar sentido e propósito, inclusive diante do sofrimento.
- Escola britânica: mais descritiva e fenomenológica, convida a pessoa a explorar a própria experiência vivida.
- Linha existencial-humanista americana, com Rollo May, James Bugental e Irvin Yalom: ajuda a encarar as grandes questões da vida, como morte, liberdade, isolamento e falta de sentido.
Como seria uma sessão existencial e uma humanista com a mesma pessoa?
Imagine uma mulher que mudou de país, conseguiu o emprego que queria e mesmo assim acorda com a sensação de que nada faz sentido.
Numa terapia existencial, o vazio pode ser tomado como uma pergunta legítima, e não como sintoma a corrigir. A terapeuta pode convidá-la a olhar de frente: que escolhas a trouxeram até aqui, o que ela quer fazer com a liberdade que tem, o que daria sentido a essa vida nova, o que a finitude diz sobre o jeito como ela está vivendo. A conversa pode ser mais filosófica e, às vezes, mais desafiadora.
Na ACP, que é humanista, eu acompanharia o que ela sente agora, sem levar a conversa pra um tema escolhido por mim. Talvez o vazio a leve às mesmas perguntas de sentido; talvez leve à saudade, ao cansaço, a um luto que ainda não tinha nome. O caminho vem dela, e o trabalho acontece na relação.
O que a pesquisa diz sobre terapia existencial?
A pesquisa ainda é pequena. Uma meta-análise de 2015 encontrou 21 ensaios clínicos de terapias existenciais e incluiu 15, com 1.792 participantes. As terapias de sentido tiveram os resultados mais claros, em sentido de vida e em sintomas, e a terapia de apoio expressivo teve efeitos pequenos. As linhas experiencial-existencial e cognitivo-existencial, com pouquíssimos estudos, não mostraram efeito significativo. Os autores apontam o número pequeno e a qualidade baixa dos estudos, e o apoio mais forte apareceu em intervenções estruturadas com pessoas com doença física.
Uma revisão de 2024 chegou a uma conclusão parecida: faltam ensaios de qualidade que sustentem uma base forte de evidência pra essas terapias, embora os temas existenciais, como a consciência da morte e o sentido, apareçam ligados a várias dificuldades de saúde mental.
As terapias humanistas têm mais estudos, reunidos em revisões com meta-análises que as apoiam pra várias queixas, embora ainda tenham pouco espaço nas diretrizes clínicas oficiais. Em nenhum dos dois lados a pesquisa permite prometer resultado.
Quando cada um costuma fazer mais sentido
- Existencial
- Costuma fazer mais sentido quando o que pesa é uma pergunta sobre a própria vida: uma perda, uma doença, uma escolha grande, a sensação de vazio mesmo com tudo aparentemente resolvido. Também quando você gosta de pensar sobre a vida de um jeito mais filosófico e não se incomoda com uma terapeuta que questiona e desafia. Se você está num momento de muita fragilidade e precisa, antes de tudo, de acolhimento, ou se tem um sintoma bem definido, como pânico, talvez outra abordagem sirva melhor agora.
- Humanista
- Costuma fazer mais sentido quando você quer ser escutada sem um roteiro, precisa entender o que está sentindo e se sente melhor numa relação próxima e sem julgamento. Dentro do guarda-chuva há jeitos bem diferentes de trabalhar: a ACP segue você, a Gestalt propõe experimentos. Se o que você procura é alguém que puxe a conversa pras grandes questões da existência, uma terapeuta existencial pode te atender melhor.
Perguntas frequentes
Logoterapia é terapia existencial?
Sim. A logoterapia, criada por Viktor Frankl, é uma das escolas da terapia existencial, focada em ajudar a pessoa a encontrar sentido. Numa pesquisa internacional com terapeutas existenciais de 48 países, Frankl foi o autor mais citado como influência, e Em busca de sentido, o livro mais citado.
Existencialismo e terapia existencial são a mesma coisa?
Não. Existencialismo é uma corrente da filosofia, com autores como Kierkegaard, Heidegger e Sartre. A terapia existencial usa essas ideias na clínica, pra ajudar a pessoa a lidar com questões como liberdade, escolha, solidão e finitude. Você não precisa conhecer filosofia pra fazer terapia existencial.
Terapia existencial fala de morte?
Pode falar, porque a finitude é um dos temas centrais dessa linha, junto com liberdade, solidão e sentido. Isso não quer dizer que toda sessão seja sobre morte: o tema entra quando ajuda a pessoa a olhar pra forma como está vivendo. Se pensar na morte vier como vontade de morrer, procure ajuda agora: no Brasil, o CVV atende pelo 188, de graça, a qualquer hora.
Irvin Yalom é terapeuta existencial?
Sim. O psiquiatra americano Irvin Yalom é um dos principais nomes da linha existencial-humanista e autor de Existential Psychotherapy, de 1980. Numa pesquisa internacional com terapeutas existenciais, ele foi o segundo autor mais citado como influência, depois de Viktor Frankl.
A ACP é uma terapia existencial?
Não. A ACP, de Carl Rogers, é humanista e conversa com as ideias existenciais, mas tem teoria e método próprios: a mudança acontece numa relação com empatia, aceitação e autenticidade, e a terapeuta não conduz a conversa pra temas escolhidos por ela. Rogers e o terapeuta existencial Rollo May chegaram a debater publicamente as diferenças entre as duas visões.
Qual terapia é melhor pra quem sente que a vida não tem sentido?
As duas podem ajudar. A existencial trata a pergunta pelo sentido como tema central, e as terapias de sentido são as que têm resultados mais claros na pesquisa existencial. A humanista acolhe o que está por trás do vazio, que às vezes é cansaço, luto ou solidão. Se o vazio vem junto com perda de prazer em tudo, alterações de sono e desânimo que duram semanas, vale uma avaliação com profissional, porque só ela define o que está acontecendo.
Terapia fenomenológico-existencial é a mesma coisa que terapia existencial?
É um nome usado pra linhas que partem da fenomenologia e da filosofia existencial, e muitas vezes se refere à mesma família. O que cada profissional faz com esse nome varia bastante, e há quem o use também pra linhas humanistas. Pergunte à terapeuta de qual escola ela parte e como conduz as sessões.
De onde vem cada afirmação
- Hoffman, L. (2020). Humanistic psychology and existential-humanistic psychology. Existential Therapy (existential-therapy.com), texto revisado em janeiro de 2020. Texto de um autor da linha existencial-humanista: diz ser comum, ao menos nos Estados Unidos, ver a terapia existencial como uma das humanistas, lista semelhanças e diferenças e descreve o debate entre Rogers e May sobre o mal e sobre a experiência do terapeuta.
- Craig, M., Vos, J., Cooper, M. & Correia, E. A. (2016). Existential psychotherapies. Em Humanistic psychotherapies: Handbook of research and practice (2ª ed., pp. 283-317). American Psychological Association. Capítulo sobre terapias existenciais no manual da APA de psicoterapias humanistas: mostra a existencial tratada dentro do guarda-chuva humanista.
- New School of Psychotherapy and Counselling (NSPC) (sem data). The existential approach. NSPC, Londres. Escola ligada à tradição britânica que define a abordagem existencial como, antes de tudo, filosófica, e descreve terapeutas que usam técnicas de outras linhas, como a centrada na pessoa e a Gestalt.
- Sakai, A., Terao, T., Kawano, N., Akase, M., Hatano, K., Shirahama, M. et al. (2019). Existential and mindfulness-based intervention to increase self-compassion in apparently healthy subjects (the EXMIND study): A randomized controlled trial. Frontiers in Psychiatry, 10. Na introdução, descreve as quatro escolas principais da terapia existencial: Daseinsanálise, logoterapia e terapias de sentido, escola britânica e linha existencial-humanista.
- Correia, E. A., Cooper, M. & Berdondini, L. (2015). Existential psychotherapy: An international survey of the key authors and texts influencing practice. Journal of Contemporary Psychotherapy, 45(1), 3-10. Pesquisa com terapeutas existenciais de 48 países: os autores mais citados como influência foram Frankl, Yalom, Spinelli, van Deurzen, Längle e May, e o livro mais citado, Em busca de sentido.
- Vos, J., Craig, M. & Cooper, M. (2015). Existential therapies: A meta-analysis of their effects on psychological outcomes. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 83(1), 115-128. Meta-análise com 15 ensaios e 1.792 participantes: terapias de sentido com os resultados mais claros, apoio expressivo com efeitos pequenos, linhas experiencial e cognitivo-existencial sem efeito significativo; poucos estudos, de qualidade baixa.
- Menzies, R. G. & Menzies, R. E. (2024). Existential therapies and the extended evolutionary meta-model: Turning existential philosophy into process-based therapy. Journal of Contextual Behavioral Science, 34, 100840. Revisão que descreve os temas centrais das terapias existenciais (morte, identidade, isolamento, sentido e liberdade) e aponta a falta de ensaios de qualidade que sustentem uma base forte de evidência.
- Angus, L., Watson, J. C., Elliott, R., Schneider, K. & Timulak, L. (2015). Humanistic psychotherapy research 1990-2015: From methodological innovation to evidence-supported treatment outcomes and beyond. Psychotherapy Research, 25(3), 330-347. Revisão de pesquisadores humanistas: estudos qualitativos e quantitativos, incluindo meta-análises, apoiam as terapias humanistas pra várias queixas, que ainda têm pouco espaço em diretrizes clínicas.
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Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

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Fernanda Pessoa Ferro
Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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