Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Os meus textos

Reflexões sobre autoconhecimento, relacionamentos e cuidado emocional. Escritas pra você se escutar com mais carinho.

Dor

Como contar pra sua família no Brasil que você não está bem

Você desliga a chamada de domingo dizendo que está tudo ótimo e senta com um aperto no peito. Como abrir esse assunto com quem está a um oceano de distância, e o que fazer quando eles reagem mal.

30 de julho de 2026 · 6 min de leitura

Ler texto
Reflexões

Por que a ansiedade no relacionamento fica mais forte quando ele concorda com você

Quando ele concorda com você, a sensação deveria ser de alívio. Para quem vive com ansiedade de apego, pode ser o contrário. Entenda o que acontece por dentro. A concordância do outro, que em teoria sinalizaria segurança, dispara um alarme interno. A pessoa ansiosa procura certeza, mas quando a encontra, não consegue confiar nela. O ciclo se fecha: a validação externa, em vez de acalmar, alimenta a dúvida. Esse padrão tem raiz na hipervigilância emocional. Quem desenvolveu apego ansioso na infância aprendeu que a disponibilidade afetiva era imprevisível. O cérebro, então, permanece em estado de alerta. A concordância não é processada como desfecho. É lida como pausa temporária, intervalo entre ameaças. A pessoa espera a reviravolta. Existe também o medo de que a concordância seja estratégica, não genuína. "Ele só está dizendo isso para me acalmar." Ou: "se ele concorda tão rápido, talvez não tenha pensado direito." A ausência de resistência vira evidência de falsidade. O conflito, perversamente, pode parecer mais honesto. Outro fator é a desregulação que precede a resolução. Antes da concordância, o corpo já disparou cortisol, a respiração já acelerou, os pensamentos já correram para cenários catastróficos. Quando a outra pessoa cede, o sistema nervoso não desliga de imediato. A adrenalina ainda circula. O corpo continua em modo de luta, mas agora sem oponente. Sobra a sensação de vazio, desconforto difuso. Para algumas pessoas, há ainda a culpa. Se o outro concordou, talvez a exigência tenha sido excessiva. Talvez a necessidade fosse desproporcional. A concordância expõe a própria vulnerabilidade. É mais fácil estar errada e brigar do que estar certa e ter pedido ajuda. A ansiedade de apego não é questão de lógica. É resposta automática, moldada por experiências anteriores. O trabalho terapêutico passa por reconhecer o padrão, nomear a reação, tolerar o desconforto sem agir sobre ele. Aos poucos, o sistema nervoso aprende que concordância não é armadilha. Que alívio pode, de fato, ser alívio.

20 de julho de 2026 · 3 min de leitura

Reflexões

Ansiedade de apego: quando o medo de perder faz sofrer antes mesmo da perda

O medo constante de ser deixada para trás, mesmo quando a relação está bem, tem nome: ansiedade de apego. Entenda o que a pesquisa mostra sobre esse padrão e como a terapia pode ajudar. Algumas pessoas vivem com a sensação persistente de que serão abandonadas, ainda que não haja sinais concretos disso. A relação pode estar estável, o parceiro presente, mas a inquietação permanece. Esse tipo de insegurança crônica aparece catalogado na literatura clínica como ansiedade de apego. O conceito tem raízes na teoria do apego, desenvolvida pelo psiquiatra John Bowlby a partir dos anos 1950. Segundo essa linha, os primeiros vínculos da infância deixam marcas duradouras na forma como nos relacionamos na vida adulta. Quando o cuidado inicial foi inconsistente (ora disponível, ora ausente), a criança aprende que amor e segurança são instáveis. Essa lição se cristaliza e reaparece depois nos relacionamentos amorosos. Estudos longitudinais mostram que adultos com apego ansioso tendem a monitorar obsessivamente o comportamento do parceiro, procuram reasseguramento constante e interpretam sinais neutros como ameaças. Uma mensagem não respondida vira prova de rejeição. Um atraso se converte em angústia desproporcional. O sofrimento é real, mas a ameaça muitas vezes não existe fora da mente. Dados de neuroimagem indicam que essas pessoas apresentam maior ativação da amígdala (região ligada ao medo) diante de estímulos sociais ambíguos. O cérebro está sintonizado para detectar perigo relacional, mesmo onde não há. A hipervigilância se torna automática. O padrão se autoalimenta. A busca incessante por validação pode sufocar a relação, gerando o afastamento que a pessoa mais temia. O parceiro, inicialmente compreensivo, começa a sentir a pressão e pode recuar. A profecia se cumpre, reforçando a crença original de que vínculos são frágeis. A boa notícia é que apego não é destino. Diferente de traços de personalidade rígidos, estilos de apego podem mudar. Pesquisas apontam que intervenções terapêuticas focadas em apego produzem resultados mensuráveis. Terapia cognitivo-comportamental ajuda a identificar pensamentos distorcidos sobre abandono. Abordagens psicodinâmicas trabalham a origem desses medos na história pessoal. A terapia focada nas emoções (EFT), desenvolvida por Sue Johnson, mostrou eficácia especialmente em casais, ajudando a criar interações mais seguras. O processo terapêutico não apaga a vulnerabilidade de uma hora para outra. Mas oferece ferramentas para reconhecer quando a ansiedade dispara, testar a realidade da ameaça percebida e comunicar necessidades sem destruir o vínculo. Aos poucos, experiências relacionais mais previsíveis e confiáveis começam a reescrever a narrativa interna. Reconhecer o padrão já é um passo. Saber que a inquietação tem nome, que outros também sentem isso e que há saída reduz o peso da vergonha. Ninguém escolhe ter ansiedade de apego, mas é possível escolher enfrentá-la.

10 de julho de 2026 · 3 min de leitura

Procurando ajuda pra algo específico?