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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Gestalt ou Abordagem Centrada na Pessoa: qual a diferença?

As duas são terapias humanistas e apostam na capacidade da pessoa de se reorganizar, mas conduzem a sessão de jeitos opostos. Na Gestalt-terapia, a terapeuta é ativa: propõe experimentos na hora, como falar com uma cadeira vazia, e chama a atenção pro corpo e pro que acontece agora. Na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), de Carl Rogers, a terapeuta é não diretiva: acompanha o que você traz, busca compreender e não propõe exercícios. Quem gosta de ser provocada a experimentar tende à Gestalt; quem precisa de espaço, à ACP.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026

Lado a lado

Gestalt ou Abordagem Centrada na Pessoa: qual a diferença?: comparação lado a lado
CritérioGestaltACP
Quem decide o rumo da sessãoGestalt: Você traz o assunto, e a terapeuta pode intervir no caminho: propor um experimento, pedir que você repita uma frase, apontar algo que ela percebeu.ACP: Você. A terapeuta segue o que você traz e na ordem que você traz, sem puxar a conversa pra outro lado.
TécnicaGestalt: Experimentos feitos ali mesmo: cadeira vazia, dar voz a uma parte de você, exagerar um gesto, prestar atenção na respiração.ACP: Não é o centro. O instrumento é a atitude da terapeuta: empatia, aceitação e autenticidade.
CorpoGestalt: Entra de forma explícita. A terapeuta pode notar a mão fechada, a voz que some, a respiração presa, e te convidar a olhar pra isso.ACP: Entra quando você traz. A terapeuta pode devolver o que percebe, mas não costuma dirigir a sua atenção pro corpo.
Tempo verbal da conversaGestalt: O aqui e agora é método: “e agora, contando isso, o que você sente?”. Uma lembrança pode ser vivida de novo na sessão, no presente.ACP: O presente importa, mas a conversa segue o seu relato, inclusive quando ele vai pro passado ou pro futuro.
Quando algo não se encaixaGestalt: A terapeuta pode confrontar com cuidado: apontar que você sorri enquanto fala de algo triste, ou que muda de assunto sempre no mesmo ponto.ACP: A terapeuta evita confrontar. Devolve o que compreendeu e deixa que a contradição apareça pra você no seu tempo.
O que pode incomodarGestalt: Pra algumas pessoas, os experimentos parecem artificiais ou mexem forte rápido demais. Você pode recusar qualquer proposta.ACP: Pra algumas pessoas, a falta de direção parece pouca ajuda (“ela não me diz nada”). Vale falar disso na sessão.
PesquisaGestalt: Pouca pesquisa com a Gestalt-terapia como um todo: uma revisão de 2019 achou 11 estudos em 12 anos. Técnicas vindas dela, como a cadeira vazia, foram testadas dentro de outras terapias.ACP: Tem ensaios clínicos, principalmente em depressão: num grande ensaio inglês, a versão da ACP usada no serviço público foi equivalente à TCC em seis meses e ficou atrás em doze.
Pra quem costuma servirGestalt: Quem sente que já fala muito sobre o problema e quer vivê-lo de outro jeito, e se sente bem sendo convidada a experimentar.ACP: Quem precisa, antes de tudo, de espaço e de uma escuta que não pressiona, e quer chegar às próprias conclusões.

O que é Gestalt-terapia, em poucas palavras?

A Gestalt-terapia foi criada por Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman, nos anos 1940 e 1950. Fritz e Laura vinham da psicanálise, e a nova abordagem trouxe ideias da psicologia da Gestalt, da fenomenologia e do trabalho com o corpo.

O foco é a consciência do que você sente, pensa e faz no momento presente, e a forma como você interrompe esse contato consigo e com os outros. Pra isso, a terapeuta propõe experimentos na própria sessão. O mais conhecido é a cadeira vazia: você fala com alguém (ou com uma parte de você) como se estivesse sentado ali, e às vezes troca de lugar pra responder.

A Gestalt de hoje não é um bloco só. Há terapeutas mais confrontadores, mais perto do estilo de Fritz Perls, e outros que valorizam o diálogo e a relação e ficam mais próximos do jeito da ACP. Por isso vale perguntar como a profissional trabalha.

Como a mesma sessão seria na Gestalt e na ACP?

Imagine uma mulher que começa a falar da mãe e, no meio da frase, a voz fica apertada e ela cruza os braços.

Na Gestalt, a terapeuta pode parar a conversa ali: “percebe o que aconteceu com a sua voz agora?”. Depois, talvez proponha que ela diga à mãe, na cadeira vazia, o que ficou engasgado, e que depois troque de cadeira e responda como a mãe. O que estava sendo contado passa a ser vivido na sala.

Na ACP, eu acompanharia o que ela está dizendo e, se fizer sentido, devolveria o que percebo: “parece que falar dela te aperta”. Se ela quiser seguir por aí, a gente segue; se preferir mudar de assunto, eu vou junto. Não proponho exercício. A aposta é que, sentindo-se compreendida, ela mesma chegue perto do que dói, no tempo dela.

As duas buscam o mesmo: que a pessoa entre em contato com o que sente. A Gestalt oferece um empurrão com a técnica; a ACP oferece a relação e espera.

Por que as duas são chamadas de humanistas se trabalham tão diferente?

Porque “humanista” diz respeito à visão de ser humano, e nisso elas concordam: cada pessoa tem uma tendência a crescer, a experiência vivida no presente importa, e a terapia é uma relação entre duas pessoas, sem a terapeuta no lugar de quem sabe mais sobre a sua vida do que você.

Onde elas se separam é no método. Carl Rogers apostou que certas condições da relação (empatia, aceitação e autenticidade da terapeuta) bastariam pra mudança acontecer. A Gestalt aposta que, além da relação, experimentar algo na sessão ajuda a pessoa a perceber o que ela faz e ainda não vê.

O que a pesquisa diz quando junta a escuta da ACP com técnicas da Gestalt?

Há pouca pesquisa sobre a Gestalt-terapia como um todo. Uma revisão sistemática de 2019 encontrou só 11 estudos publicados em doze anos e descreveu a eficácia da Gestalt como um tema controverso e pouco investigado, com resultados favoráveis principalmente em grupo.

As técnicas vindas da Gestalt foram mais estudadas dentro da terapia focada nas emoções, desenvolvida por Leslie Greenberg e colegas, que junta a relação da ACP com intervenções mais ativas. Num ensaio de 1995, pessoas com mágoas não resolvidas com alguém importante fizeram terapia com o diálogo da cadeira vazia ou participaram de um grupo de informação sobre o tema; a terapia teve melhora maior em todas as medidas, mantida no acompanhamento.

O estudo que mais se aproxima da pergunta “Gestalt ou ACP” é de 2006: 38 pessoas com depressão fizeram terapia centrada no cliente ou terapia focada nas emoções, que acrescenta intervenções ativas à mesma relação empática. As duas melhoraram em sintomas, autoestima e problemas de relação, e a melhora nos sintomas foi maior no grupo com as intervenções ativas. É um estudo pequeno, e a terapia focada nas emoções é diferente da Gestalt-terapia, então ele sugere, mas não decide, a comparação.

Como saber se você vai se sentir melhor com uma terapeuta mais ativa ou mais silenciosa?

Algumas perguntas ajudam. Não há resposta certa, e dá pra mudar de ideia depois de começar.

  • Você sente que já falou muito sobre o problema e nada se mexe? Um convite a experimentar, como na Gestalt, pode abrir outro caminho.
  • Quando alguém te propõe um exercício, você se anima ou trava? Se trava, uma condução mais aberta, como a da ACP, costuma ser mais confortável.
  • O que você mais precisa agora é ser ouvida sem pressão? Isso é o centro da ACP.
  • Você presta atenção no próprio corpo e gostaria de usar isso na terapia? A Gestalt trabalha com o corpo de forma explícita.
  • Depois de algumas sessões, você se sente compreendida por quem te atende? Em qualquer abordagem, isso conta muito.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Gestalt
Costuma fazer mais sentido quando você quer uma terapia mais vivencial, em que o que dói é experimentado na sessão e não só contado, e se sente bem com uma terapeuta que propõe, aponta e às vezes confronta. Também quando o corpo é parte importante do que você sente. Se experimentos te deixam desconfortável, ou se você está num momento muito frágil e precisa de uma escuta mais tranquila, a ACP pode ser mais adequada. E se a sua queixa é um sintoma bem definido, como pânico ou fobia, a TCC tem mais pesquisa pra isso do que as duas.
ACP
Costuma fazer mais sentido quando você precisa de espaço pra entender o que sente no seu ritmo, sem ser conduzida, e quer uma relação próxima e sem julgamento. Serve bem a quem atravessa uma mudança grande ou não sabe bem o que está sentindo. Se você quer que a terapeuta tome mais iniciativa, proponha exercícios e trabalhe com o corpo, a Gestalt pode ser uma escolha melhor pra você.

Perguntas frequentes

Gestalt-terapia funciona?

Há pouca pesquisa com a Gestalt-terapia como um todo. Uma revisão de 2019 encontrou 11 estudos em doze anos, com resultados favoráveis principalmente em grupo, e chamou o tema de controverso e pouco investigado. Técnicas vindas dela, como a cadeira vazia, têm ensaios com bons resultados dentro da terapia focada nas emoções. Menos estudos não quer dizer que ela não ajude, mas quer dizer que se sabe menos sobre pra quem e em que casos.

O que é a técnica da cadeira vazia?

É um experimento que vem da Gestalt-terapia: você fala com alguém importante, ou com uma parte de você, como se essa pessoa estivesse sentada numa cadeira à sua frente, e às vezes troca de lugar pra responder. Costuma ser usada pra mágoas e conversas que ficaram por fazer. Num ensaio de 1995, a terapia com esse diálogo trouxe melhora maior do que um grupo de informação sobre o tema.

A ACP é só escutar?

É escutar de um jeito ativo. Na ACP, eu busco compreender o que você vive do seu ponto de vista, devolvo o que percebo, pergunto quando algo não fica claro e digo o que estou sentindo quando isso ajuda o seu processo. O que eu não faço é dirigir: não dou tarefa, não proponho exercício e não digo o que você deve fazer.

A Gestalt é mais rápida que a ACP?

Não há pesquisa que compare a duração das duas. A Gestalt pode mobilizar emoções mais depressa, por causa dos experimentos, mas isso não quer dizer que o processo todo termine antes. Nas duas, a duração costuma ser combinada com a pessoa, e depende do que ela traz.

Gestalt-terapia vem da psicanálise?

Em parte. Fritz e Laura Perls tinham formação psicanalítica e romperam com ela pra criar a Gestalt-terapia, junto com Paul Goodman. A Gestalt trouxe outras influências, como a psicologia da Gestalt e a fenomenologia, e hoje é considerada uma abordagem humanista, ao lado da ACP.

Terapia focada nas emoções é Gestalt ou ACP?

Nenhuma das duas, exatamente. A terapia focada nas emoções, de Leslie Greenberg e colegas, junta a relação empática da ACP com intervenções mais ativas voltadas pra emoção, algumas delas vindas da Gestalt, como o trabalho com cadeiras. Também é considerada humanista e tem formatos com número de sessões previsto.

Posso pedir pra minha terapeuta de ACP propor exercícios?

Pode e deve falar disso, porque o que você sente sobre a terapia é assunto da terapia. Uma terapeuta da ACP vai escutar esse pedido com atenção, e juntas vocês podem ver se ele é sobre o jeito da abordagem ou sobre algo do momento. Se ficar claro que você precisa de uma condução mais ativa, procurar uma gestalt-terapeuta é uma escolha legítima.

De onde vem cada afirmação

  1. Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95-103. Artigo em que Rogers propõe as condições da relação terapêutica, entre elas empatia, aceitação e autenticidade, que são a base da ACP.
  2. Raffagnino, R. (2019). Gestalt therapy effectiveness: A systematic review of empirical evidence. Open Journal of Social Sciences, 7(6), 66-83. Revisão sistemática de 11 estudos publicados em doze anos: descreve a eficácia da Gestalt-terapia como tema controverso e pouco investigado, com resultados favoráveis principalmente em grupo.
  3. Paivio, S. C. & Greenberg, L. S. (1995). Resolving “unfinished business”: Efficacy of experiential therapy using empty-chair dialogue. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 63(3), 419-425. Ensaio com 34 pessoas com mágoas não resolvidas com alguém importante: a terapia experiencial com o diálogo da cadeira vazia, técnica da Gestalt, teve melhora maior que um grupo psicoeducativo em todas as medidas, mantida no acompanhamento.
  4. Goldman, R. N., Greenberg, L. S. & Angus, L. (2006). The effects of adding emotion-focused interventions to the client-centered relationship conditions in the treatment of depression. Psychotherapy Research, 16(5), 537-549. Ensaio com 38 pessoas com depressão maior: terapia centrada no cliente e terapia focada nas emoções melhoraram sintomas, autoestima e problemas de relação; a melhora nos sintomas foi maior com as intervenções focadas nas emoções.
  5. Barkham, M., Saxon, D., Hardy, G. E., Bradburn, M., Galloway, D., Wickramasekera, N. et al. (2021). Person-centred experiential therapy versus cognitive behavioural therapy delivered in the English Improving Access to Psychological Therapies service for the treatment of moderate or severe depression (PRaCTICED): a pragmatic, randomised, non-inferiority trial. The Lancet Psychiatry, 8(6), 487-499. Ensaio com 510 pessoas com depressão moderada ou grave: a terapia experiencial centrada na pessoa foi equivalente à TCC em seis meses, e a TCC teve resultado melhor em doze.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

Se sentir que este espaço faz sentido pra você, podemos conversar com calma.

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