Psicanálise: o que é, como funciona e quais são os tipos
O que é psicanálise, como é uma sessão, os tipos de psicanálise (freudiana, kleiniana, lacaniana, winnicottiana), o que a pesquisa mostra e como escolher um psicanalista.
Psicanálise é um jeito de tratar o sofrimento psíquico criado por Sigmund Freud no fim do século 19, em Viena. A ideia central é que parte do que a gente sente, pensa e repete vem de conteúdos inconscientes, ligados à nossa história e às primeiras relações. Na sessão, você fala o mais livremente que conseguir, e o analista escuta o que se repete, o que escapa e o que fica entre as palavras. A psicanálise é ao mesmo tempo uma teoria sobre a mente, um método de investigação e uma forma de tratamento.
Eu sou psicóloga da Abordagem Centrada na Pessoa, não sou psicanalista. Este texto é pra quem quer entender a psicanálise antes de escolher uma terapia.
O que é psicanálise, em poucas palavras
Freud começou atendendo pacientes com sintomas que a medicina da época não explicava. Ele percebeu que, quando as pessoas falavam sem censura, apareciam lembranças, desejos e conflitos que elas mesmas não sabiam que carregavam. Daí nasceram algumas ideias que até hoje organizam a psicanálise:
- Inconsciente. Boa parte da vida psíquica acontece fora da consciência e influencia escolhas, sintomas, sonhos e atos falhos.
- Conflito. O sofrimento costuma vir de forças que puxam pra lados diferentes dentro da mesma pessoa, como desejo e proibição.
- História. A infância e as primeiras relações deixam marcas que voltam, de outro jeito, na vida adulta.
- Transferência. Na relação com o analista, a pessoa revive modos antigos de se relacionar, e isso vira material de trabalho.
- Sintoma com sentido. O sintoma não é só um defeito a ser removido. Ele diz alguma coisa sobre quem sofre.
Dois livros costumam marcar o começo: Estudos sobre a histeria, que Freud escreveu com Josef Breuer em 1895, e A interpretação dos sonhos, de 1900.
Como funciona a psicanálise na prática
A regra básica é a associação livre: você fala o que vier à cabeça, mesmo o que parece bobo, vergonhoso ou fora do assunto. O analista escuta com o que Freud chamou de atenção flutuante, sem se agarrar a um tema, e intervém de forma pontual. Às vezes uma pergunta, às vezes uma interpretação, às vezes o silêncio.
Algumas coisas que costumam fazer parte:
- Frequência. Varia muito. Há quem atenda uma vez por semana e há análises com várias sessões semanais.
- Divã. Muitos analistas usam o divã, pra que a pessoa fale sem olhar pro rosto de quem escuta. Outros atendem frente a frente, principalmente no começo ou online.
- Duração. Costuma ser longa e sem prazo fechado. Existem formatos breves, que você vai ver mais abaixo.
- Sem tarefas. Não há exercício pra casa. Sonhos, lembranças e o que acontecer na semana podem voltar pra sessão.
Se você está comparando com a terapia que eu faço, a diferença principal é que na psicanálise o analista interpreta o que está por trás da fala, e na Abordagem Centrada na Pessoa eu acompanho o sentido que você mesma dá ao que vive, sem interpretar. Escrevi sobre isso em abordagem humanista ou psicanálise.
Tipos de psicanálise
Depois de Freud, a psicanálise se ramificou em escolas. Elas compartilham a ideia de inconsciente e a escuta da fala, e diferem no que enfatizam e em como conduzem a sessão.
Psicanálise freudiana
É a base de todas. Hoje, a linha mais ligada a Freud aparece nas sociedades filiadas à IPA, a Associação Psicanalítica Internacional, fundada em 1910. Trabalha com conflito, defesa, sexualidade num sentido amplo e transferência.
Psicanálise kleiniana
Vem de Melanie Klein, que atendeu crianças e deu muito peso às fantasias e angústias dos primeiros anos de vida. Fala em posições, como a esquizoparanoide e a depressiva, que seriam modos de sentir o mundo que se alternam ao longo da vida.
Psicanálise winnicottiana
Vem de Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês. Ele olhou muito pro ambiente: a mãe suficientemente boa, o espaço onde a criança pode brincar, o falso self que se forma quando a pessoa precisa se adaptar demais. Muita gente que procura psicanálise por causa da relação com a família se identifica com essa leitura.
Psicanálise lacaniana
Vem de Jacques Lacan, francês, que propôs um retorno a Freud com outra leitura. Para ele, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Muitos lacanianos trabalham com sessões de tempo variável, e a análise é voltada pra relação de cada um com o próprio desejo. No Brasil, é uma das linhas mais presentes. Comparei as duas maiores em psicanálise freudiana ou lacaniana.
Outras linhas
Há também a psicologia do ego, a psicologia do self, de Heinz Kohut, e a psicanálise relacional, entre outras. E existe a psicoterapia psicodinâmica, que usa as ideias da psicanálise num formato de uma ou duas sessões por semana, frente a frente, às vezes com tempo combinado. É nela que está quase toda a pesquisa.
Psicologia analítica, de Jung, é psicanálise?
Carl Jung trabalhou com Freud e depois rompeu com ele. A psicologia analítica é da mesma família das abordagens que trabalham com o inconsciente, mas tem teoria própria, com arquétipos, símbolos e o processo de individuação. Por isso costuma ser apresentada como outra escola. Expliquei a diferença em junguiana ou psicanálise.
Psicanálise tem comprovação científica?
Essa pergunta aparece muito, e a resposta tem duas partes.
A análise clássica, com várias sessões por semana durante anos, é difícil de colocar num ensaio clínico e foi pouco estudada desse jeito.
A psicoterapia psicodinâmica tem pesquisa. Em 2010, Jonathan Shedler publicou uma revisão no American Psychologist mostrando que os efeitos dela são da mesma ordem dos de outras terapias apresentadas como baseadas em evidência, e que a melhora tende a se manter depois do fim do tratamento. Em 2017, uma meta-análise de Steinert e colegas, feita em colaboração entre pesquisadores da psicodinâmica e da TCC, reuniu 23 ensaios e encontrou equivalência com tratamentos de eficácia já estabelecida. Em 2023, uma revisão de meta-análises concluiu que a psicodinâmica tem apoio empírico em depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e sintomas somáticos, com limites de qualidade parecidos com os de outras terapias.
Também há estudos em que outras abordagens saem à frente. Numa meta-análise de 2010, a TCC teve vantagem sobre a psicodinâmica em ansiedade e depressão. Pra transtornos de ansiedade bem definidos, como pânico, fobias e TOC, a TCC tem a base de pesquisa mais sólida. Contei esse debate com os dois lados em TCC ou psicanálise, e escrevi um texto só sobre o que é TCC.
Psicólogo e psicanalista são a mesma coisa?
Não. Psicóloga é quem se formou em Psicologia e tem registro ativo no Conselho Regional de Psicologia. Psicanalista é quem fez formação numa instituição psicanalítica, que costuma incluir análise pessoal, supervisão e estudo teórico. No Brasil, nenhuma lei regulamenta a profissão de psicanalista, e não existe um conselho próprio. Muitos psicanalistas também são psicólogos ou médicos e, nesse caso, respondem ao conselho da profissão de origem.
Na prática, vale perguntar onde a pessoa fez a formação, há quanto tempo atende e se tem registro em algum conselho. Detalhei isso em psicólogo ou psicanalista.
Pra quem a psicanálise costuma fazer sentido
Não existe abordagem certa pra todo mundo. A psicanálise costuma servir bem a quem:
- percebe um padrão que se repete, principalmente nos vínculos, e quer entender de onde vem;
- tem curiosidade sobre a própria história e tempo pra um processo longo;
- se sente à vontade falando livremente, sem roteiro e sem tarefa.
Pode servir menos a quem precisa de alívio rápido de um sintoma bem definido, como crises de pânico, ou a quem prefere estrutura e metas claras. Pra uma visão geral das linhas, escrevi sobre qual a melhor abordagem de psicologia. E se ainda está entendendo o que é fazer terapia, comece por o que é terapia.
Este texto não é diagnóstico nem indicação de tratamento. Se quiser olhar pra você com calma antes de escolher, o teste do fim da página pode ser um começo.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre psicanálise e psicologia?
Psicologia é uma ciência e uma profissão regulamentada, com várias abordagens dentro dela, como a TCC, a Abordagem Centrada na Pessoa e a própria psicodinâmica. Psicanálise é uma teoria e um método específicos, criados por Freud, que podem ser praticados por psicólogos, médicos ou pessoas com formação psicanalítica.
Quanto tempo dura uma psicanálise?
Não existe prazo fixo, e muitas análises duram anos. A psicoterapia psicodinâmica breve, usada em pesquisas e em serviços de saúde, pode ter de 8 a 16 sessões pra depressão. Ninguém pode garantir em quanto tempo você vai se sentir melhor.
Precisa deitar no divã?
Não necessariamente. Muitos analistas usam o divã, mas vários atendem frente a frente, principalmente no começo ou online. Pergunte como a pessoa trabalha.
Psicanálise funciona online?
Muitos psicanalistas atendem online hoje. Há quem defenda e quem tenha ressalvas dentro da própria psicanálise. O que conta é você conseguir falar com liberdade e ter privacidade durante a sessão.
Psicanálise serve pra ansiedade?
A psicoterapia psicodinâmica tem estudos em ansiedade, com evidência de qualidade moderada. Pra pânico, fobias e TOC, a TCC tem mais pesquisa e costuma ser a indicação mais comum.
Qual tipo de psicanálise é melhor?
Nenhum estudo comparou as escolas entre si de forma que permita dizer qual é melhor. O que mais pesa é como você se sente com quem te atende. Numa meta-análise com centenas de estudos, a qualidade da relação terapêutica apareceu associada ao resultado em abordagens diferentes.
Referências
- Freud, S. & Breuer, J. (1895). Estudos sobre a histeria.
- Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos.
- Shedler, J. (2010). The efficacy of psychodynamic psychotherapy. American Psychologist, 65(2), 98-109. doi.org/10.1037/a0018378
- Steinert, C., Munder, T., Rabung, S., Hoyer, J. & Leichsenring, F. (2017). Psychodynamic therapy: As efficacious as other empirically supported treatments? A meta-analysis testing equivalence of outcomes. American Journal of Psychiatry, 174(10), 943-953. doi.org/10.1176/appi.ajp.2017.17010057
- Leichsenring, F., Abbass, A., Heim, N., Keefe, J. R., Kisely, S., Luyten, P., Rabung, S. & Steinert, C. (2023). The status of psychodynamic psychotherapy as an empirically supported treatment for common mental disorders: an umbrella review based on updated criteria. World Psychiatry, 22(2), 286-304. doi.org/10.1002/wps.21104
- Tolin, D. F. (2010). Is cognitive-behavioral therapy more effective than other therapies? A meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 30(6), 710-720. doi.org/10.1016/j.cpr.2010.05.003
- National Institute for Health and Care Excellence. (2022). Depression in adults: treatment and management (NG222). ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK583074
- Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E. & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4), 316-340. doi.org/10.1037/pst0000172
Escolher uma abordagem não é escolher um time. É procurar o jeito de ser escutada que faz sentido pra você agora.
Continue se escutando
Quer continuar esse olhar pra dentro? O teste sobre autoimagem ajuda a enxergar padrões da sua crítica interna. 10 perguntas, 3 minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
Conversa sobre este texto
Se algo aqui te tocou, ou ficou uma dúvida, pode escrever. Eu leio tudo.
Pra continuar lendo
Se você chegou aqui procurando ajuda pra algo específico, tem caminho mais direto que continuar lendo.
