Como funciona a terapia: primeira sessão, o que falar e quantas sessões
Como funciona a terapia na prática: como é a primeira sessão, o que falar na terapia, quantas sessões de terapia são necessárias, frequência, sigilo e como saber se está ajudando.
A terapia funciona em encontros regulares, em geral de uns 50 minutos, uma vez por semana, presenciais ou online. Você fala sobre o que está vivendo e quem atende escuta, pergunta e trabalha com você do jeito da abordagem dela. Na primeira sessão, vocês se conhecem e combinam como vai ser. Não existe um número certo de sessões: depende do que você traz, e a melhora costuma ser mais rápida no começo. O que você fala ali fica protegido por sigilo.
Se você quer entender primeiro o que é terapia, comece por o que é terapia. Aqui eu falo do dia a dia.
Como funciona a terapia, passo a passo
- Primeiro contato. Você escreve ou liga pra profissional, tira dúvidas sobre horário, valor e formato, e marca a primeira sessão.
- Primeira sessão. Um encontro pra vocês se conhecerem. Você conta o que te trouxe, e ela explica como trabalha.
- Combinados. Frequência, horário, valor, o que acontece se você faltar, como funciona o sigilo.
- As sessões seguintes. É onde o trabalho acontece. O jeito varia muito com a abordagem.
- Revisões no caminho. De tempos em tempos, vale conversar sobre como você está e se a terapia está ajudando.
- O fim. A terapia termina quando você e a profissional percebem que faz sentido, ou quando você decide parar. Um fim conversado costuma ser melhor do que sumir.
Na abordagem em que eu trabalho, a Abordagem Centrada na Pessoa, não há tarefa nem roteiro. Em outras, como a TCC, é comum ter pauta e exercícios entre as sessões. Na psicanálise, a regra é falar livremente, às vezes no divã.
Como é a primeira sessão de terapia
Muita gente chega ansiosa achando que precisa explicar tudo direitinho. Não precisa.
Na primeira sessão, em geral:
- você conta, do seu jeito e no seu ritmo, o que te fez procurar terapia;
- a profissional faz algumas perguntas sobre a sua vida e o que você espera;
- ela explica como trabalha e tira suas dúvidas;
- vocês combinam os próximos passos, se fizer sentido pros dois lados.
Algumas profissionais usam questionários na primeira consulta, principalmente na TCC. Outras só conversam. Na minha primeira sessão, você fala e eu escuto. Nada é decidido nesse dia.
Também é uma chance de você avaliar a profissional. Você se sentiu à vontade? Ela te ouviu sem julgar? Explicou as coisas de um jeito que você entendeu? Essas impressões contam, porque a relação com quem atende é um dos fatores mais ligados ao resultado da terapia, em qualquer abordagem.
O que perguntar na primeira sessão
- Qual a sua abordagem e como costuma ser uma sessão?
- Você tem experiência com o que eu estou vivendo?
- Com que frequência a gente se encontraria?
- Como funciona o sigilo?
- Qual o valor e como é o pagamento? Se eu faltar, como fica?
O que falar na terapia
O que estiver aí. Não existe assunto pequeno demais nem errado. Algumas ideias pra quando der branco:
- Como foi a sua semana, mesmo que pareça sem graça.
- Algo que te incomodou, mesmo que pareça bobo.
- Um sonho, uma lembrança, uma música que ficou na cabeça.
- O que você não quer falar. Dizer "tem uma coisa que eu ainda não consigo contar" já é um começo.
- Como você está se sentindo na própria terapia, inclusive se algo te incomodou na última sessão.
- Que não sabe o que falar. É uma frase que abre muita coisa.
Chorar, ficar em silêncio, rir, mudar de assunto no meio: tudo isso cabe. Você não precisa chegar com a fala pronta.
Uma dica prática: se durante a semana surgir algo que você quer levar, anote no celular. Às vezes, na hora, some da cabeça.
Quantas sessões de terapia são necessárias?
Não existe um número que sirva pra todo mundo. O que a pesquisa mostra são tendências.
Em 1986, Kenneth Howard e colegas publicaram um estudo pioneiro tratando o número de sessões como a "dose" da psicoterapia. Desde então, vários estudos encontraram um padrão parecido: a melhora costuma ser mais rápida nas primeiras sessões e vai desacelerando depois.
Uma revisão sistemática de 2020, com 26 estudos feitos em serviços de rotina, estimou que as doses ligadas a bons resultados ficam entre 4 e 26 sessões, variando com o tipo de serviço, as pessoas atendidas e a forma de medir. A mesma revisão encontrou vantagem pra sessões semanais em comparação com encontros mais espaçados, e pouca evidência sobre quadros graves e crônicos, que costumam pedir mais tempo.
Outro estudo, com mais de 4.600 pessoas, mostrou que quem fez menos sessões melhorou mais depressa, e quem fez mais sessões melhorou mais devagar. Os autores concluíram que um limite de sessões igual pra todo mundo não atenderia as necessidades das pessoas.
Por isso eu não trabalho com prazo fechado nem prometo resultado em tantas sessões. Expliquei mais em terapia breve ou longa.
Com que frequência fazer terapia?
O ritmo mais comum é semanal, principalmente no começo. Num estudo com mais de 21 mil pessoas, quem ia toda semana chegou antes a uma melhora significativa do que quem ia a cada 15 dias, embora a mudança total no fim tenha sido parecida. Quinzenal pode caber quando a vida não comporta o semanal, mas tende a ir mais devagar e não basta numa crise. Veja terapia semanal ou quinzenal.
Terapia é sigilosa?
Sim. O sigilo é um dever da psicóloga, previsto no Código de Ética. O que você conta não é compartilhado com sua família, seu trabalho ou ninguém mais. O próprio Código prevê exceções pra situações graves, e mesmo nelas a psicóloga só compartilha o estritamente necessário. Se tiver dúvida, pergunte na primeira sessão.
Como saber se a terapia está funcionando
Não existe placar, e a melhora nem sempre é uma linha reta. Alguns sinais costumam aparecer:
- você se entende um pouco melhor;
- reage de outro jeito a situações que antes te derrubavam;
- consegue nomear o que sente;
- se sente à vontade com quem te atende, mesmo quando o assunto é difícil.
Algumas sessões são pesadas, e às vezes a pessoa se sente pior antes de se sentir melhor. Se depois de um tempo você sente que nada muda, ou não se sente bem com a profissional, fale disso na sessão. Trocar de psicóloga é um direito seu, e uma boa profissional recebe essa conversa sem se ofender.
Este texto não é diagnóstico. Se quiser olhar pra você antes de começar, o teste no fim da página leva poucos minutos. E muitas dúvidas práticas estão nas perguntas frequentes.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura uma sessão de terapia?
Em geral, uns 50 minutos. Algumas abordagens e situações usam sessões mais longas ou mais curtas. As minhas são de 50 minutos.
Terapia online funciona do mesmo jeito?
Na maior parte das situações, sim. Escrevi sobre isso em terapia online funciona? e explico como faço em terapia online.
Preciso saber o que eu tenho pra começar?
Não. Muita gente começa sem conseguir explicar o que sente, e entender isso faz parte do trabalho.
O psicólogo dá conselho?
Depende da abordagem, mas em geral a terapia não é sobre receber conselhos. Na TCC, a terapeuta propõe técnicas. Na ACP, que é a minha, eu não digo o que você deve fazer: acompanho você a encontrar o que faz sentido.
Quanto custa fazer terapia?
Varia muito com a cidade, a experiência da profissional e o formato. Expliquei valores e opções em quanto custa.
E se eu não gostar da psicóloga?
Pode trocar. Vale tentar algumas sessões e, se não encaixar, falar disso ou procurar outra pessoa. A relação importa muito.
Se estiver muito pesado
Se você está em sofrimento intenso agora ou pensando em se machucar, não espere a primeira sessão. Ligue para o CVV no 188, 24 horas e de graça, ou veja onde pedir ajuda agora.
Se fizer sentido conversar comigo, é por aqui.
Referências
- Howard, K. I., Kopta, S. M., Krause, M. S. & Orlinsky, D. E. (1986). The dose-effect relationship in psychotherapy. American Psychologist, 41(2), 159-164. doi.org/10.1037/0003-066X.41.2.159
- Robinson, L., Delgadillo, J. & Kellett, S. (2020). The dose-response effect in routinely delivered psychological therapies: A systematic review. Psychotherapy Research, 30(1), 79-96. doi.org/10.1080/10503307.2019.1566676
- Baldwin, S. A., Berkeljon, A., Atkins, D. C., Olsen, J. A. & Nielsen, S. L. (2009). Rates of change in naturalistic psychotherapy: Contrasting dose-effect and good-enough level models of change. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 77(2), 203-211. doi.org/10.1037/a0015235
- Erekson, D. M., Lambert, M. J. & Eggett, D. L. (2015). The relationship between session frequency and psychotherapy outcome in a naturalistic setting. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 83(6), 1097-1107. doi.org/10.1037/a0039774
- Flückiger, C., Del Re, A. C., Wampold, B. E. & Horvath, A. O. (2018). The alliance in adult psychotherapy: A meta-analytic synthesis. Psychotherapy, 55(4), 316-340. doi.org/10.1037/pst0000172
- Conselho Federal de Psicologia. (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005). site.cfp.org.br
Você não precisa chegar sabendo o que dizer. A terapia começa justamente do jeito que você chega.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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