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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Terapia de vidas passadas funciona? O que a pesquisa e os conselhos dizem

A terapia de vidas passadas (TVP) parte da ideia de reencarnação: sintomas de hoje viriam de experiências de vidas anteriores, acessadas por regressão, muitas vezes com hipnose. Não há evidência científica suficiente de que ela trate sofrimento psíquico: não encontrei ensaio clínico que a tenha testado. Estudos sobre memória mostram que, sob hipnose e sugestão, pessoas podem produzir lembranças detalhadas de identidades sugeridas. A TVP não está entre as práticas integrativas do SUS.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026

Lado a lado

Terapia de vidas passadas funciona? O que a pesquisa e os conselhos dizem: comparação lado a lado
CritérioTerapia de vidas passadasPsicoterapia
Ideia de baseTerapia de vidas passadas: Parte da hipótese da reencarnação: medos, angústias e outros sintomas teriam origem em acontecimentos de vidas anteriores.Psicoterapia: Parte de teorias sobre desenvolvimento, relações e sofrimento psíquico nesta vida, discutidas e testadas em pesquisa, com diferenças entre as abordagens.
Como é uma sessãoTerapia de vidas passadas: Quem conduz leva a pessoa a um estado de relaxamento profundo ou de hipnose e a guia pra “voltar” a cenas que seriam de outras vidas.Psicoterapia: Você conta o que está vivendo e sentindo, acordada e participando, e a profissional ajuda a entender e lidar com isso. O que aparece é retomado nas sessões seguintes.
Pesquisa sobre resultadosTerapia de vidas passadas: Não encontrei ensaio clínico que tenha testado a TVP como tratamento. Um artigo de ética médica de 2017 conclui que ela não é baseada em evidências.Psicoterapia: Ampla. Só pra depressão em adultos, uma meta-análise de 2021 reuniu 331 ensaios randomizados, com mais de 34 mil pacientes, e encontrou eficácia das principais abordagens.
O que se sabe sobre as lembrançasTerapia de vidas passadas: Em estudos com hipnose, pessoas produziram lembranças ricas e emocionadas de identidades que tinham sido sugeridas a elas, inclusive de personagens de ficção.Psicoterapia: A lembrança é trabalhada pelo que significa pra você hoje, sem que a profissional sugira o conteúdo do que você deveria lembrar.
Relação com crença religiosaTerapia de vidas passadas: Depende de aceitar a reencarnação como explicação dos sintomas.Psicoterapia: O Código de Ética proíbe a psicóloga de induzir convicções religiosas. A sua fé é respeitada e pode ser assunto da terapia, sem ser a base do tratamento.
HipnoseTerapia de vidas passadas: É usada com frequência pra conduzir a regressão.Psicoterapia: O CFP reconhece a hipnose como recurso auxiliar da psicóloga capacitada (Resolução CFP nº 13/2000). A resolução não trata de vidas passadas, e a hipnose é opcional na terapia.
Posição dos conselhosTerapia de vidas passadas: Não encontrei documento do CFP específico sobre TVP. Pra médicos, o CREMERJ concluiu em 2002 que ela não pode ser tida como prática de clínica psiquiátrica, por falta de rigor científico.Psicoterapia: A Resolução CFP nº 13/2022 exige que a psicoterapia use abordagens com comprovação, na literatura científica, de benefícios à saúde.
No SUSTerapia de vidas passadas: Não está entre as 29 práticas integrativas e complementares oferecidas no SUS. A hipnoterapia está.Psicoterapia: Faz parte do cuidado em saúde mental da rede pública, conduzida por profissionais de saúde.

O que é terapia de vidas passadas?

A terapia de vidas passadas, conhecida como TVP ou regressão a vidas passadas, parte da hipótese da reencarnação. A ideia é que uma fobia, uma tristeza sem explicação ou um padrão que se repete nas relações teria origem em algo vivido numa vida anterior, e que reviver essa cena ajudaria a resolver o sintoma de agora.

Na sessão, quem conduz costuma induzir um relaxamento profundo ou uma hipnose e fazer perguntas que levam a pessoa a “voltar” no tempo, até antes do nascimento. A pessoa descreve o que vê e sente, e o que aparece é lido como lembrança de outra vida.

Um artigo de ética médica publicado em 2017 registra que a TVP já foi usada por alguns médicos em quadros de ansiedade, de humor e outros, partindo do pressuposto de que eles refletiriam problemas de vidas passadas.

O que a pesquisa mostra sobre terapia de vidas passadas?

Procurei no PubMed, a maior base de pesquisa em saúde, ensaios clínicos que tivessem comparado a TVP com outro tratamento ou com um grupo de controle, e não encontrei nenhum. O autor do artigo de ética de 2017 chega à mesma conclusão: a TVP não é baseada em evidências, porque depende da hipótese da reencarnação, que não tem sustentação científica.

Isso quer dizer que não há evidência científica suficiente pra afirmar que a TVP trata ansiedade, fobia, depressão ou qualquer outro sofrimento psíquico. Não quer dizer que quem saiu aliviado de uma sessão esteja inventando. Quer dizer que ninguém mostrou, com método, que o alívio vem da regressão e que ele dura.

Pra comparar a escala: só sobre psicoterapia pra depressão em adultos, uma meta-análise de 2021 reuniu 331 ensaios randomizados, com mais de 34 mil pacientes.

As lembranças que aparecem na regressão são reais?

A experiência é real pra quem vive: as imagens aparecem, a emoção é intensa, e muita gente sai da sessão com a sensação de ter lembrado. O que a pesquisa sobre memória investigou é de onde vem esse conteúdo.

Em 1994, uma revisão sobre lembranças de vidas passadas, de abdução por extraterrestres e de rituais na infância mostrou um padrão comum: elas costumam surgir com hipnose e entrevistas que pedem, com insistência, aquele tipo de experiência, e que depois a tratam como memória verdadeira. A conclusão dos autores é que lembrar é reconstruir, e que a reconstrução se organiza pelas expectativas e crenças do momento.

Em 2015, um psiquiatra coreano fez dois experimentos: sob hipnose, sugeriu uma identidade de vida passada, ora uma pessoa histórica, ora um personagem de ficção. Cinco das seis pessoas produziram exatamente a identidade sugerida, com detalhes e emoção. Em 2009, um estudo nos Estados Unidos comparou pessoas que relatavam lembranças de vidas passadas com pessoas que não relatavam, e o primeiro grupo teve mais falsas lembranças num teste de memória de laboratório, sem diferença de inteligência.

Nada disso prova ou refuta a reencarnação, que é uma questão de fé. Mostra que uma cena vivida numa regressão não é, por si só, prova de que aconteceu, e que a sugestão de quem conduz pesa muito no que aparece.

Psicólogo pode fazer regressão a vidas passadas?

Não encontrei documento do Conselho Federal de Psicologia específico sobre TVP. O que existe são regras gerais que se aplicam a ela. A Resolução CFP nº 13/2000 reconhece a hipnose como recurso auxiliar da psicóloga que comprove capacitação, e proíbe o uso sensacionalista; ela não fala de vidas passadas.

O Código de Ética pede técnicas reconhecidamente fundamentadas na ciência psicológica (artigo 1º, alínea c), proíbe induzir convicções religiosas (artigo 2º, alínea b) e proíbe vincular o título de psicóloga a técnicas não reconhecidas pela profissão (artigo 2º, alínea f). A Resolução CFP nº 13/2022 exige que a psicoterapia tenha comprovação, na literatura científica, de benefícios à saúde. Uma orientação do CRP de Mato Grosso acrescenta que, se a psicóloga usa uma técnica não validada, precisa separá-la completamente da Psicologia, inclusive na divulgação.

Na medicina, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro aprovou em 2002 o Parecer nº 103/2002, segundo o qual a TVP não pode ser tida como prática de clínica psiquiátrica, porque lhe falta fundamentação e rigor científico.

E se eu acredito em reencarnação?

A reencarnação faz parte da fé de muita gente, em várias tradições religiosas e espirituais. Nesta página, eu não discuto se ela existe. Discuto uma coisa mais estreita: se reviver supostas cenas de outras vidas funciona como tratamento pra um sofrimento de agora, e pra isso ainda não há evidência.

A sua crença pode entrar na terapia do jeito que ela entra na sua vida: como fonte de sentido, de consolo, às vezes de conflito. O que a psicoterapia não faz é usar uma crença como explicação do seu sintoma nem trocar a sua fé pela minha.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Terapia de vidas passadas
Muita gente procura a TVP porque um medo, uma tristeza ou um padrão não tem explicação que faça sentido, e porque a ideia de outra vida conversa com a própria fé. Essa busca por sentido é legítima. Pelo que as fontes mostram, porém, não há base pra recomendá-la como tratamento. Se você pensa em fazer, vale saber que as cenas podem ser moldadas pela sugestão, prestar atenção se quem conduz propõe o conteúdo do que você deveria lembrar e não interromper um tratamento em curso por causa dela.
Psicoterapia
Faz mais sentido quando o sofrimento está atrapalhando a sua vida e você quer entender de onde ele vem, com uma profissional regulamentada, sigilo e acompanhamento contínuo. Medos intensos, tristeza que não passa e padrões que se repetem nas relações costumam ter história nesta vida, e ela pode ser olhada com calma, no seu ritmo. Se um remédio parecer necessário, essa decisão é com médico psiquiatra.

Perguntas frequentes

Terapia de vidas passadas funciona?

Não há evidência científica suficiente pra afirmar que funciona como tratamento. Não encontrei no PubMed nenhum ensaio clínico que tenha testado a TVP, e um artigo de ética médica de 2017 conclui que ela não é baseada em evidências. Quem sentiu alívio depois de uma sessão pode ter vivido algo real, mas não foi demonstrado que o alívio venha da regressão.

Terapia de vidas passadas é reconhecida no Brasil?

Não encontrei documento do Conselho Federal de Psicologia específico sobre ela. Pra médicos, o CREMERJ concluiu em 2002 que a TVP não pode ser tida como prática de clínica psiquiátrica. Ela também não está entre as 29 práticas integrativas oferecidas no SUS, lista em que a hipnoterapia aparece.

Regressão a vidas passadas faz mal?

Não encontrei estudo que tenha medido efeitos adversos da TVP. O risco mais discutido na literatura é o de criar lembranças falsas: sob hipnose e sugestão, pessoas produzem cenas detalhadas de identidades que foram sugeridas a elas. Outro risco é adiar um tratamento de que a pessoa precisa, principalmente quando o sofrimento já atrapalha o sono, o trabalho ou as relações.

Como saber se uma lembrança de vida passada é verdadeira?

Pela sensação, não dá. Estudos sobre memória mostram que lembrar é reconstruir, e que cenas criadas por sugestão podem vir com detalhes e emoção tão fortes quanto as de uma lembrança verdadeira. Num experimento de 2015, cinco de seis pessoas hipnotizadas produziram a identidade de vida passada que o pesquisador sugeriu, inclusive a de um personagem de ficção.

Psicólogo pode fazer terapia de vidas passadas?

Não há documento do CFP específico sobre TVP que eu tenha encontrado. O Código de Ética pede técnicas fundamentadas na ciência psicológica, proíbe induzir convicções religiosas e proíbe vincular o título de psicóloga a técnicas não reconhecidas pela profissão. A hipnose é permitida como recurso auxiliar, com capacitação, pela Resolução CFP nº 13/2000, que não trata de vidas passadas.

Terapia de vidas passadas resolve fobia?

Não há evidência científica suficiente de que resolva. A psicoterapia, por outro lado, tem pesquisa ampla em transtornos de ansiedade: uma meta-análise de 2018 reuniu 41 ensaios em que a terapia cognitivo-comportamental foi melhor do que placebo. Se o medo limita a sua rotina, vale procurar uma psicóloga, que pode indicar a abordagem com mais estudos pro seu caso.

Posso fazer TVP e terapia ao mesmo tempo?

Pode, a decisão é sua. Vale contar pra sua psicóloga, porque o que aparece numa regressão costuma mexer muito e também é assunto da terapia. Se você faz tratamento com remédio, não mude nada por causa da TVP sem falar com o médico que acompanha você.

De onde vem cada afirmação

  1. Andrade, G. (2017). Is past life regression therapy ethical?. Journal of Medical Ethics and History of Medicine, 10, 11. Artigo de ética médica: registra o uso da TVP em ansiedade e transtornos de humor, argumenta que ela não é baseada em evidências porque depende da hipótese da reencarnação e aponta o risco de implantar lembranças falsas.
  2. Spanos, N. P., Burgess, C. A. & Burgess, M. F. (1994). Past-life identities, UFO abductions, and satanic ritual abuse: the social construction of memories. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 42(4), 433-446. Revisão que mostra que lembranças de vidas passadas costumam surgir com hipnose e entrevistas que pedem esse tipo de experiência, e conclui que a lembrança é reconstruída segundo expectativas e crenças.
  3. Pyun, Y. D. (2015). Creating past-life identity in hypnotic regression. International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 63(3), 365-372. Dois experimentos em que a identidade de vida passada foi sugerida sob hipnose: cinco de seis pessoas produziram a identidade sugerida, com detalhes e emoção.
  4. Meyersburg, C. A., Bogdan, R., Gallo, D. A. & McNally, R. J. (2009). False memory propensity in people reporting recovered memories of past lives. Journal of Abnormal Psychology, 118(2), 399-404. Pessoas que relatavam lembranças de vidas passadas tiveram mais falsas lembranças num teste de memória de laboratório do que o grupo de comparação, sem diferença de inteligência.
  5. Cuijpers, P., Quero, S., Noma, H., Ciharova, M., Miguel, C., Karyotaki, E., Cipriani, A., Cristea, I. A. & Furukawa, T. A. (2021). Psychotherapies for depression: a network meta-analysis covering efficacy, acceptability and long-term outcomes of all main treatment types. World Psychiatry, 20(2), 283-293. Meta-análise de 331 ensaios randomizados com 34.285 pacientes: as principais psicoterapias são eficazes no tratamento da depressão em adultos. Usada aqui pra mostrar a escala da pesquisa em psicoterapia.
  6. Carpenter, J. K., Andrews, L. A., Witcraft, S. M., Powers, M. B., Smits, J. A. J. & Hofmann, S. G. (2018). Cognitive behavioral therapy for anxiety and related disorders: A meta-analysis of randomized placebo-controlled trials. Depression and Anxiety, 35(6), 502-514. Meta-análise de 41 ensaios que compararam a terapia cognitivo-comportamental com placebo psicológico ou de comprimido em transtornos de ansiedade e relacionados, com vantagem moderada pra terapia.
  7. Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (2002). Parecer CREMERJ nº 103/2002. CREMERJ (aprovado em sessão plenária de 26/07/2002). Conclui que a terapia de vidas passadas não pode ser tida como prática de clínica psiquiátrica, por lhe faltarem fundamentação e rigor científico. Vale para médicos.
  8. Conselho Federal de Psicologia (2000). Resolução CFP nº 013/2000: aprova e regulamenta o uso da Hipnose como recurso auxiliar de trabalho do Psicólogo. Conselho Federal de Psicologia (20/12/2000). Reconhece a hipnose como recurso auxiliar da psicóloga que comprove capacitação e veda o uso sensacionalista; não menciona vidas passadas.
  9. Conselho Federal de Psicologia (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005). Conselho Federal de Psicologia. Artigo 1º, alínea c: técnicas fundamentadas na ciência psicológica; artigo 2º, alínea b: vedação de induzir convicções religiosas; alínea f: vedação de vincular o título a técnicas não reconhecidas pela profissão.
  10. Conselho Federal de Psicologia (2022). Resolução nº 13, de 15 de junho de 2022: dispõe sobre diretrizes e deveres para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo. Conselho Federal de Psicologia (documento SEI 0610135, disponibilizado pelo CRP-SP). O artigo 14 exige, entre outros pontos, comprovação por meio da literatura científica de que a abordagem traz benefícios à saúde.
  11. Conselho Regional de Psicologia da 18ª Região (MT) (2024). Orientação técnica: uso de técnicas psicológicas e não psicológicas. CRP-MT (revisada em 09/01/2024). Orienta que a psicóloga separe completamente da Psicologia, inclusive na divulgação, uma técnica não validada que venha a usar, e lembra que a hipnose é permitida com formação adequada.
  12. Ministério da Saúde (2026). Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). gov.br/saude (consultado em 23/09/2026). Lista as 29 práticas integrativas oferecidas no SUS: a hipnoterapia está entre elas, a terapia de vidas passadas não.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

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