Autoestima: o que é, de onde vem e por que ela oscila
O que é autoestima, como ela se forma na infância e por que sobe e desce ao longo da vida. Uma explicação simples, sem frase pronta, pra você se entender.
Autoestima é o jeito como você se avalia e se trata por dentro. É a resposta, quase sempre silenciosa, pra pergunta "eu tenho valor?". Ela não é vaidade nem achar que é melhor que os outros. É a sensação de que você merece respeito, inclusive o seu, mesmo quando erra, mesmo quando não está no seu melhor dia.
Essa é a definição curta. Mas quem já sentiu a autoestima despencar numa segunda-feira e voltar no sábado sabe que a coisa é mais viva do que uma definição de dicionário.
O que é autoestima, na prática
Na psicologia, uma das formas mais conhecidas de entender a autoestima vem do sociólogo Morris Rosenberg, que nos anos 1960 descreveu a autoestima como a atitude, positiva ou negativa, que a pessoa tem em relação a si mesma. Foi ele que criou uma das escalas de autoestima mais usadas no mundo, que no Brasil foi adaptada e estudada por Hutz e Zanon.
Traduzindo pro dia a dia, ter uma autoestima razoavelmente saudável costuma parecer com isso:
- Conseguir reconhecer uma qualidade sua sem se sentir arrogante.
- Errar e pensar "errei", não "eu sou um erro".
- Dizer não sem precisar de uma lista de justificativas.
- Receber um elogio sem desconfiar dele na hora.
- Sentir que você tem direito de ocupar espaço, de pedir, de mudar de ideia.
Repare que nenhum desses itens fala em se achar linda, bem-sucedida ou perfeita. Autoestima não é a nota que você se dá. É o tom com que você fala com você.
Autoestima não é o mesmo que confiança
Muita gente confunde as duas coisas. Confiança costuma ser mais específica: você pode se sentir confiante pra cozinhar, dirigir ou apresentar um trabalho, e ao mesmo tempo sentir, lá no fundo, que não vale muito como pessoa.
Já vi isso acontecer muitas vezes com mulheres extremamente competentes. Por fora, dão conta de tudo. Por dentro, carregam a sensação de que a qualquer momento vão ser "descobertas". A competência está lá. O que falta é a sensação de valor que não depende dela.
De onde vem a autoestima
A autoestima não nasce pronta. Ela vai sendo construída, e boa parte dessa construção começa cedo, na forma como fomos olhadas quando ainda não sabíamos nos olhar.
Na infância
Criança aprende quem ela é pelo espelho dos adultos. Se esse espelho devolve, na maior parte do tempo, algo como "você é bem-vinda aqui, mesmo quando faz bagunça", a criança vai formando a ideia de que o seu valor não depende de acertar sempre.
Quando o espelho devolve outra coisa, como crítica constante, comparação com irmãos, amor que parece condicionado a bom comportamento ou a boas notas, ela pode aprender que precisa merecer o próprio lugar no mundo. E essa lição tem o costume de ficar.
Carl Rogers, que fundou a abordagem centrada na pessoa com a qual eu trabalho, chamava isso de "condições de valor": quando a gente aprende que só é digna de afeto se for de um certo jeito. Aos poucos, a pessoa vai se afastando do que sente de verdade pra caber no que esperam dela.
Na adolescência e na vida adulta
A história não termina na infância. A adolescência mexe muito com a autoestima, porque é quando o olhar dos colegas e a aparência ganham um peso enorme. Depois vêm as relações amorosas, o trabalho, a maternidade (ou a cobrança sobre ela), as perdas, as mudanças de corpo.
Cada uma dessas fases pode reforçar ou abalar o que foi construído antes. Uma relação que diminui, um ambiente de trabalho humilhante ou um término difícil podem mexer com uma autoestima que parecia firme. E o contrário também é verdade: vínculos bons, em qualquer idade, ajudam a reescrever parte dessa história.
Por que a autoestima oscila
É normal a autoestima oscilar. Ela não é um número fixo tatuado em você.
Alguns motivos comuns pra essa variação:
- Momento de vida. Fases de muita cobrança, perda ou mudança costumam balançar a forma como você se vê.
- Cansaço e sono. Quando você está exausta, a voz crítica fica mais alta e a gentil some.
- Comparação. Um tempo nas redes sociais pode ser suficiente pra você sair se sentindo menor, mesmo sem ter acontecido nada de concreto.
- Relações. Quem está perto de você influencia muito o tom da sua conversa interna.
- Oscilações hormonais e de humor. Muitas mulheres percebem mudanças na forma de se enxergar em diferentes momentos do ciclo, na gestação, no pós-parto e na menopausa.
O que costuma diferenciar uma autoestima mais estável de uma mais frágil não é nunca cair. É a base pra onde você volta depois da queda. Tem gente que tem um dia ruim e, no dia seguinte, recupera o chão. Tem gente que, a cada tropeço, parece confirmar uma velha certeza de que não vale nada.
Autoestima alta demais existe?
Existe uma confusão aqui. O que às vezes chamam de "autoestima alta demais" costuma ser, na verdade, uma autoestima frágil com uma armadura por cima: a pessoa precisa se mostrar superior o tempo todo porque, sem isso, não se sustenta.
Autoestima saudável é mais quieta. Ela não precisa diminuir ninguém pra se sentir bem. Ela consegue dizer "eu sou uma pessoa de valor" e "eu tenho coisas pra melhorar" na mesma frase, sem que uma anule a outra.
Como saber como anda a sua autoestima
Às vezes a gente só percebe o tamanho da autocrítica quando para pra olhar. Se quiser um ponto de partida, preparei um teste de autoestima online e gratuito baseado na Escala de Autoestima de Rosenberg, na versão brasileira. São poucas perguntas e você vê o resultado na hora.
Nenhum questionário conta a sua história inteira, mas dar nome ao que você anda sentindo já pode ser um começo.
Se você se reconheceu mais no lado difícil dessa conversa, talvez valha ler também sobre os sinais de autoestima baixa no dia a dia. Muitos deles passam despercebidos justamente porque viraram hábito.
Um jeito mais gentil de olhar pra isso
Se a sua autoestima anda baixa, isso não diz que você é fraca ou que fez algo errado. Diz que, em algum ponto, você aprendeu a se olhar com mais dureza do que merece. E o que foi aprendido em relação pode ser revisto em relação também, com tempo, com cuidado e sem pressa.
Na terapia, a gente não tenta te convencer de que você é incrível. A gente cria um espaço onde você possa se escutar sem o julgamento de sempre, e, aos poucos, perceber o que é seu e o que foi colocado em você.
Se em algum momento a dor de se sentir sem valor vier junto com pensamentos de sumir ou de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Continue se escutando
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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