Inteligência emocional: o que é, de onde veio e como desenvolver
O que é inteligência emocional segundo Salovey e Mayer, o que o livro de Goleman popularizou, as críticas ao conceito e como desenvolver essa habilidade no dia a dia.
Inteligência emocional é a capacidade de perceber, entender e lidar com as próprias emoções e com as emoções das outras pessoas, e de usar essa informação pra pensar e agir. O termo foi definido por dois psicólogos, Peter Salovey e John Mayer, num artigo de 1990, e ficou famoso em 1995 com o livro do psicólogo e jornalista Daniel Goleman. É um conceito útil, mas também é um dos mais discutidos da psicologia, e vale saber por quê.
Eu gosto da ideia por trás dele. Emoção não é o oposto da razão. Ela traz informação sobre o que importa pra você, e aprender a ler essa informação muda a vida de muita gente.
O que é inteligência emocional
Salovey e Mayer (1990) descreveram a inteligência emocional como um conjunto de habilidades: notar o que você e os outros estão sentindo, diferenciar uma emoção da outra e usar isso pra guiar o que você pensa e faz.
Mais tarde, eles organizaram essa ideia em quatro partes, que aparecem no artigo de atualização do modelo (Mayer, Caruso & Salovey, 2016):
- Perceber emoções. Reconhecer no próprio corpo, no rosto e na voz dos outros o que está acontecendo.
- Usar emoções pra pensar. Perceber que certos estados ajudam certas tarefas. Um pouco de tensão ajuda a revisar um texto, por exemplo.
- Entender emoções. Saber de onde elas vêm, como mudam e como se misturam. Raiva que vira culpa, ciúme que tem medo por baixo.
- Manejar emoções. Ficar aberta ao que sente e escolher o que fazer com isso, em você e nas relações.
Repare que, nesse modelo, a palavra é "manejar", não "controlar". A ideia não é parar de sentir. É conseguir sentir sem que a emoção decida tudo sozinha.
Goleman e a popularização do termo
Em 1995, Daniel Goleman publicou Inteligência emocional, que virou best-seller no mundo inteiro. O livro ampliou bastante o conceito. Além das habilidades com emoção, ele incluiu coisas como motivação, persistência, empatia e habilidades sociais, e trouxe a ideia, já no subtítulo em inglês, de que isso poderia importar mais que o QI.
Foi esse livro que levou a inteligência emocional pras empresas, pras escolas e pras redes sociais. E foi também essa versão ampliada que mais recebeu críticas.
As críticas ao conceito
A inteligência emocional não é uma unanimidade na pesquisa. Três pontos aparecem com frequência:
- O termo ficou largo demais. O próprio Mayer, com Salovey e Caruso (2008), separou o modelo de habilidade, que eles defendem, dos modelos "mistos", que juntam emoção com traços de personalidade, motivação e comportamento. Pra eles, quando tudo entra no pacote, o conceito perde a forma.
- Será que é mesmo uma inteligência? Edwin Locke (2005) escreveu um artigo com o título "Por que a inteligência emocional é um conceito inválido". Ele argumenta que chamar isso de inteligência confunde as coisas, e que seria mais preciso falar em habilidades.
- Sobreposição com o que já se conhecia. Uma meta-análise de Joseph e Newman (2010) discutiu quanto a inteligência emocional se confunde com QI e com traços de personalidade. Ela também encontrou uma relação inconsistente entre a inteligência emocional medida como habilidade e o desempenho no trabalho: ajudou em funções com muito contato emocional com pessoas, e não em outras.
Também há pouca base pra promessa de que a inteligência emocional, sozinha, explica sucesso na carreira ou na vida. Isso não torna o assunto inútil. Faz mais sentido tratá-lo como um conjunto de habilidades que se aprende, e não como um número que define quem você é.
Como desenvolver inteligência emocional
Do jeito que eu vejo na clínica, desenvolver inteligência emocional começa por uma coisa simples e difícil: prestar atenção no que você sente antes de julgar o que sente.
1. Dê nome ao que acontece
"Tô mal" é um começo, mas é pouco. É raiva, tristeza, medo, vergonha, cansaço? Um estudo de Lieberman e colegas (2007) mostrou que colocar a emoção em palavras reduziu a resposta da amígdala, uma região do cérebro ligada ao alarme. Nomear não resolve tudo, mas abaixa o volume. Escrevi um texto só sobre isso: como identificar suas emoções.
2. Procure a emoção no corpo
Muita emoção aparece primeiro como sensação: aperto no peito, mandíbula travada, estômago embrulhado. Perguntar "onde isso está em mim agora?" ajuda a perceber mais cedo, antes de explodir ou de se fechar.
3. Pergunte o que a emoção está dizendo
Raiva costuma apontar um limite atravessado. Tristeza, uma perda. Medo, algo que parece ameaçador. Não quer dizer que a leitura da emoção esteja sempre certa, mas ela traz uma pista que vale ouvir.
4. Crie um espaço entre sentir e agir
Respirar, sair da conversa por alguns minutos, escrever antes de responder a mensagem. Esse intervalo pequeno é onde a escolha aparece.
5. Olhe pro outro com curiosidade
A parte social da inteligência emocional passa por perguntar mais e supor menos. "Você ficou chateada com o que eu falei?" costuma funcionar melhor do que adivinhar e reagir ao que você adivinhou.
6. Repare nos padrões
Se toda discussão com a mesma pessoa termina igual, ou se você sempre engole o choro no trabalho, isso diz algo sobre a sua história. Perceber padrões é onde o autoconhecimento e a inteligência emocional se encontram.
Quando lidar com emoções é difícil demais
Algumas pessoas têm muita dificuldade de perceber e descrever o que sentem. Isso tem nome, alexitimia, e não é falta de inteligência nem frieza. Costuma ter a ver com a forma como as emoções foram recebidas lá atrás. Explico em o que é alexitimia, e o teste que aparece no fim deste texto ajuda a olhar pra isso.
Na terapia, na abordagem centrada na pessoa, que é como eu trabalho, a gente não treina emoção como quem treina músculo. A gente cria um lugar onde você possa sentir sem ser julgada. É nesse lugar que muita gente começa, pela primeira vez, a se escutar de verdade. Se a sua dificuldade estiver ligada a um quadro como ansiedade intensa ou depressão, eu te digo, e encaminho quando outro tratamento fizer mais sentido.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre inteligência emocional e QI?
QI mede habilidades como raciocínio, memória e resolução de problemas. Inteligência emocional, no modelo de Salovey e Mayer, fala de perceber e lidar com emoções. As duas coisas se relacionam um pouco, mas não são a mesma. Uma pessoa pode ir muito bem numa e ter dificuldade na outra.
Inteligência emocional se aprende?
Boa parte, sim. Nomear emoções, perceber o corpo, criar um intervalo antes de reagir e escutar o outro são coisas que se praticam. Ninguém nasce pronta, e ninguém chega num ponto final.
Ter inteligência emocional é nunca perder a calma?
Não. Pessoas com boa relação com as emoções também choram, se irritam e erram. A diferença costuma estar no que acontece depois: perceber, reparar quando for o caso e entender o que aquilo mostrou.
Existe teste de inteligência emocional confiável?
Existem testes usados em pesquisa, como o MSCEIT, criado por Mayer, Salovey e Caruso. Os testes rápidos da internet costumam medir outra coisa, geralmente como você se vê. Aqui no site eu tenho testes de autoconhecimento sobre temas específicos, e nenhum deles mede inteligência emocional. Teste online não é diagnóstico, é um ponto de partida pra conversa.
Goleman é psicólogo?
Goleman tem doutorado em psicologia pela Universidade Harvard e trabalhou como jornalista de ciência no The New York Times. Ele se apoiou no trabalho de Salovey e Mayer pra escrever o livro. A definição original do conceito é deles.
Referências
- Salovey, P. & Mayer, J. D. (1990). Emotional intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185-211. doi.org/10.2190/DUGG-P24E-52WK-6CDG
- Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.
- Mayer, J. D., Salovey, P. & Caruso, D. R. (2008). Emotional intelligence: New ability or eclectic traits? American Psychologist, 63(6), 503-517. doi.org/10.1037/0003-066X.63.6.503
- Mayer, J. D., Caruso, D. R. & Salovey, P. (2016). The ability model of emotional intelligence: Principles and updates. Emotion Review, 8(4), 290-300. doi.org/10.1177/1754073916639667
- Locke, E. A. (2005). Why emotional intelligence is an invalid concept. Journal of Organizational Behavior, 26(4), 425-431. doi.org/10.1002/job.318
- Joseph, D. L. & Newman, D. A. (2010). Emotional intelligence: An integrative meta-analysis and cascading model. Journal of Applied Psychology, 95(1), 54-78. doi.org/10.1037/a0017286
- Lieberman, M. D. et al. (2007). Putting feelings into words. Psychological Science, 18(5), 421-428. doi.org/10.1111/j.1467-9280.2007.01916.x
Sentir muito não é defeito. O trabalho é aprender a escutar o que você sente, e isso se faz aos poucos, com gentileza.
Continue se escutando
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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