Hipomania: sintomas da fase que parece só empolgação
Hipomania: sintomas como dormir pouco sem cansaço, gastar, falar muito e se sentir capaz de tudo. Veja quando a empolgação vira sinal e pede avaliação.
Os sintomas da hipomania costumam ser: dormir bem menos que o normal e não sentir cansaço, falar mais e mais rápido, ter muitas ideias ao mesmo tempo, gastar ou se arriscar mais do que o habitual, se sentir extraordinariamente confiante ou, às vezes, muito irritada. A diferença pra uma simples fase boa é que essa mudança dura dias seguidos, foge do seu jeito de ser e é percebida por quem está perto de você.
A hipomania é uma das fases do transtorno bipolar, especialmente do tipo 2. E ela é traiçoeira justamente porque, muitas vezes, é gostosa de viver.
O que é hipomania
Hipomania é um período de humor elevado, expansivo ou irritável, com aumento de energia, que dura alguns dias. Ela é uma versão mais leve da mania. Na mania, a intensidade é maior, a vida fica visivelmente desorganizada e às vezes a pessoa precisa ser internada. Na hipomania, a pessoa geralmente continua trabalhando, saindo, cuidando das coisas. Às vezes até mais do que antes.
Por isso ela passa despercebida. Quem está vivendo acha que finalmente está bem. Quem está em volta acha que a pessoa está animada. E ninguém pensa em procurar um médico por causa disso.
Hipomania: sintomas mais comuns no dia a dia
Dormir pouco e acordar cheia de energia
Esse é um dos sinais mais importantes. Não é a insônia de quem deita e não consegue dormir, cansada. É dormir quatro, cinco horas e levantar disposta, como se o corpo não precisasse de mais. Às vezes a pessoa nem sente vontade de deitar, porque tem coisa demais pra fazer.
Gastar mais do que costuma
Compras por impulso, parcelamentos que depois assustam, presentes caros, investimentos arriscados, viagens decididas de uma hora pra outra. Na hora parece uma boa ideia. Depois, quando a fase passa, vem a fatura e, muitas vezes, a culpa.
Falar muito, rápido, com a cabeça acelerada
As ideias vêm em cascata, uma puxando a outra. A pessoa fala mais, interrompe, muda de assunto, manda mensagens longas pra muita gente. Os pensamentos parecem correr mais rápido do que a boca consegue acompanhar.
Se sentir capaz de tudo
Uma confiança fora do comum. Começar vários projetos ao mesmo tempo, se oferecer pra tudo, ter certeza de que vai dar certo. Às vezes isso até rende coisas boas. O problema é quando a confiança passa a ignorar riscos reais.
Irritação e impaciência
Nem toda hipomania é alegre. Em muitas pessoas ela aparece como pavio curto, impaciência com a lentidão dos outros, brigas por pouca coisa. A energia está lá, mas vem com irritação em vez de euforia.
Mais impulsividade no geral
Pode aparecer em decisões rápidas, em mais vontade de sair e socializar, em aumento do desejo sexual, em dirigir mais rápido, em dizer coisas que normalmente você guardaria.
Hipomania ou felicidade? Como diferenciar
Ninguém quer transformar alegria em sintoma. Alguns critérios ajudam:
- Tem motivo e proporção? Ficar animada com uma boa notícia é esperado. Na hipomania, a energia sobe muito além do que a situação pediria, ou sem motivo claro.
- Quanto tempo dura? Um dia bom é um dia bom. A hipomania é um estado que se mantém por vários dias seguidos.
- O sono mudou? Esse costuma ser um termômetro confiável. Precisar de bem menos sono sem sentir falta é diferente de dormir tarde uma noite porque estava se divertindo.
- As pessoas perceberam? Quando amigos, família ou colegas comentam que você está "diferente", "a mil", "estranha", vale escutar.
- Deixou consequências? Dívidas, brigas, arrependimentos, compromissos assumidos demais.
Uma fase feliz costuma deixar lembranças boas. Uma fase de hipomania muitas vezes deixa lembranças boas e também uma bagunça pra arrumar depois.
Quando a empolgação vira sinal
Um episódio isolado de energia alta não quer dizer transtorno bipolar. Mas a hipomania merece atenção principalmente quando:
- Aparece junto com fases de depressão em outros momentos da vida.
- Se repete, como um ciclo.
- Vem depois de começar um antidepressivo. Nesse caso, avise o médico que te acompanha, sem esperar a próxima consulta.
- Traz consequências que você não teria em outro momento.
- Tem história de transtorno bipolar na família.
Muita gente só descobre a bipolaridade depois de anos tratando uma depressão, porque as fases de alta nunca entraram na conversa. Escrevi mais sobre isso em bipolaridade ou depressão.
O que acontece depois da hipomania
Muitas vezes, depois da subida vem uma descida. A energia acaba, o sono volta a pesar, e pode chegar uma fase de tristeza, cansaço e desânimo. É comum também vir culpa e vergonha pelo que foi dito ou feito durante a fase de alta.
Se você se reconhece nessa gangorra: o que acontece nessas fases não é falha de caráter nem falta de força de vontade. É uma mudança no funcionamento do humor, que tem tratamento e que merece ser olhada sem julgamento.
Como saber se estou em hipomania
É difícil perceber de dentro, porque a própria hipomania diminui a autocrítica. Algumas coisas ajudam:
- Anotar o sono todos os dias. Mudanças bruscas aparecem logo.
- Fazer um diário de humor simples, dando uma nota de 1 a 10 pra como você está e anotando o que aconteceu.
- Combinar com alguém de confiança que te avise quando perceber que você está diferente.
- Olhar pra trás com honestidade: já teve outras fases assim? O que veio depois?
Se quiser um ponto de partida organizado, preparei um teste de bipolaridade com perguntas sobre sintomas de hipomania e depressão. Ele pode te ajudar a juntar as peças pra conversar com um profissional.
Quem avalia a hipomania
Quem faz o diagnóstico de hipomania e de transtorno bipolar é o psiquiatra. Ele vai conversar sobre a sua história, entender a duração e a intensidade das fases e decidir, junto com você, qual tratamento faz sentido.
A psicoterapia caminha junto. Ela ajuda a reconhecer os primeiros sinais de mudança, criar uma rotina que proteja o sono, lidar com as consequências das fases e cuidar da culpa que costuma aparecer depois. Meu papel é acolher e acompanhar você nesse processo, em parceria com o médico.
Se a fase pesar demais
Se a fase de alta vier com pensamentos muito acelerados, sensação de estar perdendo o controle, ou se a descida depois dela trouxer vontade de desaparecer ou de se machucar, procure ajuda. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Em situação de risco imediato, procure um pronto-socorro.
Empolgação não é problema. Mas quando ela tira o seu sono, o seu dinheiro e a sua paz, vale olhar com carinho pro que está acontecendo.
Continue se escutando
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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