Alexitimia: o que é e por que é tão difícil dizer o que você sente
O que é alexitimia: a dificuldade de perceber, nomear e descrever as próprias emoções. Entenda a origem do termo, o que ela é e o que ela não é.
Alexitimia é a dificuldade de perceber, reconhecer e colocar em palavras o que você está sentindo. Não é falta de sentimento. A emoção acontece, o corpo reage, mas ela chega meio sem nome, meio embaralhada, e fica difícil dizer "isso aqui é tristeza" ou "isso aqui é raiva".
Ela não é uma doença. É um traço, algo que existe em graus diferentes em pessoas diferentes, e que pode mudar ao longo da vida.
Se você chegou até aqui porque alguém já te disse "você nunca fala o que sente", ou porque você mesma se pega respondendo "sei lá" quando perguntam como você está, esse texto é pra você.
O que é alexitimia, em palavras simples
Imagina que as emoções são mensagens chegando pelo celular. Pra maioria das pessoas, a notificação aparece com o nome de quem mandou: "tristeza", "medo", "saudade". Na alexitimia, a mensagem chega, o celular vibra, mas o nome não aparece. Você sente que tem alguma coisa ali, às vezes sente até muito, mas não sabe direito o quê.
Por isso é tão comum a pessoa perceber a emoção primeiro pelo corpo. Um aperto no peito, um nó no estômago, uma dor de cabeça que aparece do nada, uma irritação que parece vir de lugar nenhum.
De onde vem a palavra alexitimia
O termo foi proposto nos anos 1970 pelo psiquiatra Peter Sifneos, que atendia pacientes com queixas físicas e percebia neles uma dificuldade grande de falar sobre a própria vida emocional.
A palavra vem do grego: "a" (sem), "lexis" (palavra) e "thymos" (emoção). Ao pé da letra, algo como "sem palavras para as emoções". Acho uma tradução bonita, porque mostra que o problema não está no sentir, está no traduzir.
Depois disso, a alexitimia passou a ser bastante estudada. Um dos instrumentos mais conhecidos pra pesquisar o tema é a Escala de Alexitimia de Toronto (TAS-20), usada em estudos no mundo inteiro.
Os três jeitos em que a alexitimia costuma aparecer
Os pesquisadores costumam descrever a alexitimia a partir de três dificuldades que se misturam:
- Dificuldade de identificar o que sente. Você percebe que algo mudou, mas não sabe dizer se é medo, raiva, cansaço ou tristeza.
- Dificuldade de descrever o que sente pros outros. Mesmo quando tem uma ideia, faltam palavras, ou falar parece estranho, exposto demais.
- Um jeito de pensar mais voltado pra fora. A atenção fica nos fatos, nas tarefas, no que precisa ser resolvido, e pouco no que está acontecendo por dentro.
Nem todo mundo tem as três na mesma intensidade. Tem gente que sabe o que sente, mas trava na hora de falar. Tem gente que fala bem, mas não consegue identificar a emoção no momento.
O que a alexitimia não é
Algumas confusões aparecem muito:
Não é frieza. Pessoas com traços de alexitimia podem ser muito afetuosas, cuidadosas, presentes. Elas demonstram carinho mais pelo que fazem do que pelo que falam.
Não é falta de empatia por escolha. Às vezes fica difícil perceber a emoção do outro, sim, mas isso tem mais a ver com a dificuldade de ler emoções em geral do que com não se importar.
Não é um diagnóstico. A alexitimia não aparece como um transtorno nos manuais de diagnóstico. Ela é entendida como um traço de personalidade, que pode aparecer sozinho ou junto com outras questões, como ansiedade, depressão, trauma ou autismo.
Não é uma sentença. Como é um traço, e não algo fixo, muita gente vai desenvolvendo, aos poucos e cada uma no seu ritmo, um vocabulário emocional maior e uma escuta mais fina do próprio corpo.
Alexitimia é doença?
Não. É um jeito de funcionar emocionalmente que pode trazer sofrimento, principalmente nas relações e na saúde do corpo, e por isso merece atenção.
Pra saber se isso faz sentido pra você, o caminho mais seguro é uma conversa com uma psicóloga. Mas um bom ponto de partida é se observar. Criei um teste de alexitimia online e gratuito, com perguntas que ajudam você a olhar pra como lida com o que sente.
Se quiser entender os sinais mais comuns do dia a dia, escrevi também sobre os sinais de alexitimia.
Por que é tão difícil dizer o que você sente
Muitas mulheres que chegam no meu consultório com esse jeito de funcionar cresceram em casas onde sentir não tinha muito espaço. Chorar era "drama", ficar brava era "falta de educação", ficar triste era "ingratidão". A criança aprende rápido que é mais seguro não sentir, ou pelo menos não mostrar.
Com o tempo, essa proteção vira hábito. A emoção passa a ser percebida como um incômodo físico, ou como uma coisa a ser resolvida rápido, antes que ocupe espaço demais. E a pessoa segue a vida sendo funcional, prática, dando conta, mas com a sensação de que algo não encaixa.
Não é a única origem possível. Fatores de temperamento, do neurodesenvolvimento e experiências difíceis também podem ter um papel. Mas a história de como as emoções foram recebidas na infância costuma ser um pedaço importante.
Como a alexitimia aparece na vida adulta
Alguns exemplos que costumo ouvir, de jeitos diferentes:
- Você percebe que estava muito mal só depois, quando o corpo adoece ou quando você explode.
- Nas discussões, você trava, fica em branco, e só dias depois consegue entender o que sentiu.
- Perguntas como "como você está se sentindo com isso?" te deixam desconfortável ou sem resposta.
- Você é ótima em resolver problemas dos outros, mas os seus ficam num lugar difícil de acessar.
- Seu corpo reclama com frequência, e os exames não mostram nada que explique.
Nada disso, sozinho, significa alexitimia. Mas quando vários aparecem juntos e há muito tempo, vale olhar com carinho.
O que ajuda quando sentir não tem nome
Dá pra ir aprendendo a nomear, aos poucos. Não de um jeito forçado, tipo "agora vou sentir as coisas certas", mas criando espaço pra perceber o que já está aí.
Na abordagem centrada na pessoa, que é a forma como eu trabalho, a terapia é um lugar onde você não precisa chegar sabendo o que sente. A gente vai junto, sem pressa, prestando atenção no que aparece, inclusive no corpo, no silêncio, no "sei lá". Muitas vezes é justamente ali, no "sei lá", que mora alguma coisa importante.
Aos poucos, a emoção que antes chegava sem nome começa a ganhar contorno. E quando ela tem nome, fica mais fácil cuidar dela, pedir o que precisa e se sentir mais inteira nas relações.
Se o sofrimento estiver grande demais, com pensamentos de se machucar ou de desaparecer, procure ajuda agora: o CVV atende 24h, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de alexitimia pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
Conversa sobre este texto
Se algo aqui te tocou, ou ficou uma dúvida, pode escrever. Eu leio tudo.
Pra continuar lendo
Se você chegou aqui procurando ajuda pra algo específico, tem caminho mais direto que continuar lendo.
