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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Logoterapia funciona? O que a pesquisa diz sobre a terapia de Viktor Frankl

Há sinais de que sim, com limites. A logoterapia, criada pelo psiquiatra Viktor Frankl, ajuda a pessoa a encontrar sentido, inclusive diante do sofrimento. Revisões recentes encontraram menos sintomas de depressão e mais sentido de vida, mas com estudos variados, muitos sem sorteio e quase todos na Ásia. A pesquisa mais forte é com terapias breves inspiradas em Frankl, testadas em pessoas com câncer avançado. Pra transtornos como pânico ou TOC, outras terapias têm muito mais estudos.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026

Lado a lado

Logoterapia funciona? O que a pesquisa diz sobre a terapia de Viktor Frankl: comparação lado a lado
CritérioLogoterapia de FranklTerapias centradas no sentido
O que éLogoterapia de Frankl: A abordagem criada por Viktor Frankl, psiquiatra e neurologista de Viena, que usou o nome logoterapia pela primeira vez em 1926. Parte da ideia de que a busca de sentido é a motivação principal do ser humano.Terapias centradas no sentido: Protocolos breves inspirados principalmente em Frankl, como a psicoterapia centrada no sentido, de William Breitbart e equipe, no Memorial Sloan Kettering, em Nova York.
Como é o trabalhoLogoterapia de Frankl: Uma conversa em que a terapeuta ajuda a pessoa a perceber possibilidades de sentido e o que a impede de ir atrás delas, sem impor um sentido. Usa técnicas próprias, como a intenção paradoxal e a derreflexão.Terapias centradas no sentido: Número fixo de encontros, muitas vezes em grupo, com explicações curtas, exercícios vivenciais, tarefas e discussão aberta.
Pra quem foi mais testadaLogoterapia de Frankl: Nas revisões recentes, estudos com públicos variados, muitos em grupo e com poucas sessões, a maior parte feita na Ásia.Terapias centradas no sentido: Sobretudo pessoas com doença física grave, principalmente câncer avançado.
Tipo de estudoLogoterapia de Frankl: Muitos estudos pequenos, parte deles sem sorteio entre os grupos. Numa revisão de 2026 sobre logoterapia aplicada por enfermeiros, 15 dos 19 estudos não eram randomizados.Terapias centradas no sentido: Ensaios randomizados, como o de 2015 com 253 pessoas com câncer avançado, que comparou oito encontros de terapia centrada no sentido com oito de terapia de apoio em grupo.
O que encontrouLogoterapia de Frankl: Numa meta-análise de 2025 com 35 estudos, menos sintomas de depressão do que em grupos sem tratamento e do que em outros grupos de comparação ativos.Terapias centradas no sentido: Mais bem-estar espiritual e qualidade de vida, e menos depressão, desesperança e desejo de antecipar a morte do que na terapia de apoio.
Ponto fraco da pesquisaLogoterapia de Frankl: Resultados muito diferentes entre estudos, quase tudo feito na Ásia e poucas comparações com psicoterapias já estabelecidas, como pedem os próprios autores.Terapias centradas no sentido: Quase tudo com pessoas com doença grave. Ainda se sabe pouco sobre quanto vale pra quem busca terapia por outros motivos.
Combinação com outros cuidadosLogoterapia de Frankl: Autores da área a descrevem como fácil de integrar a técnicas de outras linhas, e há proposta de combiná-la com a TCC, ainda à espera de testes.Terapias centradas no sentido: Oferecida junto com o tratamento médico, em serviços de câncer e cuidados paliativos, com formação pra psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e enfermeiros.
Pra quem pode fazer sentidoLogoterapia de Frankl: Quem vive uma crise de sentido, uma perda ou um sofrimento que não dá pra mudar, e quer pensar no que fazer diante dele.Terapias centradas no sentido: Quem enfrenta uma doença grave e quer um formato com começo, meio e fim, muitas vezes junto com outras pessoas na mesma situação.

Quem foi Viktor Frankl e o que é a logoterapia?

Viktor Frankl nasceu em Viena em 1905 e morreu em 1997. Era psiquiatra e neurologista. Em 1942 foi deportado pro gueto de Theresienstadt, e depois passou por Auschwitz e por campos ligados a Dachau, até a libertação, em abril de 1945. Perdeu o pai, a mãe, o irmão e a primeira mulher. Em 1946 ditou o livro que ficou conhecido no Brasil como Em busca de sentido.

A logoterapia é anterior aos campos: Frankl usou o termo pela primeira vez em 1926, a partir da palavra grega logos, que ele traduzia como sentido. O Instituto Viktor Frankl, em Viena, a descreve como uma abordagem centrada no sentido, às vezes chamada de terceira escola vienense de psicoterapia, depois da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler.

A ideia central é que a busca de sentido é a principal motivação humana. O papel da terapeuta é ajudar a pessoa a perceber as possibilidades de sentido na própria vida e a tirar do caminho o que impede de ir atrás delas, sem dizer qual deve ser esse sentido.

Como é uma sessão de logoterapia?

É uma conversa, em geral individual, em que a terapeuta participa bastante: pergunta, questiona com cuidado e ajuda a pessoa a olhar pra própria situação de outro ângulo. Frankl descreveu duas técnicas que ficaram conhecidas.

A intenção paradoxal propõe desejar, de propósito e com algum humor, justamente aquilo que se teme. Quem não consegue dormir de tanto se esforçar pra dormir, por exemplo, é convidada a tentar ficar acordada. A derreflexão faz o movimento inverso: tirar a atenção excessiva de si mesma e do sintoma e colocá-la em algo ou alguém que importa.

Imagine uma mulher que, depois de uma demissão, sente que a vida perdeu o rumo. Numa sessão de logoterapia, a terapeuta pode explorar com ela o que ainda a chama (pessoas, projetos, valores) e o que ela pode escolher fazer diante do que não depende dela. Autores da área descrevem a logoterapia como fácil de combinar com técnicas de outras abordagens, e há propostas de integrá-la à TCC.

O que a pesquisa mostra sobre a logoterapia?

Os resultados são animadores, e os limites são grandes. Uma meta-análise de 2025, de Jeffrey Cornelius-White e colegas, reuniu 35 estudos sobre logoterapia na depressão e encontrou menos sintomas do que em grupos sem tratamento e do que em grupos com outras intervenções. Os próprios autores destacaram a grande variação entre os estudos e pediram mais pesquisa fora da Ásia e comparações com psicoterapias bem estabelecidas.

Uma revisão de 2026 sobre intervenções de logoterapia aplicadas por enfermeiros reuniu 19 estudos, só 4 deles randomizados. Houve aumento do sentido de vida e redução da depressão, com intervenções de uma a oito sessões, quase sempre em grupo. Os autores apontam como limites os poucos ensaios randomizados, as diferenças de método e o predomínio de estudos coreanos.

Numa meta-análise de 2015 sobre terapias existenciais, as terapias centradas no sentido, estruturadas, com explicações, exercícios e conversa direta sobre o sentido da vida, foram as que mostraram efeito mais claro, principalmente em pessoas com doença física. As outras formas de terapia existencial tiveram efeitos pequenos ou não significativos naquele conjunto de estudos.

E quando a pessoa enfrenta uma doença grave?

É onde está a pesquisa mais sólida com ideias de Frankl. No Memorial Sloan Kettering, em Nova York, William Breitbart e equipe criaram a psicoterapia centrada no sentido, que o próprio centro descreve como inspirada principalmente em Frankl e em Em busca de sentido.

Num ensaio publicado em 2015, 253 pessoas com câncer avançado foram sorteadas pra oito encontros de terapia centrada no sentido em grupo ou oito de terapia de apoio em grupo. O grupo centrado no sentido teve mais melhora no bem-estar espiritual e na qualidade de vida, e mais redução de depressão, desesperança, desejo de antecipar a morte e sofrimento com sintomas físicos, também dois meses depois.

Esse é um formato breve e estruturado, feito pra um momento específico da vida. Ele mostra que trabalhar o sentido pode ajudar muito nessa situação. O quanto isso vale pra logoterapia de consultório, com outras queixas, ainda é uma pergunta em aberto.

Qual a diferença entre logoterapia, terapia existencial e ACP?

A logoterapia costuma ser contada entre as escolas da terapia existencial, que trabalham questões como liberdade, morte, solidão e sentido. A comparação entre terapia existencial e humanista explica esse parentesco com mais detalhe.

Com a Abordagem Centrada na Pessoa, que é a minha, a diferença maior está na condução. Na logoterapia, a terapeuta propõe caminhos: questiona, sugere uma intenção paradoxal, puxa a atenção pro sentido. Na ACP, eu não dirijo a conversa pra nenhum tema, nem pro sentido; acompanho o que você traz, e as perguntas sobre sentido aparecem se e quando forem suas.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Logoterapia de Frankl
Costuma fazer mais sentido quando o que dói é a sensação de vazio ou de falta de rumo, uma perda ou uma situação que não dá pra mudar, e você quer uma terapeuta que ajude ativamente a pensar no que fazer diante dela. Também pra quem se identificou com Em busca de sentido. Se a sua queixa principal é um transtorno bem definido, como pânico, fobia, TOC ou uma depressão que tira a sua capacidade de funcionar, outras terapias têm muito mais pesquisa, e a avaliação com um profissional ajuda a escolher.
Terapias centradas no sentido
Costumam fazer mais sentido quando você ou alguém próximo enfrenta uma doença grave, como um câncer avançado, e quer um espaço estruturado, muitas vezes em grupo, pra falar do que dá sentido à vida nesse momento. É onde a evidência com ideias de Frankl é mais forte. São oferecidas principalmente em serviços de oncologia e cuidados paliativos, então vale perguntar à equipe que acompanha o tratamento.

Perguntas frequentes

Logoterapia serve pra depressão?

Há sinais de que pode ajudar. Uma meta-análise de 2025 com 35 estudos encontrou menos sintomas de depressão com logoterapia do que sem tratamento e do que com outras intervenções, mas os estudos variaram muito, vieram quase todos da Ásia e poucos compararam a logoterapia com psicoterapias estabelecidas. Depressão com prejuízo grande no dia a dia pede avaliação com psicóloga e psiquiatra, e nenhuma terapia garante resultado.

Ler Em busca de sentido é o mesmo que fazer logoterapia?

Não. O livro conta a experiência de Frankl nos campos de concentração e apresenta as ideias da logoterapia, e ajuda muita gente a pensar a própria vida. A terapia acontece numa relação com uma profissional, que escuta a sua situação específica e trabalha com você ao longo do tempo. Ler pode ser um bom começo, mas não substitui a terapia.

O que é intenção paradoxal?

É uma técnica descrita por Frankl: em vez de lutar contra o que teme, a pessoa é convidada a desejar aquilo de propósito, muitas vezes com humor. Quem tem medo de tremer em público pode ser convidada a “tentar tremer o máximo possível”. A ideia é quebrar o ciclo em que o medo do sintoma aumenta o próprio sintoma. Deve ser usada com orientação de quem tem formação.

Logoterapia é religiosa?

Não precisa ser. O Instituto Viktor Frankl descreve a abordagem como uma ajuda pra pessoa perceber possibilidades de sentido sem que a terapeuta imponha um sentido específico. Pra quem tem fé, ela pode entrar na conversa; pra quem não tem, o sentido pode estar em pessoas, projetos, valores ou na forma de atravessar um sofrimento.

Quanto tempo dura a logoterapia?

Depende do formato. Nos estudos de intervenções estruturadas, a duração vai de um a oito encontros, e o ensaio com pessoas com câncer avançado usou oito. Na logoterapia de consultório, a duração costuma ser combinada com a pessoa, conforme o que ela traz. Ninguém pode prometer prazo.

Qual a diferença entre logoterapia e psicanálise?

Frankl veio da mesma Viena de Freud e Adler, e a logoterapia é chamada de terceira escola vienense de psicoterapia. A psicanálise investiga o inconsciente e a história de cada um pela fala livre. A logoterapia põe no centro a busca de sentido e costuma ter uma terapeuta mais ativa, que questiona e propõe técnicas, com o olhar voltado pro que a pessoa pode fazer daqui pra frente.

Como encontrar um logoterapeuta?

Pergunte diretamente pela formação: onde a pessoa estudou logoterapia e como costuma conduzir as sessões. Se for psicóloga ou psicólogo, você pode conferir o registro no Conselho Regional de Psicologia. Se você está em tratamento de câncer, pergunte à equipe de oncologia ou de cuidados paliativos se há terapia centrada no sentido no serviço.

De onde vem cada afirmação

  1. Viktor Frankl Institut (s.d.). Viktor Frankl: biography. Viktor Frankl Institut, Viena. Datas de nascimento e morte, deportação a Theresienstadt, Auschwitz e campos ligados a Dachau, as perdas da família, o livro ditado em 1946 e o primeiro uso do termo logoterapia, em 1926.
  2. Viktor Frankl Institut (s.d.). Logotherapy and Existential Analysis. Viktor Frankl Institut, Viena. Descreve a logoterapia como abordagem centrada no sentido, às vezes chamada de terceira escola vienense, com a busca de sentido como motivação principal e sem imposição de sentido pela terapeuta.
  3. Frankl, V. E. (1975). Paradoxical intention and dereflection. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 12(3), 226-237. Artigo em que Frankl apresenta as duas técnicas da logoterapia citadas nesta página.
  4. Cornelius-White, J. H. D., Watson, S. M., Kanamori, Y. & Cornelius-White, A. J. (2025). Logotherapy for depressive symptoms: A meta-analysis of passive and active control studies. The Journal of Humanistic Counseling, 64(2), 130-142. Meta-análise de 35 estudos: menos sintomas de depressão com logoterapia do que em controles passivos e ativos, com grande heterogeneidade e pedido de mais pesquisa fora da Ásia e contra psicoterapias estabelecidas.
  5. Hong, K.-Y. & Kang, M.-J. (2026). The effectiveness of nurse-delivered logotherapy-based interventions: A systematic review and meta-analysis. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 33(3), 528-544. Revisão de 19 estudos (4 randomizados): mais sentido de vida e menos depressão, com uma a oito sessões quase sempre em grupo; limites nos poucos ensaios randomizados e no predomínio de estudos coreanos.
  6. Vos, J., Craig, M. & Cooper, M. (2015). Existential therapies: A meta-analysis of their effects on psychological outcomes. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 83(1), 115-128. Meta-análise de terapias existenciais: as terapias centradas no sentido, estruturadas, tiveram os efeitos mais claros, sobretudo em pessoas com doença física; outras formas não tiveram efeito significativo.
  7. Breitbart, W., Rosenfeld, B., Pessin, H., Applebaum, A., Kulikowski, J., Lichtenthal, W. G. et al. (2015). Meaning-centered group psychotherapy: An effective intervention for improving psychological well-being in patients with advanced cancer. Journal of Clinical Oncology, 33(7), 749-754. Ensaio com 253 pessoas com câncer avançado: oito encontros de terapia centrada no sentido em grupo trouxeram mais bem-estar espiritual e qualidade de vida e menos depressão, desesperança e desejo de antecipar a morte que a terapia de apoio.
  8. Memorial Sloan Kettering Cancer Center (s.d.). Meaning-Centered Psychotherapy Training Program for Cancer Care Providers. Memorial Sloan Kettering Cancer Center, Nova York. Afirma que a psicoterapia centrada no sentido é inspirada principalmente em Frankl e descreve o formato (explicações, exercícios vivenciais, tarefas, discussão aberta) e o público da formação.
  9. Schulenberg, S. E., Hutzell, R. R., Nassif, C. & Rogina, J. M. (2008). Logotherapy for clinical practice. Psychotherapy: Theory, Research, Practice, Training, 45(4), 447-463. Apresenta conceitos, técnicas e pesquisas da logoterapia e afirma que ela pode ser integrada com facilidade a técnicas usadas por outros profissionais.
  10. Ameli, M. & Dattilio, F. M. (2013). Enhancing cognitive behavior therapy with logotherapy: Techniques for clinical practice. Psychotherapy, 50(3), 387-391. Propõe combinar princípios da logoterapia com a TCC e pede pesquisa empírica pra testar essa combinação.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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