Psicodrama funciona? Como é a sessão e como ele se compara à ACP
Psicodrama é uma abordagem de psicoterapia criada pelo psiquiatra Jacob Levy Moreno em que você encena, com a terapeuta e às vezes com um grupo, as situações que vive, em vez de só contar. A pesquisa é menor que a de outras abordagens: uma meta-análise de 2003 achou efeito grande de técnicas como a inversão de papéis, e revisões recentes veem resultados promissores em estudos de qualidade variada. Na Abordagem Centrada na Pessoa, a minha, não há encenação: a conversa segue o seu ritmo.
Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026
Lado a lado
| Critério | Psicodrama | ACP |
|---|---|---|
| Como a sessão acontece | Psicodrama: Em três etapas: aquecimento, dramatização e compartilhamento. A situação que você traz vira uma cena, montada e vivida ali mesmo. | ACP: Numa conversa. Você fala do que quiser, na ordem que quiser, e a terapeuta acompanha. |
| Papel da terapeuta | Psicodrama: Diretora: coordena o processo, monta a cena junto com você e propõe as técnicas. | ACP: Não diretiva: busca compreender o que você vive e devolve o que percebe, sem propor exercícios. |
| Técnica | Psicodrama: Inversão de papéis (você ocupa o lugar do outro e responde como ele), duplo (alguém dá voz ao que você não disse), entre outras. | ACP: Não é o centro. O instrumento é a atitude da terapeuta: empatia, aceitação e autenticidade. |
| Corpo e ação | Psicodrama: Você se levanta, se movimenta, fala diretamente com quem está na cena. O que seria contado passa a ser feito. | ACP: Você fica sentada conversando. O corpo entra quando você traz, e a terapeuta pode devolver o que percebe. |
| Individual ou em grupo | Psicodrama: Os dois. Em grupo, há protagonista, egos auxiliares e plateia; a FEBRAP prevê também atendimento individual, de casal e de família. | ACP: Pode ser individual ou em grupo. Eu atendo individualmente. |
| O que pode incomodar | Psicodrama: Encenar pode parecer exposto ou artificial no começo, sobretudo em grupo. Você pode dizer não a qualquer proposta. | ACP: Pra algumas pessoas, a falta de direção parece pouca ajuda (“ela não me diz nada”). Vale falar disso na sessão. |
| Pesquisa | Psicodrama: Menos estudos que outras abordagens. Uma meta-análise de 2003 achou efeito grande de técnicas psicodramáticas; revisões recentes veem resultados promissores e pedem estudos mais rigorosos. | ACP: Tem ensaios clínicos, principalmente em depressão: num grande ensaio inglês, a versão da ACP usada no serviço público foi equivalente à TCC em seis meses e ficou atrás em doze. |
| Formação no Brasil | Psicodrama: A FEBRAP titula psicodramatistas. O foco psicoterápico é pra psicólogos e médicos, com no mínimo 480 horas, incluindo psicoterapia psicodramática da própria aluna. | ACP: Psicóloga com registro no Conselho Regional de Psicologia que se especializou na abordagem depois da graduação. |
O que é psicodrama, em poucas palavras?
O psicodrama foi criado pelo psiquiatra romeno Jacob Levy Moreno (1889-1974). A ideia central é trabalhar os conflitos em ação: em vez de só relatar uma situação, a pessoa a encena, com a ajuda de quem conduz e, em grupo, de outros participantes.
A sessão costuma ter três etapas. No aquecimento, o grupo ou a pessoa se prepara e surge o tema. Na dramatização, a cena é montada e vivida. No compartilhamento, quem participou divide o que sentiu. Os elementos da sessão têm nome próprio: a diretora (a terapeuta), a protagonista (quem traz a cena), os egos auxiliares (quem contracena), a plateia e o palco.
No Brasil, a Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) reúne as entidades que formam psicodramatistas e define as regras mínimas dessa formação.
Como a mesma sessão seria no psicodrama e na ACP?
Imagine uma mulher que conta que nunca consegue dizer à mãe o quanto se sente cobrada.
No psicodrama em grupo, a diretora pode propor que ela monte a cena: onde estão, o que a mãe costuma dizer. Alguém do grupo faz o papel da mãe. Em algum momento, pode vir a inversão de papéis: ela passa a ocupar o lugar da mãe e responde como a mãe responderia. Outra pessoa pode fazer o duplo, dando voz ao que ela sente e não fala. No fim, o grupo compartilha o que viveu com aquela cena.
Na ACP, eu acompanharia o que ela está dizendo e, se fizer sentido, devolveria o que percebo: “parece que você carrega sozinha uma conversa que nunca aconteceu”. Se ela quiser seguir por aí, a gente segue; se preferir outro assunto, eu vou junto. Não monto cena nem proponho papéis.
Os dois caminhos buscam que ela se aproxime do que sente. O psicodrama faz isso pela ação; a ACP, pela relação e pelo tempo dela.
O que a pesquisa diz sobre o psicodrama?
Há menos pesquisa com psicodrama do que com outras psicoterapias, e as próprias revisões dizem isso. Uma meta-análise de 2003, com 25 estudos de desenho experimental, encontrou efeito grande das técnicas psicodramáticas, parecido ou melhor que o descrito para a psicoterapia de grupo em geral. A inversão de papéis e o duplo foram as técnicas mais eficazes. Parte desses estudos foi feita com estudantes, e não só com pacientes.
Uma revisão sistemática de 2019 reuniu 31 publicações de uma década, que mediram mais de 20 desfechos diferentes, a maioria com adultos. Os autores viram resultados promissores em todos os tipos de estudo, e pediram mais qualidade de método e de relato. Uma meta-análise de 2024, com sete ensaios clínicos feitos na China continental, encontrou efeito favorável tanto na redução de sintomas quanto na promoção de saúde mental.
Em esquizofrenia, a revisão Cochrane sobre dramaterapia e abordagens parecidas, que incluiu dois estudos de psicodrama, não chegou a conclusões sobre benefícios ou danos, por falta de dados utilizáveis.
Resumindo sem exagero: os sinais são favoráveis, mas vêm de estudos pequenos e variados. Menos pesquisa não quer dizer que o psicodrama não ajude; quer dizer que se sabe menos sobre pra quem e em que casos ele funciona melhor.
Quem pode conduzir psicodrama?
As normas da FEBRAP separam dois focos de formação. O foco psicoterápico é destinado a psicólogos e médicos, e forma o psicodramatista psicoterapeuta, que atende individualmente, em casal, em família e em grupo. O foco socioeducacional é pra outros profissionais de nível superior que trabalham com pessoas e grupos, em áreas como saúde, comunidade, organizações e escolas.
A formação básica tem no mínimo 480 horas, com teoria, supervisão, prática e 60 horas de psicoterapia psicodramática da própria aluna. As mesmas normas lembram que as competências do psicodramatista se somam às da profissão de origem e respeitam o código de ética do conselho de classe.
Se você procura psicodrama como psicoterapia, vale perguntar duas coisas: se a pessoa tem título de psicodramatista no foco psicoterápico e qual é o registro dela no conselho profissional.
Como saber se o psicodrama combina com você?
Algumas perguntas ajudam. Não há resposta certa, e dá pra mudar de ideia depois de começar.
- Você sente que já falou muito sobre um conflito e nada muda? Viver a cena, como no psicodrama, pode mostrar o que a conversa não mostrou.
- A ideia de encenar te anima ou te trava? Se trava, uma condução mais aberta, como a da ACP, costuma ser mais confortável.
- Você se sente bem em grupo? O psicodrama em grupo usa muito a presença dos outros; se isso pesa muito agora, dá pra começar individualmente.
- O que você mais precisa agora é ser ouvida sem pressão? Isso é o centro da ACP.
- Depois de algumas sessões, você se sente compreendida por quem te atende? Em qualquer abordagem, isso conta muito.
Quando cada um costuma fazer mais sentido
- Psicodrama
- Costuma fazer mais sentido quando você quer trabalhar relações e conflitos em ação, experimentar o lugar do outro, ensaiar uma conversa difícil, e se sente bem sendo convidada a se movimentar e encenar, sozinha ou em grupo. Se encenar te deixa muito desconfortável, ou se você está num momento frágil e precisa de uma escuta mais tranquila, a ACP pode ser mais adequada. E, pra sintomas bem definidos, como pânico ou fobia, a TCC tem mais pesquisa do que as duas.
- ACP
- Costuma fazer mais sentido quando você precisa de espaço pra entender o que sente no seu ritmo, sem ser conduzida, e quer uma relação próxima e sem julgamento. Serve bem a quem atravessa uma mudança grande ou não sabe bem o que está sentindo. Se você quer que a terapeuta proponha cenas, trabalhe com o corpo em movimento e use a força de um grupo, o psicodrama pode ser uma escolha melhor.
Perguntas frequentes
Psicodrama é só em grupo?
Não. O psicodrama em grupo é o mais conhecido, com protagonista, egos auxiliares e plateia, mas as normas da FEBRAP preveem que o psicodramatista psicoterapeuta atenda também individualmente, em dupla, em casal e em família.
Preciso saber atuar pra fazer psicodrama?
Não. O psicodrama usa recursos do teatro, como cena, papéis e palco, mas a cena é a sua vida e ninguém avalia a sua atuação. O que interessa é o que você percebe e sente enquanto vive a situação.
O que é inversão de papéis no psicodrama?
É quando você deixa o seu lugar na cena e passa a ocupar o de outra pessoa, respondendo como ela responderia. Serve pra enxergar a situação de outro ângulo. Numa meta-análise de 2003, a inversão de papéis e o duplo foram as técnicas psicodramáticas com maior efeito.
Psicodrama serve pra depressão?
Há estudos, ainda poucos. Uma meta-análise de 2024 com sete ensaios clínicos feitos na China encontrou redução de sintomas com o psicodrama, e os autores pedem estudos mais padronizados. Se você está com sintomas de depressão, a avaliação com profissional vem antes da escolha da abordagem, e remédio, quando necessário, é com psiquiatra.
Psicodramatista precisa ser psicólogo?
Pra ter o título no foco psicoterápico, a pessoa precisa ser psicóloga ou médica, segundo as normas da FEBRAP. Profissionais de outras áreas de nível superior podem se formar no foco socioeducacional, que é voltado a educação, comunidades, organizações e escolas.
Posso recusar uma cena no psicodrama?
Pode. Você não é obrigada a encenar nada, e dizer que algo te incomoda também é material pra sessão. Uma boa diretora ajusta a proposta ao seu momento.
De onde vem cada afirmação
- Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) (2024). Princípios Gerais Normativos da Formação e Titulação em Psicodrama segundo a FEBRAP (versão dezembro/2024, com anexos). FEBRAP. Focos psicoterápico (psicólogos e médicos) e socioeducacional, carga mínima de 480 horas no Nível I com psicoterapia psicodramática obrigatória, e atuação individual, de casal, família e grupo.
- Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) (2026). Como trabalhar o Psicodrama em 3 etapas. FEBRAP. Etapas da sessão (aquecimento, dramatização, compartilhamento) e instrumentos (diretor, ego-auxiliar, protagonista, plateia, palco).
- Kipper, D. A. & Ritchie, T. D. (2003). The effectiveness of psychodramatic techniques: A meta-analysis. Group Dynamics: Theory, Research, and Practice, 7(1), 13-25. 25 estudos experimentais: efeito grande das técnicas psicodramáticas, com inversão de papéis e duplo como as mais eficazes; inclui populações de estudantes.
- Orkibi, H. & Feniger-Schaal, R. (2019). Integrative systematic review of psychodrama psychotherapy research: Trends and methodological implications. PLOS ONE, 14(2), e0212575. 31 publicações de 2007 a 2017: pesquisa relativamente escassa, resultados promissores e necessidade de mais qualidade metodológica.
- Wang, X., Ding, R. & Luo, R. (2024). Effectiveness of psychodrama on mental health outcomes based on Chinese samples: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled studies. Cambridge Prisms: Global Mental Health, 11, e116. Sete ensaios clínicos na China continental: efeito favorável na redução de sintomas e na promoção de saúde mental, com pedido de estudos mais padronizados.
- Ruddy, R. & Dent-Brown, K. (2007). Drama therapy for schizophrenia or schizophrenia-like illnesses. Cochrane Database of Systematic Reviews. Cinco estudos, dois de psicodrama, em internação por esquizofrenia: sem conclusões sobre benefícios ou danos, por dados mal relatados.
- Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95-103. Artigo em que Rogers propõe as condições da relação terapêutica, entre elas empatia, aceitação e autenticidade, que são a base da ACP.
- Barkham, M., Saxon, D., Hardy, G. E., Bradburn, M., Galloway, D., Wickramasekera, N. et al. (2021). Person-centred experiential therapy versus cognitive behavioural therapy delivered in the English Improving Access to Psychological Therapies service for the treatment of moderate or severe depression (PRaCTICED): a pragmatic, randomised, non-inferiority trial. The Lancet Psychiatry, 8(6), 487-499. Ensaio com 510 pessoas com depressão moderada ou grave: a terapia experiencial centrada na pessoa foi equivalente à TCC em seis meses, e a TCC teve resultado melhor em doze.
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Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda, em Brasília
Fernanda Pessoa Ferro
Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.
Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.
Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.
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