Vigorexia: o que é a dismorfia muscular e quando o treino vira prisão
Vigorexia é o nome popular da dismorfia muscular: a pessoa se acha pequena ou fraca mesmo sendo forte. Veja sinais, o que dizem os manuais, riscos e tratamento.
Vigorexia é o nome popular da dismorfia muscular. É quando a pessoa vive convencida de que o corpo dela é pequeno, fraco ou pouco musculoso, mesmo quando os outros enxergam alguém forte. Essa certeza ocupa boa parte do dia e passa a comandar o treino, a comida, a roupa e a vida social. Nos manuais, ela não é um transtorno à parte: é uma forma do transtorno dismórfico corporal.
Gostar de treinar não é problema. O problema começa quando o espelho nunca fica satisfeito e faltar um dia de academia vira motivo de angústia.
Vigorexia: o que é, em palavras simples
Pensa numa pessoa que treina todos os dias, às vezes duas vezes por dia. Ela olha no espelho e vê braço fino, peito murcho, perna fraca. Quem convive com ela acha estranho, porque o corpo que eles veem é outro. Ela também sabe que as pessoas dizem que ela está forte. Só não consegue acreditar.
Por isso alguns pesquisadores chegaram a chamar o quadro de "anorexia reversa". Em 1993, Harrison Pope e colegas estudaram fisiculturistas e descreveram homens que se viam pequenos e franzinos apesar de muito musculosos (Pope, Katz e Hudson, 1993). Em 1997, o mesmo grupo propôs o nome que ficou: dismorfia muscular, uma forma pouco reconhecida do transtorno dismórfico corporal (Pope et al., 1997).
"Vigorexia" e "bigorexia" são apelidos que pegaram na internet e na imprensa. Não aparecem como diagnóstico em nenhum manual.
O que dizem o DSM-5-TR e a CID-11
O DSM-5-TR (APA, 2022) coloca o transtorno dismórfico corporal no grupo dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados, perto do TOC. Dentro dele existe um especificador: com dismorfia muscular. Ele é usado quando a preocupação principal é achar que o corpo é pequeno demais ou pouco musculoso.
Na CID-11, da Organização Mundial da Saúde, o transtorno dismórfico corporal tem o código 6B21. Na CID-10 da OMS, ele ficava dentro de F45.2, junto com a hipocondria.
Explicando com as minhas palavras, o quadro reúne:
- Uma preocupação forte com o próprio corpo, aqui com tamanho e músculo, que quem olha de fora não enxerga ou acha pequena.
- Comportamentos repetidos por causa dela. Conferir o corpo no espelho, se medir, comparar com outros na academia ou no Instagram, pedir opinião, esconder o corpo com roupa larga.
- Sofrimento ou prejuízo real. No trabalho, nos estudos, nas relações, na saúde.
Escrevi com mais calma sobre o quadro geral em dismorfia corporal. A vigorexia é uma das formas dele.
Sintomas de vigorexia
Os sinais que mais aparecem nos relatos e na literatura são:
- Pensar no próprio corpo boa parte do dia, quase sempre com a sensação de que está "pequeno".
- Conferir o corpo no espelho muitas vezes, ou evitar espelho e foto.
- Treinar mesmo machucada, doente ou exausta, porque parar parece insuportável.
- Ficar muito ansiosa, irritada ou culpada quando perde um treino.
- Deixar de ir a festas, viagens ou encontros que atrapalhem a rotina de treino e comida.
- Seguir uma dieta rígida, com horários e alimentos que não podem mudar de jeito nenhum.
- Usar camadas de roupa pra parecer maior, ou ter vergonha de ficar sem camisa, de ir à praia.
- Recorrer a suplementos em excesso ou a anabolizantes, mesmo sabendo dos riscos.
Repare que muitos desses sinais falam menos do corpo e mais da prisão. A pessoa perde a liberdade de escolher o próprio dia.
Vigorexia sintomas: como diferenciar de quem só gosta de treinar
Quem gosta de treinar e quem tem vigorexia podem ter a mesma rotina por fora. A diferença está por dentro. Algumas perguntas ajudam:
- O treino é escolha ou obrigação? Dá pra faltar num dia de chuva sem passar mal de culpa?
- O corpo melhora e você continua se vendo igual? Na vigorexia, a régua sempre anda um passo pra frente.
- O que você deixa de viver por causa disso? Um aniversário, uma viagem, um namoro, um emprego.
- Os outros enxergam o mesmo que você? Se quem gosta de você diz que vê alguém forte e você continua vendo alguém fraco, vale prestar atenção.
Se quiser olhar pra sua relação com o espelho com calma, o teste de autoimagem tem perguntas sobre crítica interna e comparação. Ele não identifica vigorexia. Serve pra você se escutar um pouco antes de decidir se procura ajuda.
Vigorexia em mulheres existe?
Existe. A dismorfia muscular aparece mais em homens, e por isso quase tudo que se escreve sobre ela fala de homens. Mas mulheres também podem ficar presas à ideia de que o corpo não é definido, firme ou forte o bastante.
Em mulheres, às vezes o quadro passa despercebido porque vem misturado com o discurso de saúde e de "corpo fitness". A preocupação pode ser com músculo e, ao mesmo tempo, com gordura. Aí fica mais perto de um transtorno alimentar, e uma avaliação ajuda a entender o que está acontecendo. Escrevi sobre isso em anorexia e bulimia.
Os riscos da vigorexia
O sofrimento psicológico já é motivo suficiente pra buscar cuidado. Mas a dismorfia muscular também pode trazer riscos pro corpo:
- Lesões por treinar sem descanso ou machucada.
- Uso de anabolizantes e outras substâncias sem acompanhamento médico, com riscos pro coração, pro fígado, pros hormônios e pro humor.
- Restrição alimentar rígida, que pode virar um transtorno alimentar.
- Isolamento, porque a rotina de treino e comida vai ocupando o espaço das pessoas.
- Depressão e ansiedade, que andam junto com frequência.
Se você usa ou pensa em usar anabolizantes, conversar com um médico, sem julgamento, é um passo de cuidado. E se a angústia com o corpo vier com pensamentos de se machucar ou de não estar mais aqui, o CVV atende no 188, 24 horas, de graça, ou pelo site cvv.org.br. Você também encontra outros contatos em ajuda agora.
Vigorexia tem cura? Como é o tratamento
Tem tratamento, e muita gente melhora. Como a dismorfia muscular é uma forma do transtorno dismórfico corporal, o tratamento segue o que se usa pra ele: terapia cognitivo-comportamental, com exposição e prevenção de resposta, e, quando o quadro é mais intenso, medicação prescrita por psiquiatra. Os estudos feitos especificamente com dismorfia muscular ainda são poucos, e por isso o tratamento costuma ser adaptado pra cada pessoa.
Na prática, o cuidado costuma ser em equipe:
- Psicóloga, pra trabalhar a relação com o corpo, a checagem, a comparação e o que está por trás disso.
- Psiquiatra, pra avaliar se há depressão, ansiedade, TOC ou outro quadro junto, e se medicação ajuda.
- Nutricionista, pra ajudar a sair da dieta rígida sem trocar uma regra por outra.
- Médico clínico ou endocrinologista, quando houve uso de anabolizantes ou há sinais físicos que precisam de exame.
Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa. Na terapia, a gente olha pra sua história com o corpo, pras cobranças que você ouviu, pra ideia de que só vale a pena se for maior, mais forte, mais definido. Quando o quadro pede um tratamento específico, como a TCC com exposição, eu digo isso com clareza e encaminho. Uma coisa não exclui a outra.
Perguntas frequentes
Vigorexia é a mesma coisa que dismorfia muscular?
Sim. Vigorexia é o nome popular. Dismorfia muscular é o termo usado na pesquisa e no DSM-5-TR, que trata o quadro como uma forma do transtorno dismórfico corporal.
Vigorexia é um transtorno alimentar?
Não exatamente. Pelos manuais, ela faz parte do transtorno dismórfico corporal. Mas ela costuma vir com dieta muito rígida e pode andar junto com um transtorno alimentar. Por isso uma avaliação cuidadosa olha as duas coisas.
Quem faz musculação tem mais chance de ter vigorexia?
O quadro foi descrito primeiro em fisiculturistas, e ambientes onde o corpo é muito comparado podem pesar. Mas treinar não causa vigorexia. A maioria das pessoas que treina não tem o quadro.
Como ajudar alguém com vigorexia?
Discutir se a pessoa é grande ou pequena costuma não adiantar. Elogiar o corpo o tempo todo também não resolve, e pode reforçar a checagem. Ajuda mais falar do que você observa na vida dela ("você não foi ao aniversário de novo por causa do treino"), acolher o sofrimento e incentivar uma avaliação com psicólogo ou psiquiatra.
Vigorexia tem cura?
Tem tratamento, e com ele muita gente volta a ter uma relação mais livre com o corpo e com o treino. O tempo de melhora varia de pessoa pra pessoa.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Código 6B21, transtorno dismórfico corporal.
- Pope, H. G., Katz, D. L., & Hudson, J. I. (1993). Anorexia nervosa and "reverse anorexia" among 108 male bodybuilders. Comprehensive Psychiatry, 34(6), 406-409.
- Pope, H. G., Gruber, A. J., Choi, P., Olivardia, R., & Phillips, K. A. (1997). Muscle dysmorphia: an underrecognized form of body dysmorphic disorder. Psychosomatics, 38(6), 548-557.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico. Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga, CRP 01/30999.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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