Anorexia e bulimia: o que são, sintomas e tratamento
Anorexia, bulimia e transtorno de purgação: o que são, sintomas de transtorno alimentar, diferenças entre eles, riscos e como é o tratamento em equipe.
Anorexia e bulimia são transtornos alimentares. Na anorexia, a pessoa restringe a comida a ponto de o corpo ficar abaixo do que precisa pra funcionar bem, tem muito medo de engordar e se enxerga de um jeito distorcido. Na bulimia, acontecem episódios em que ela come muito e sente que perdeu o controle, seguidos de tentativas de "compensar", como vomitar, usar remédios, jejuar ou se exercitar em excesso. Os dois quadros são sérios, têm tratamento e pedem cuidado em equipe.
Se você está lendo isso porque se reconheceu, ou porque está preocupada com alguém, já é um passo. Transtorno alimentar não é frescura, não é vaidade e não é escolha.
O que é anorexia
O DSM-5-TR (APA, 2022) descreve a anorexia nervosa a partir de três pontos. Com as minhas palavras:
- Restrição da comida que leva o corpo a um peso muito baixo pra idade, a altura e a saúde daquela pessoa.
- Medo intenso de ganhar peso, ou comportamentos que impedem o ganho de peso mesmo quando o corpo já está em risco.
- Uma relação distorcida com o próprio corpo. A pessoa se enxerga maior do que é, ou o valor dela passa a depender quase só do corpo, ou ela não consegue reconhecer a gravidade do que está acontecendo.
O manual descreve dois tipos. No tipo restritivo, a perda de peso vem da restrição, do jejum ou do exercício. No tipo compulsão alimentar purgativa, também há episódios de comer muito e/ou de purgação.
Na CID-11, da Organização Mundial da Saúde, a anorexia tem o código 6B80. Na CID-10 da OMS, F50.0.
Um ponto que pouca gente sabe: anorexia não acontece só em quem está muito magra à primeira vista. Pessoas de vários corpos podem restringir de forma perigosa, e a gravidade não se mede só pelo que aparece no espelho.
O que é bulimia
A bulimia nervosa, pelo DSM-5-TR, reúne:
- Episódios de compulsão alimentar: comer, num período curto, bem mais do que a maioria comeria, com a sensação de não conseguir parar.
- Comportamentos pra compensar o que comeu, de forma repetida, como provocar vômito, usar laxantes ou diuréticos, jejuar ou se exercitar em excesso.
- Frequência: o manual fala em pelo menos uma vez por semana, por três meses.
- Autoavaliação muito presa ao peso e à forma do corpo.
Na CID-11, a bulimia tem o código 6B81. Na CID-10, F50.2.
Muita gente com bulimia tem um peso considerado "normal", e por isso o quadro pode passar anos sem ninguém perceber. A vergonha faz o resto. Os episódios costumam acontecer escondidos.
Quando há episódios de compulsão sem os comportamentos de compensação, o quadro é outro: o transtorno de compulsão alimentar. Escrevi sobre ele em o que é compulsão alimentar.
O que é transtorno de purgação
O transtorno de purgação é quando a pessoa provoca vômito ou usa remédios pra "eliminar" a comida de forma repetida, sem ter os episódios de compulsão da bulimia. Às vezes acontece depois de comer pouco.
Ele não tem um código só dele. No DSM-5-TR, aparece como exemplo dentro de outro transtorno alimentar especificado. Não ter um nome próprio não quer dizer que seja mais leve. A purgação traz riscos sérios pro corpo, como alterações no coração e nos sais minerais do sangue, e precisa de avaliação médica.
Transtorno alimentar sintomas: os sinais pra prestar atenção
Os sinais variam de pessoa pra pessoa. Alguns aparecem com frequência:
No jeito de comer
- Pular refeições, comer muito pouco, cortar grupos inteiros de alimentos.
- Rituais na hora de comer: cortar em pedaços muito pequenos, comer muito devagar, esconder comida.
- Evitar comer na frente dos outros.
- Sumir pro banheiro logo depois das refeições.
- Episódios de comer muito, escondidos, seguidos de culpa.
No corpo
- Mudança grande de peso, pra baixo ou oscilando.
- Cansaço, tontura, desmaio, frio o tempo todo.
- Menstruação que falha ou para.
- Queda de cabelo, pele seca, unhas fracas.
- Inchaço no rosto, problemas nos dentes e na garganta, quando há vômito.
No humor e na vida
- Falar muito de peso, corpo e comida, ou o contrário, evitar o assunto a qualquer custo.
- Se pesar ou se olhar no espelho muitas vezes.
- Exercício compulsivo, mesmo doente ou machucada.
- Irritação, tristeza, ansiedade, isolamento.
- Usar roupa larga pra esconder o corpo.
Nenhum desses sinais, sozinho, fecha diagnóstico. Mas se vários aparecem juntos, vale procurar avaliação.
Sintomas de transtorno alimentar em quem você ama
Muitas vezes quem percebe primeiro é a família, a amiga, o parceiro. Algumas coisas ajudam na conversa:
- Escolha um momento calmo, longe da hora da refeição.
- Fale do que você observa e do quanto se importa, não do corpo dela. "Eu percebi que você está sempre cansada e não tem saído com a gente. Estou preocupada."
- Evite comentar peso, aparência ou o que ela comeu. Até elogio ao corpo pode reforçar o problema.
- Espere negação. É comum. Não desista depois da primeira conversa.
- Ofereça ajuda concreta pra marcar uma consulta e ir junto, se ela quiser.
Se a pessoa for menor de idade, a família tem um papel central no tratamento. Procure ajuda mesmo que ela resista.
Por que anorexia e bulimia são tão sérias
Transtornos alimentares estão entre os quadros de saúde mental com maior risco de morte. Uma revisão que reuniu 36 estudos encontrou mortalidade bem mais alta em pessoas com anorexia do que na população geral, e cerca de uma em cada cinco mortes entre pessoas com anorexia foi por suicídio (Arcelus et al., 2011).
Isso não está aqui pra assustar. Está aqui porque muita gente adia o cuidado achando que "não está tão grave". Quanto antes o tratamento começa, melhor.
Se você está pensando em se machucar ou em não estar mais aqui, ligue para o CVV no 188, 24 horas, de graça e em sigilo, ou acesse cvv.org.br. Se houver desmaio, dor no peito, confusão ou fraqueza muito forte, vá a um pronto-socorro ou ligue 192. Outros contatos estão em ajuda agora.
Tratamento para anorexia e bulimia
Transtorno alimentar se trata em equipe. Ninguém dá conta sozinho, nem a paciente, nem o profissional. Em geral, a equipe inclui:
- Psiquiatra, pra avaliar o quadro, os riscos, outros transtornos que estejam juntos, como depressão, ansiedade ou TOC, e indicar medicação quando for o caso.
- Nutricionista com experiência em transtornos alimentares, pra reconstruir a alimentação aos poucos, com segurança.
- Psicóloga, pra trabalhar o que o transtorno está fazendo na vida da pessoa, a relação com o corpo, as emoções e a história.
- Médico clínico, pra acompanhar exames e saúde física. Em alguns casos, a recuperação começa com internação ou hospital-dia.
As diretrizes do NICE, o instituto de saúde do Reino Unido (NICE, 2017, NG69), recomendam:
- Pra anorexia em adultos: psicoterapias específicas pra transtorno alimentar, como a terapia cognitivo-comportamental focada em transtorno alimentar (TCC-TA), o modelo MANTRA ou o acompanhamento clínico de apoio especializado (SSCM). E dizem que medicação não deve ser o único tratamento pra anorexia.
- Pra anorexia em crianças e adolescentes: terapia familiar focada no transtorno alimentar.
- Pra bulimia em adultos: autoajuda guiada baseada em TCC e, se não bastar, TCC focada em transtorno alimentar.
- Pra bulimia em adolescentes: terapia familiar focada na bulimia.
Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa. Ela não é o tratamento de primeira linha pra transtorno alimentar. Quando atendo alguém com esse quadro, faço isso junto com psiquiatra e nutricionista, e encaminho pra um serviço ou profissional especializado quando é disso que a pessoa precisa. No SUS, a porta de entrada costuma ser a unidade básica de saúde ou o CAPS da sua região. Alguns hospitais universitários têm ambulatórios especializados em transtornos alimentares.
Perguntas frequentes
Anorexia tem cura?
Muitas pessoas se recuperam, e quanto mais cedo começa o tratamento, melhor. A recuperação costuma levar tempo e ter idas e vindas. Ela inclui o corpo, a comida e também a forma como a pessoa se vê e se trata.
Qual a diferença entre anorexia e bulimia?
Na anorexia, o centro é a restrição e o corpo fica abaixo do que precisa. Na bulimia, há episódios de compulsão seguidos de compensação, e o peso muitas vezes fica dentro do esperado. Uma pessoa pode passar de um quadro pro outro ao longo da vida.
Homem tem anorexia e bulimia?
Tem. Transtornos alimentares são mais diagnosticados em mulheres, mas homens também têm, e muitas vezes demoram mais pra ser reconhecidos. Em homens, a preocupação pode aparecer como busca por músculo, o que escrevi em vigorexia.
Transtorno alimentar tem a ver com redes sociais?
As redes não causam o transtorno sozinhas, mas podem pesar, principalmente com conteúdo de dieta extrema, comparação de corpos e regras sobre comida. Se você está em tratamento ou se sente vulnerável, vale cuidar do que aparece no seu feed. Escrevi sobre comida que vira regra em ortorexia e sobre o espelho em dismorfia corporal.
Como saber se tenho um transtorno alimentar?
Só uma avaliação com profissional de saúde mental responde. Se a comida, o peso ou o corpo ocupam a maior parte dos seus pensamentos, se você sente culpa ou medo ao comer, ou se tem feito coisas pra compensar o que comeu, isso já é motivo suficiente pra procurar ajuda.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Códigos 6B80 (anorexia nervosa) e 6B81 (bulimia nervosa).
- Arcelus, J., Mitchell, A. J., Wales, J., & Nielsen, S. (2011). Mortality rates in patients with anorexia nervosa and other eating disorders: a meta-analysis of 36 studies. Archives of General Psychiatry, 68(7), 724-731.
- National Institute for Health and Care Excellence. (2017). Eating disorders: recognition and treatment (NICE guideline NG69).
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico. Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga, CRP 01/30999.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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