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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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EstresseTema: Estresse06 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Resiliência: o que é e o que ela não é

O que é resiliência na psicologia, por que ela não é aguentar tudo calada, o que a pesquisa mostra sobre perdas e traumas e o que ajuda a desenvolver resiliência.


Resiliência é a capacidade de atravessar uma situação difícil, como uma perda, uma doença, uma crise ou um trauma, e conseguir seguir funcionando e se reorganizar com o tempo. A palavra vem da física, onde descreve um material que volta à forma depois de ser deformado. Na psicologia, ela não quer dizer não sofrer, nem aguentar tudo calada. Quer dizer sofrer e, aos poucos, encontrar um jeito de continuar. E resiliência não é um dom de poucos: depende muito das pessoas e dos recursos que estão à sua volta.

Ultimamente, a palavra aparece em todo lugar. Em entrevista de emprego, em discurso motivacional, em legenda de foto. Às vezes como elogio. Às vezes como cobrança: "seja resiliente" pode querer dizer "não reclama". Por isso vale entender o que ela quer dizer de verdade.

O que é resiliência

Em 2013, um grupo de pesquisadores de áreas diferentes, entre eles George Bonanno, Ann Masten e Rachel Yehuda, se reuniu pra discutir exatamente essa pergunta (Southwick et al., 2014). Cada um tinha uma definição um pouco diferente. Mas quase todas falavam de funcionar de forma saudável e adaptada, ao longo do tempo, depois de uma adversidade.

Duas ideias saem daí:

  • resiliência é um processo, não uma característica fixa. Você pode ser resiliente numa fase da vida e não em outra, numa área e não em outra;
  • ela depende de vários níveis: do corpo, da história de vida, da família, da comunidade, do dinheiro, da cultura.

O que é resiliência na psicologia: a "mágica comum"

Durante muito tempo, a psicologia olhou pra crianças que cresciam em situações muito duras esperando encontrar só problemas. Muitas delas cresceram bem. A psicóloga Ann Masten (2001) chamou isso de "mágica comum": a conclusão que mais surpreendeu foi justamente o quanto a resiliência é comum.

Pra Masten, ela não vem de qualidades extraordinárias. Vem do funcionamento normal de sistemas humanos de proteção: ter vínculos com adultos que cuidam, conseguir aprender e resolver problemas, regular as emoções, ter alguma sensação de que dá pra fazer algo. O que mais ameaça o desenvolvimento são as situações que quebram esses sistemas.

Isso muda a pergunta. Em vez de "por que eu não sou forte o bastante?", fica "o que está me sustentando, e o que está faltando?".

Resiliência não é aguentar tudo

Algumas coisas que costumam ser chamadas de resiliência e não são:

  • Engolir o que sente. Fingir que está bem não é atravessar. Muitas vezes é só adiar.
  • Ficar num lugar que machuca. Aguentar um trabalho abusivo ou uma relação violenta não é virtude. Às vezes a resposta resiliente é sair.
  • Nunca pedir ajuda. Pedir apoio é um dos recursos mais usados por quem atravessa bem uma crise.
  • Segurar a dor de todo mundo. Sentir junto o tempo todo, sem pausa, esgota. Escrevi sobre isso em empatia.
  • Voltar a ser exatamente quem era. Depois de uma perda grande, a gente muda. Seguir em frente não é apagar o que aconteceu.

Quando "ser resiliente" vira obrigação de dar conta de tudo, o corpo costuma cobrar. Escrevi sobre isso em o que é estresse e o que é burnout.

O que a pesquisa diz sobre perdas e traumas

O psicólogo George Bonanno (2004) revisou estudos sobre como adultos reagem a perdas e a situações potencialmente traumáticas. Ele chamou atenção pra três pontos:

  • muita gente passa por essas situações, sofre, e mesmo assim segue funcionando, com abalos pequenos e passageiros. Isso é mais comum do que se imaginava, e não é sinal de frieza;
  • resiliência e recuperação são caminhos diferentes. Na recuperação, a pessoa fica muito mal por um tempo e depois melhora. Na resiliência, ela balança, mas não chega a desmoronar. Os dois caminhos são normais;
  • existem vários caminhos pra resiliência, alguns inesperados.

Parte do motivo de a psicologia ter subestimado isso, segundo Bonanno, é que muito do que se sabia vinha de quem procurava tratamento, ou seja, de quem estava sofrendo mais.

Isso não quer dizer que quem desmorona fez algo errado. Quer dizer que não existe um jeito certo de reagir. Se depois de algo muito assustador as lembranças voltam como se estivesse acontecendo de novo, e isso não passa, vale ler sobre estresse pós-traumático.

Do que a resiliência depende

Algumas coisas aparecem com frequência nas pesquisas e na clínica:

  • vínculos: ter ao menos uma pessoa com quem contar;
  • sentido: algo que faça valer a pena atravessar, como filhos, um projeto, uma fé, um valor;
  • sensação de alguma influência: mesmo numa situação que você não escolheu, encontrar o que ainda está nas suas mãos;
  • cuidado com o corpo: sono, comida, movimento. Parece pouco, e faz diferença;
  • recursos concretos: dinheiro, moradia, acesso à saúde. Resiliência também é uma questão social.

Como desenvolver resiliência

Não existe curso de três passos. Existem práticas que fortalecem os sistemas que Masten descreveu:

  1. Cuide das suas relações antes da crise. Rede de apoio se constrói no dia a dia.
  2. Nomeie o que sente. "Estou com medo", "estou com raiva". Dar nome ajuda a regular.
  3. Divida o problema em partes. Numa crise, a pergunta "o que eu faço hoje?" costuma ser mais útil do que "como eu resolvo tudo?".
  4. Olhe pro que já te ajudou antes. Você já atravessou outras coisas. O que te sustentou naquela vez?
  5. Aceite ajuda. De gente próxima, de grupo, de profissional.
  6. Seja gentil com o seu ritmo. Comparar a sua reação com a dos outros só acrescenta peso.

Resiliência e terapia

A terapia não ensina a "ser resiliente". Ela é, ela mesma, um dos recursos: um vínculo seguro, um lugar pra nomear o que dói e pensar com calma no que fazer. Na abordagem centrada na pessoa, que é a que eu uso, a ideia de base é que cada pessoa tem uma tendência a crescer quando encontra condições pra isso. Meu trabalho é ajudar a criar essas condições.

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Perguntas frequentes

Resiliência é algo que a gente nasce com?

Em parte, o temperamento influencia. Mas a pesquisa mostra que resiliência depende muito de vínculos, recursos e experiências ao longo da vida. Ela pode crescer, e também pode se esgotar quando a pessoa fica tempo demais sem apoio.

Pessoa resiliente não sofre?

Sofre. Resiliência não é ausência de dor. É conseguir atravessar a dor e, com o tempo, continuar vivendo, mesmo que de um jeito diferente de antes.

Qual o contrário de resiliência?

Não existe um termo técnico único. No dia a dia, o oposto costuma ser descrito como ficar paralisada, sem conseguir se reorganizar por muito tempo depois de uma crise. Isso não é fraqueza. Muitas vezes é sinal de que a carga foi grande demais pros recursos que a pessoa tinha naquele momento.

O que é resiliência no trabalho?

É conseguir lidar com pressão, mudanças e erros sem desmoronar, e se recuperar depois. Mas resiliência no trabalho não deveria ser usada pra justificar carga excessiva, metas impossíveis ou ambiente abusivo. Quando a exigência é maior do que qualquer pessoa aguenta, o problema não é a sua resiliência.

Dá pra desenvolver resiliência?

Dá. Cuidar dos vínculos, do corpo e do sentido, aprender a nomear o que sente e pedir ajuda são coisas que fortalecem a resiliência. A terapia também pode ser um lugar pra isso.

Referências

  • Southwick, S. M., Bonanno, G. A., Masten, A. S., Panter-Brick, C. & Yehuda, R. (2014). Resilience definitions, theory, and challenges: interdisciplinary perspectives. European Journal of Psychotraumatology, 5, 25338. doi.org/10.3402/ejpt.v5.25338
  • Masten, A. S. (2001). Ordinary magic: resilience processes in development. American Psychologist, 56(3), 227-238. doi.org/10.1037/0003-066X.56.3.227
  • Bonanno, G. A. (2004). Loss, trauma, and human resilience: have we underestimated the human capacity to thrive after extremely aversive events? American Psychologist, 59(1), 20-28. doi.org/10.1037/0003-066X.59.1.20

Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga, CRP 01/30999.

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Fernanda Pessoa Ferro

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Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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