Empatia: o que é, quando cansa e o que pode estar por trás da falta de empatia
O que é empatia, a diferença entre empatia, compaixão e contágio emocional, por que empatia demais esgota e o que pode estar por trás da falta de empatia.
Empatia é a capacidade de sentir com o outro: perceber o que a pessoa está vivendo e ressoar com isso, sem confundir o sentimento dela com o seu. Ela é diferente de entender racionalmente o ponto de vista de alguém, e diferente de simplesmente "pegar" a emoção do ambiente. Empatia pode ser treinada, pode cansar quando vem sem cuidado consigo, e a falta de empatia nem sempre quer dizer frieza ou maldade.
Muita gente chega na terapia dizendo "eu sou empática demais". Outras chegam dizendo "meu parceiro não tem nenhuma empatia". As duas frases falam da mesma coisa, de lados opostos. Vale entender melhor do que se está falando.
O que é empatia
As neurocientistas Tania Singer e Olga Klimecki (2014) organizaram as peças assim:
- Empatia é compartilhar o que o outro sente. Você fica feliz com a alegria de alguém, sente um aperto com a dor de alguém. Mas sabe que aquela emoção é do outro.
- Tomada de perspectiva, ou mentalização, é entender o que o outro pensa e pretende. É mais racional: perceber que alguém pode ver a situação de um jeito diferente do seu.
- Contágio emocional é sentir a emoção do outro sem essa separação. É o bebê que chora porque outro bebê chorou. Já vem com a gente desde cedo.
A diferença entre empatia e contágio é importante. Na empatia, você sente com a pessoa e continua sendo você.
Empatia, simpatia e compaixão
No dia a dia, essas palavras se misturam. Uma forma simples de separar:
- simpatia é sentir pena ou torcer pelo outro, de fora;
- empatia é sentir junto;
- compaixão é sentir cuidado e vontade de ajudar, com calor, sem afundar na dor do outro.
Isso tem consequência prática. Num estudo, Klimecki e colegas (2014) treinaram pessoas primeiro em empatia e depois em compaixão. O treino de empatia aumentou o mal-estar diante de vídeos de sofrimento. O treino de compaixão, feito depois, conseguiu reverter esse aumento. Os autores sugerem que sentir a dor do outro em excesso pode ser uma fonte de esgotamento, e que a compaixão pode contrabalançar isso.
Quando a empatia cansa
Profissionais de saúde, professoras, mães, cuidadoras, pessoas muito sensíveis: quem passa o dia sentindo junto pode chegar ao fim do dia vazia. Às vezes chamam isso de "fadiga da compaixão". Pelo estudo acima, talvez o nome mais preciso seja cansaço de empatia: é a dor sentida junto, sem pausa, que esgota.
Alguns sinais:
- você sai de conversas com a emoção do outro grudada em você por horas;
- fica difícil dizer não, porque você sente demais o desconforto de quem ouviu o não;
- você cuida de todo mundo e não sobra nada pra você;
- você começa a evitar pessoas, notícias, conversas, porque não aguenta mais sentir.
Isso conversa com o que escrevi sobre pessoa altamente sensível e sobre people pleaser. Cuidar de si não é falta de empatia. É o que permite continuar tendo.
Falta de empatia: o que pode estar por trás
"Ele não tem empatia nenhuma" pode querer dizer muitas coisas diferentes. Algumas possibilidades:
- Esgotamento. Quem está no limite, com estresse alto, burnout ou depressão, muitas vezes perde a capacidade de se conectar. A empatia volta quando a pessoa se recupera.
- Dificuldade de reconhecer emoções. Na alexitimia, a pessoa tem dificuldade de identificar e nomear o que sente. Fica mais difícil perceber e responder ao que o outro sente também.
- Um jeito diferente de comunicar. Pessoas autistas foram por muito tempo descritas como "sem empatia". O pesquisador Damian Milton (2012), que é autista, propôs o problema da dupla empatia: a dificuldade de compreensão entre autistas e não autistas vai nos dois sentidos, e não é um defeito de um lado só. Muitas pessoas autistas sentem muito, e expressam de outro jeito.
- Narcisismo. No transtorno de personalidade narcisista, a falta de empatia é um dos traços descritos no DSM-5-TR (APA, 2022): dificuldade de reconhecer ou se importar com os sentimentos e as necessidades dos outros. Escrevi sobre isso em o que é narcisismo.
- Psicopatia. Aqui, o que mais chama atenção é a ausência de remorso e a frieza diante do sofrimento alheio, às vezes junto com uma boa capacidade de entender o outro e usar isso a seu favor. Expliquei as diferenças em psicopata, sociopata ou narcisista.
Repara que, nos dois últimos casos, a pessoa às vezes entende muito bem o que o outro sente. O que falta é se importar. Por isso, empatia não é só perceber. É perceber e deixar isso te tocar.
Nenhuma dessas possibilidades se confirma lendo um texto. Se você está numa relação em que se sente sempre desconsiderada, o teste "meu parceiro é narcisista?" pode ajudar a olhar pros padrões. E se houver humilhação, ameaça ou violência, você não precisa de diagnóstico de ninguém pra pedir ajuda: o Ligue 180 atende mulheres em situação de violência, 24 horas, de graça. Se você estiver em perigo agora, ligue 190. Se o sofrimento vier com vontade de se machucar, o CVV atende pelo 188. Reuni outros contatos em ajuda agora.
Empatia na terapia
Na abordagem centrada na pessoa, que é a que eu uso, a empatia está no centro do trabalho. Carl Rogers (1957) descreveu a compreensão empática como uma das condições pra que a terapia ajude: sentir o mundo da pessoa como se fosse o seu, sem nunca perder esse "como se". Anos depois, ele escreveu um texto inteiro sobre a empatia como um jeito de estar com o outro, muitas vezes subestimado (Rogers, 1975).
Isso não ficou só na teoria. Uma meta-análise com 82 amostras e mais de 6 mil pacientes encontrou que a empatia da terapeuta é um preditor moderadamente forte de bons resultados na terapia, em diferentes abordagens e diferentes queixas (Elliott et al., 2018).
Como desenvolver empatia
Empatia é uma capacidade, e capacidades crescem com prática:
- Escute pra entender, não pra responder. Repare quantas vezes você está montando a resposta enquanto o outro fala.
- Pergunte em vez de supor. "Como foi isso pra você?" abre mais do que "eu sei exatamente como é".
- Repita com suas palavras. "Parece que você ficou muito sozinha nisso." Se errar, a pessoa corrige, e tudo bem.
- Não pule pra solução. Às vezes a pessoa só quer ser ouvida.
- Cuide da sua própria emoção. É difícil sentir com o outro quando você está transbordando.
- Pratique com você mesma. Falar consigo com o mesmo cuidado que teria com uma amiga também é empatia.
Perguntas frequentes
O que é empatia em poucas palavras?
É sentir com o outro, entendendo o que ele vive, sem confundir o sentimento dele com o seu.
Qual a diferença entre empatia e simpatia?
Na simpatia, você sente algo pelo outro, de fora, como pena ou torcida. Na empatia, você sente junto, por um momento, como se estivesse no lugar dele.
Dá pra ter empatia demais?
O que costuma acontecer não é empatia demais, e sim empatia sem limite: sentir a dor do outro sem pausa, sem separar o que é seu e o que é dele, e sem cuidar de si. Isso esgota. Aprender a transformar parte dessa empatia em compaixão e a se proteger ajuda.
Falta de empatia é doença?
Não, por si só. Falta de empatia pode aparecer num momento de esgotamento, em quem tem dificuldade de reconhecer emoções, ou fazer parte de traços de personalidade como no narcisismo. Só uma avaliação diz o que está acontecendo com uma pessoa específica.
Autista não tem empatia?
Isso é um mito. Muitas pessoas autistas sentem muito pelo outro e expressam de um jeito diferente. A ideia do problema da dupla empatia mostra que a dificuldade de entendimento acontece dos dois lados. Escrevi mais sobre o autismo em mulheres em autismo em mulheres adultas.
Referências
- Singer, T. & Klimecki, O. M. (2014). Empathy and compassion. Current Biology, 24(18), R875-R878. doi.org/10.1016/j.cub.2014.06.054
- Klimecki, O. M., Leiberg, S., Ricard, M. & Singer, T. (2014). Differential pattern of functional brain plasticity after compassion and empathy training. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 9(6), 873-879. doi.org/10.1093/scan/nst060
- Milton, D. E. M. (2012). On the ontological status of autism: the "double empathy problem". Disability & Society, 27(6), 883-887. doi.org/10.1080/09687599.2012.710008
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA Publishing.
- Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95-103. doi.org/10.1037/h0045357
- Rogers, C. R. (1975). Empathic: an unappreciated way of being. The Counseling Psychologist, 5(2), 2-10. doi.org/10.1177/001100007500500202
- Elliott, R., Bohart, A. C., Watson, J. C. & Murphy, D. (2018). Therapist empathy and client outcome: an updated meta-analysis. Psychotherapy, 55(4), 399-410. doi.org/10.1037/pst0000175
Este texto é informativo e não é diagnóstico. Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga, CRP 01/30999.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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