Inveja: o que é, por que dói e como lidar com ela
O que é inveja, a diferença entre inveja boa e inveja que corrói, inveja ou ciúme, o papel das redes sociais e como lidar com a inveja sem se odiar por senti-la.
Inveja é a dor de ver outra pessoa ter algo que você deseja e sente que não tem: um relacionamento, um corpo, um trabalho, uma casa, uma facilidade com a vida. Ela costuma vir com uma sensação de ser menos, às vezes com raiva e ressentimento de quem tem. É uma emoção humana, desconfortável e quase sempre escondida, porque a gente aprende cedo que sentir inveja é feio.
Sentir inveja não faz de você uma pessoa ruim. O que muda a história é o que você faz com ela.
O que é inveja, segundo a psicologia
Os psicólogos Smith e Kim revisaram as pesquisas sobre o tema em 2007 e chegaram a uma definição que ajuda muito: inveja é uma emoção desagradável, muitas vezes dolorosa, marcada por sentimento de inferioridade, hostilidade e ressentimento, que aparece quando você percebe que outra pessoa ou grupo tem algo que você queria ter.
Três coisas costumam estar presentes:
- Comparação. Ninguém sente inveja do vazio. Ela nasce quando você se mede por alguém.
- Algo que importa pra você. Você não inveja quem corre maratona se isso não te diz nada. Inveja aponta pro que você valoriza.
- Sensação de injustiça ou de ficar pra trás. "Por que ela e não eu?"
Inveja boa existe?
Existe uma distinção que a pesquisa leva a sério. Em 2009, Niels van de Ven e colegas mostraram que há dois jeitos de sentir inveja:
- Inveja benigna, a que muita gente chama de "inveja boa". Dói, mas empurra pra frente. Você vê a amiga que voltou a estudar e pensa "eu também quero isso", e isso vira movimento.
- Inveja maligna, a que corrói. Dá vontade de que a outra pessoa perca o que tem, de diminuir, de achar defeito, de torcer contra.
As duas começam com a mesma pontada. A diferença está no rumo que ela toma. Na benigna, a atenção vai pro que você quer construir. Na maligna, vai pra derrubar quem tem.
Inveja ou ciúme: qual a diferença?
São parecidos e muita gente usa como sinônimo, mas falam de situações diferentes.
- Inveja envolve duas pessoas: você e quem tem algo que você deseja. "Queria ter o que ela tem."
- Ciúme envolve três: você, alguém que você ama e uma terceira pessoa que parece ameaçar essa relação. "Tenho medo de perder o que é meu."
Na vida real, os dois se misturam. Dá pra sentir ciúme do namorado e inveja da colega que chamou a atenção dele, tudo na mesma noite.
De onde vem a inveja
A inveja cresce em terrenos parecidos:
- Autoestima que depende de comparação. Se o seu valor sobe e desce conforme o desempenho dos outros, qualquer conquista alheia vira uma perda sua. Escrevi sobre isso em o que é autoestima.
- Cobrança alta demais. Quem vive se cobrando e nunca se sente suficiente tende a enxergar nos outros a prova de que está atrasada.
- Desejos que você não se permite. Às vezes a inveja é o único jeito que um desejo encontrou de aparecer. Você inveja a amiga que largou o emprego porque, lá no fundo, também quer mudar.
- Histórias de comparação na família. "Por que você não é como a sua irmã?" deixa marcas que voltam na vida adulta.
- Momentos de frustração. Quando a vida empaca, o sucesso dos outros pesa mais. Falo disso no texto sobre frustração.
Inveja nas redes sociais
A rede social é uma vitrine dos melhores momentos dos outros. Você compara os bastidores da sua vida com o palco da vida alheia.
Uma revisão de Philippe Verduyn e colegas, de 2017, encontrou um padrão interessante. Usar as redes de forma passiva, só rolando e olhando a vida dos outros, se associou a pior bem-estar, justamente por provocar comparação e inveja. Usar de forma ativa, conversando, comentando, trocando mensagens com quem você gosta, apareceu ligado a sensação de conexão.
Na prática, vale observar: depois de quanto tempo rolando o feed a pontada aparece? Tem perfis que sempre te deixam pior? Silenciar alguém não é crueldade. É cuidado com você.
Como lidar com a inveja
Algumas coisas que costumam ajudar:
- Dê nome. "Isso que eu estou sentindo é inveja." Parece pouco, mas tira a emoção do automático. Se você tem dificuldade de reconhecer o que sente, o texto sobre como identificar emoções pode ajudar.
- Não brigue com ela. Se culpar por sentir só acrescenta vergonha em cima da dor. Inveja reprimida não some, ela vira fofoca, ironia, afastamento.
- Pergunte o que ela está mostrando. O que exatamente você inveja? Muitas vezes não é a pessoa inteira, é um pedaço: a liberdade, o descanso, a coragem, o reconhecimento.
- Transforme em pergunta sobre você. "O que eu posso fazer, do meu jeito e no meu tempo, pra me aproximar disso?" Às vezes a resposta é agir. Às vezes é aceitar que aquilo não é pra agora, ou não é pra você.
- Lembre que você vê só um recorte. A vida da outra pessoa tem perdas e medos que não aparecem.
- Separe sentir de agir. Sentir inveja é inevitável. Falar mal, sabotar ou se afastar por despeito é escolha, e você pode escolher diferente.
- Cuide da base. Inveja constante costuma ser sinal de uma autoestima machucada. Vale olhar pra isso com carinho, e não só pra pontada do dia.
E quando a inveja é dos outros?
Muita gente que busca "como lidar com a inveja" está pensando na inveja que recebe: a colega que diminui suas conquistas, a amiga que some quando você está bem. Nesses casos, ajuda observar o comportamento, mais do que tentar adivinhar o sentimento. Você pode contar menos, escolher com quem dividir boas notícias e conversar quando a relação for importante. Não é tarefa sua administrar a inveja alheia.
Quando a inveja pede mais atenção
Vale procurar ajuda quando a inveja ocupa muito espaço, quando você não consegue ficar feliz por ninguém, quando a comparação te paralisa ou vem com tristeza que não passa. Na terapia comigo, na abordagem centrada na pessoa, a gente olha pro que essa inveja diz sobre os seus desejos e sobre como você aprendeu a se medir. Sem julgamento.
Este texto não é diagnóstico. Se quiser olhar pra como anda a sua relação com você mesma, o teste de autoestima é um ponto de partida, e o texto sobre sinais de autoestima baixa pode completar.
Perguntas frequentes
Sentir inveja é pecado ou falha de caráter?
Do ponto de vista da psicologia, inveja é uma emoção como outras. Ela aparece em quase todo mundo. O que pesa é quando ela vira hostilidade ou quando a pessoa passa a viver em função da comparação.
Inveja boa existe mesmo?
As pesquisas encontraram uma inveja que motiva a melhorar, sem desejar mal à outra pessoa. Ela ainda dói. A diferença é que aponta pra um caminho seu.
Como lidar com a inveja de uma amiga?
Primeiro, reconheça pra você mesma. Depois, tente descobrir o que exatamente você inveja nela e o que isso diz sobre os seus desejos. Se a inveja estiver afastando vocês, uma conversa sincera, sem acusação, pode aproximar.
Por que sinto inveja de quem eu amo?
Porque a comparação costuma acontecer com quem está perto e é parecido com a gente: irmã, amiga, colega. Sentir inveja de quem você ama não apaga o amor. Os dois podem existir juntos.
Inveja tem a ver com autoestima baixa?
Muitas vezes. Quando o seu valor depende de estar à frente, a conquista de alguém parece uma ameaça. Cuidar da autoestima costuma diminuir a força da comparação.
Referências
- Smith, R. H. & Kim, S. H. (2007). Comprehending envy. Psychological Bulletin, 133(1), 46-64. doi.org/10.1037/0033-2909.133.1.46
- van de Ven, N., Zeelenberg, M. & Pieters, R. (2009). Leveling up and down: The experiences of benign and malicious envy. Emotion, 9(3), 419-429. doi.org/10.1037/a0015669
- Verduyn, P., Ybarra, O., Résibois, M., Jonides, J. & Kross, E. (2017). Do social network sites enhance or undermine subjective well-being? A critical review. Social Issues and Policy Review, 11(1), 274-302. doi.org/10.1111/sipr.12033
A inveja costuma apontar pra algum desejo seu que ainda não teve espaço. Vale escutar o que ela diz antes de se condenar por senti-la.
Continue se escutando
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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