Infertilidade: o lado emocional de tentar engravidar
O lado emocional da infertilidade: o luto a cada ciclo, a pressão do relógio biológico, a gravidez depois dos 40, a FIV negativa e também a escolha de não querer ter filhos.
Infertilidade é a dificuldade de engravidar depois de 12 meses ou mais de tentativas, com relações sexuais regulares e sem proteção. Essa é a definição da Organização Mundial da Saúde. Em 2023, a OMS estimou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo passa por infertilidade em algum momento da vida. Além de ser uma questão médica, a infertilidade costuma ser uma das experiências emocionais mais solitárias que uma mulher atravessa.
Este texto fala do lado emocional. Diagnóstico, exames, chances e tratamentos são assunto da sua médica especialista em reprodução humana.
O que a infertilidade faz com as emoções
Quem tenta engravidar por muito tempo costuma descrever a vida como uma montanha-russa mensal: esperança no começo do ciclo, ansiedade na espera, e a queda quando a menstruação vem ou o exame dá negativo. E depois tudo de novo.
Uma revisão de Rooney e Domar, de 2018, reúne relatos frequentes de pacientes com dificuldade pra engravidar: sintomas de depressão e de ansiedade, isolamento e uma sensação forte de perda de controle. Algumas experiências que aparecem muito no consultório:
- Luto que se repete. Cada ciclo sem gravidez é uma pequena perda, e quase ninguém em volta percebe.
- Inveja e culpa. Ver a gravidez de amigas, ir a chá de bebê, abrir as redes sociais. Sentir inveja e depois se sentir uma pessoa ruim por isso.
- O corpo vira projeto. Datas, temperatura, testes de ovulação, remédios, injeções. O sexo vira tarefa.
- Isolamento. Muitas mulheres não contam pra ninguém, ou contam e ouvem frases que machucam.
- Sentimento de falha. "Meu corpo não faz o que deveria fazer."
- Tensão no casal. Cada um sofre de um jeito e num tempo. Às vezes um quer continuar e o outro quer parar.
Perguntas que doem
"E os filhos, quando vêm?", "relaxa que acontece", "por que vocês não adotam?", "você deixou pra muito tarde". Quem pergunta raramente sabe o que você está vivendo. Você não deve explicação a ninguém. Ter uma frase pronta, como "a gente prefere não falar disso", poupa energia.
Relógio biológico: a pressão do tempo
"Relógio biológico" é a expressão que muitas mulheres ouvem desde os vinte e poucos anos. A fertilidade muda com a idade, e isso é uma informação médica que vale conversar com a ginecologista. O problema emocional é quando o relógio vira uma sirene constante.
A pressão costuma vir de vários lados:
- Da família, que cobra neto.
- Das amigas, que estão tendo filhos.
- Do trabalho, que parece nunca ter o momento certo.
- Da vida amorosa, quando o parceiro não quer, ou não existe.
- De dentro, quando você não sabe se quer ou se acha que deveria querer.
Algumas perguntas ajudam a separar essas vozes: se ninguém te cobrasse, o que você sentiria? Você quer um filho, ou quer parar de sentir que está atrasada? Você está decidindo, ou deixando o tempo decidir por você?
Pra algumas mulheres, a resposta é buscar um filho sozinha. Escrevi sobre essa escolha em mãe solo.
Gravidez depois dos 40: o lado emocional
Cada vez mais mulheres pensam em engravidar depois dos 40. Os riscos e as possibilidades são conversa com a obstetra e com a especialista em reprodução. No lado emocional, aparecem algumas questões próprias:
- O julgamento dos outros, com comentários sobre idade, energia, "ser avó do próprio filho".
- A ansiedade de cada exame, maior quando você sabe que o tempo pesa.
- A urgência, que faz cada mês parecer decisivo.
- O luto antecipado, o medo de não conseguir antes mesmo de tentar.
- A ambivalência, querer muito e, ao mesmo tempo, gostar da vida que construiu.
Se você está grávida depois dos 40 e o medo do parto está grande demais, pode ser útil ler sobre tocofobia. E se o bebê já chegou, sobre o puerpério.
FIV negativa
Um beta negativo depois de uma fertilização in vitro costuma ser devastador. Houve semanas de remédios, injeções, consultas, dinheiro, expectativa. Às vezes havia embriões, e eles não vingaram. Pra muita gente, é o luto de um filho que quase existiu.
O que costuma acontecer depois de uma FIV negativa:
- Choque e vazio, mesmo quando você "já sabia que podia dar errado".
- Culpa, procurando o que você fez de errado. Se essa pergunta não sai da cabeça, leve à sua médica, que conhece o seu caso.
- Raiva, do corpo, da clínica, do mundo, de quem engravida sem tentar.
- A dúvida sobre tentar de novo, que envolve dinheiro, corpo, casal e coragem.
- Solidão, porque é uma perda que quase ninguém reconhece.
Dar tempo ao luto antes de decidir o próximo passo costuma ajudar. A diretriz da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), de 2015, recomenda que o cuidado psicossocial faça parte da rotina dos tratamentos de fertilidade, justamente porque o desgaste emocional é muito comum.
Não quero ter filhos
Nem toda mulher quer ser mãe. E, mesmo assim, quem diz isso costuma ouvir que "vai mudar de ideia", "vai se arrepender", "não sabe o que está perdendo".
Não querer ter filhos é uma escolha legítima. Algumas coisas que aparecem quando a mulher traz esse tema pra terapia:
- Dúvida real, que merece ser explorada sem pressa e sem resposta certa.
- Medo do arrependimento, nos dois sentidos: de ter e de não ter.
- Conflito com o parceiro, quando um quer e o outro não.
- Medo de engravidar, que às vezes é outra coisa, como um medo intenso do parto.
- Culpa diante da família, como se fosse uma dívida.
Algumas mulheres se tornam mães e, depois, sentem que não queriam. Esse tema existe, é real e é tratado com cuidado em arrependimento da maternidade.
Quando procurar ajuda
Você não precisa estar "muito mal" pra buscar terapia durante a infertilidade. Alguns sinais de que ela pode ajudar:
- A tentativa de engravidar ocupa quase todo o seu pensamento.
- Você se afastou de amigas e da família pra evitar notícias de gravidez.
- O casal só conversa sobre o tratamento, ou não conversa mais.
- A tristeza não alivia entre um ciclo e outro.
- Você não sabe se continua tentando e não consegue decidir.
- Está difícil dormir, trabalhar ou sentir prazer em outras coisas.
Terapia na infertilidade
Na terapia comigo, na abordagem centrada na pessoa, o espaço é pra tudo o que você não fala em outros lugares: a inveja, a raiva, o cansaço, a esperança que dá medo de sentir, a dúvida sobre parar. Não é meu papel decidir por você se vale tentar de novo, nem dar orientação médica. É te ajudar a ouvir o que você sente pra decidir com mais clareza.
Este texto não é diagnóstico. Se a ansiedade estiver tomando conta, o teste de ansiedade pode ajudar a olhar pra isso com calma.
Perguntas frequentes
Infertilidade é só da mulher?
Não. A definição da OMS fala em doença do sistema reprodutivo masculino ou feminino. A investigação costuma incluir o casal. Emocionalmente, os dois também são afetados, cada um do seu jeito.
Estresse causa infertilidade?
A relação entre estresse e infertilidade ainda é debatida nas pesquisas. Ouvir "relaxa que engravida" faz a mulher se sentir culpada pela própria dificuldade, e isso não ajuda. Cuidar das emoções vale por si, pra você atravessar esse processo com menos sofrimento.
Como lidar com o luto de uma FIV negativa?
Dando espaço pra tristeza antes de decidir o próximo passo, conversando com quem acolhe sem pressa, e buscando apoio psicológico se o luto ficar pesado demais. Muitas clínicas de fertilidade indicam psicólogas, e a diretriz europeia recomenda esse cuidado como rotina.
É normal sentir inveja de grávidas?
É muito comum entre mulheres tentando engravidar. A inveja não faz de você uma pessoa ruim. Ela mostra o tamanho do desejo e da dor. Você pode se proteger, por exemplo, faltando a um chá de bebê.
É egoísmo não querer ter filhos?
Não. Ter ou não ter filhos é uma decisão pessoal. O que costuma pesar não é a escolha em si, mas a pressão e o julgamento de quem está em volta.
Se estiver muito pesado
Se a tristeza virou desesperança, ou se você pensa em se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Veja também ajuda agora.
Referências
- World Health Organization. (2023). 1 in 6 people globally affected by infertility: WHO. who.int
- Rooney, K. L. & Domar, A. D. (2018). The relationship between stress and infertility. Dialogues in Clinical Neuroscience, 20(1), 41-47. doi.org/10.31887/DCNS.2018.20.1/klrooney
- Gameiro, S., Boivin, J., Dancet, E. et al. (2015). ESHRE guideline: routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction, a guide for fertility staff. Human Reproduction, 30(11), 2476-2485. doi.org/10.1093/humrep/dev177
Desejar um filho que não vem é uma dor que muita gente não vê. Ela merece o mesmo cuidado que qualquer outro luto.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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