Alexitimia e autismo: qual é a relação entre os dois?
Alexitimia e autismo aparecem juntos com frequência, mas não são a mesma coisa. Entenda a relação e quando buscar avaliação com neuropsicólogo.
Uma pergunta que aparece bastante quando o assunto é alexitimia e autismo: se eu tenho muita dificuldade de entender o que sinto, isso quer dizer que sou autista?
não necessariamente. Alexitimia e autismo são coisas diferentes. A alexitimia é um traço, uma dificuldade de identificar e descrever as próprias emoções, que pode aparecer em qualquer pessoa. O autismo (Transtorno do Espectro Autista, TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, com critérios próprios, que envolve comunicação social, interesses, padrões de comportamento e processamento sensorial. O que a pesquisa mostra é que os dois aparecem juntos com mais frequência do que o esperado, e isso ajuda a entender muita coisa.
O que a pesquisa diz sobre alexitimia e autismo
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2019 por Kinnaird, Stewart e Tchanturia, na revista European Psychiatry, reuniu estudos que mediram alexitimia em adultos autistas. O resultado estimou que cerca de metade das pessoas autistas avaliadas apresentava alexitimia, contra algo em torno de 5% na população geral dos mesmos estudos.
Ou seja: alexitimia é bem mais comum entre pessoas autistas, mas nem toda pessoa autista tem alexitimia, e a maioria das pessoas com alexitimia não é autista. Uma coisa não define a outra.
Há também uma linha de pesquisa, conhecida como "hipótese da alexitimia", discutida por pesquisadores como Geoffrey Bird e Richard Cook, que sugere que algumas dificuldades de reconhecer emoções atribuídas ao autismo poderiam estar mais ligadas à alexitimia que às vezes acompanha o autismo do que ao autismo em si. É uma discussão científica em andamento, não uma conclusão fechada, mas ajuda a desfazer um estereótipo antigo: o de que pessoas autistas "não sentem" ou "não têm empatia".
Alexitimia é autismo? Onde está a diferença
- Alexitimia fala sobre a relação com as próprias emoções: perceber, diferenciar, nomear, descrever. Pode estar ligada à história de vida, a experiências difíceis, a um ambiente onde emoção não tinha espaço, e também a fatores de temperamento e neurodesenvolvimento.
- Autismo é um jeito diferente de o cérebro se desenvolver e funcionar, presente desde a infância, que aparece em várias áreas da vida: na comunicação e na interação social, em interesses intensos e específicos, na necessidade de previsibilidade, na sensibilidade a sons, luzes, texturas.
Alguém pode ter muita dificuldade de nomear sentimentos sem ter nenhum desses outros aspectos. E alguém pode ser autista e ter um vocabulário emocional bem rico.
Autismo em mulheres adultas e a dificuldade com as emoções
Muitas mulheres só recebem o diagnóstico de autismo na vida adulta. Há um reconhecimento crescente, na literatura e na prática clínica, de que meninas e mulheres autistas muitas vezes aprendem a "camuflar" suas diferenças, imitando comportamentos sociais pra se encaixar. Isso cansa muito e pode atrasar a identificação.
Algumas mulheres chegam à terapia dizendo coisas como: eu sempre me senti diferente, nunca soube explicar por quê. Ou: eu passo o dia inteiro atuando e chego em casa esgotada. Quando isso vem junto de dificuldade com emoções, sensibilidade sensorial forte, necessidade de rotina e cansaço social intenso, pode valer uma investigação mais cuidadosa.
Só uma avaliação feita por profissional habilitado consegue dizer se você é autista.
Quando procurar avaliação com neuropsicólogo ou psiquiatra
Se você se identifica com a dificuldade de lidar com emoções e também percebe outros sinais que te acompanham desde a infância, o caminho mais adequado é procurar:
- Um psiquiatra, que pode fazer a avaliação clínica e o diagnóstico.
- Um neuropsicólogo, que faz uma avaliação mais detalhada, com instrumentos específicos, e contribui pro diagnóstico.
De preferência, profissionais com experiência em autismo na vida adulta e em mulheres, porque a apresentação pode ser diferente dos quadros mais conhecidos.
Meu papel como psicóloga aqui é outro. Eu não faço diagnóstico de autismo. O que eu ofereço é acompanhamento em psicoterapia: um espaço de acolhimento pra você entender seu jeito de sentir, lidar com o cansaço, com a culpa, com as relações, e, se for o caso, elaborar o que um diagnóstico significa pra você. Quando percebo que faz sentido, oriento a busca por essa avaliação especializada.
Um teste pra se observar
Se você quer olhar com mais atenção pra sua relação com as emoções, preparei um teste de alexitimia online e gratuito, com perguntas que eu escrevi pensando em mulheres adultas. Ele fala só sobre alexitimia, não sobre autismo, e serve como ponto de partida pra se escutar e, se fizer sentido, levar essas percepções pra uma conversa com um profissional.
Se quiser aprofundar a parte prática, escrevi também sobre como identificar emoções no dia a dia, com exercícios simples.
O que ajuda, independente do diagnóstico
Seja qual for o caminho, algumas coisas costumam fazer diferença:
- Tirar a culpa da equação. Dificuldade de nomear emoções não é defeito de caráter nem falta de amor.
- Respeitar seu jeito de processar. Algumas pessoas entendem o que sentiram depois, escrevendo ou em silêncio. Isso é válido.
- Começar pelo corpo. Sensações físicas costumam ser uma porta mais acessível do que palavras.
- Buscar informação de fonte confiável. Tem muito conteúdo simplificado demais sobre autismo e sobre alexitimia na internet.
E se em algum momento o sofrimento ficar pesado demais, com pensamentos de se machucar, procure ajuda agora: o CVV atende 24h, de graça, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Alexitimia e autismo andam juntos muitas vezes, mas não são a mesma coisa. Entender a diferença é um jeito de se tratar com mais precisão e com mais gentileza.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de alexitimia pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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