Crise depressiva: sinais, quanto dura e o que fazer
Crise depressiva é o nome popular do episódio depressivo. Veja os sinais, quanto tempo dura, o que fazer durante a crise, como ajudar alguém e quando ligar para o CVV 188 ou o SAMU 192.
Crise depressiva é o nome popular de um episódio depressivo: um período em que o humor fica deprimido ou o interesse pelas coisas some, quase o dia todo e quase todos os dias, junto com outros sintomas como cansaço, alteração de sono e de apetite, culpa e dificuldade de concentração. Nem a CID-11 da Organização Mundial da Saúde (OMS) nem o DSM-5 da Associação Americana de Psiquiatria usam a expressão "crise depressiva". Os dois falam em episódio depressivo e pedem, para esse nome, que os sintomas durem pelo menos duas semanas. Quando o quadro é mais curto ou mais leve, ele ainda pode pesar muito e merece atenção.
Este texto não faz diagnóstico. Ele ajuda a reconhecer o que está acontecendo, a saber o que fazer nas horas difíceis e a decidir quando procurar alguém. Se você está em risco agora, vá direto para a seção "Quando é emergência?", mais abaixo.
Quais os sinais de uma crise depressiva?
O sinal central é o humor deprimido ou a perda de interesse e de prazer, na maior parte do dia, quase todo dia. Em volta dele costumam aparecer outros. Na lista de sintomas do DSM-5 para o episódio depressivo estão:
- tristeza, vazio ou choro fácil (em alguns casos, irritação em vez de tristeza);
- perda de interesse ou de prazer em quase tudo, o que a psicologia chama de anedonia;
- mudança no apetite ou no peso, para mais ou para menos;
- sono a menos (insônia) ou a mais;
- agitação ou lentidão que os outros chegam a notar;
- cansaço e falta de energia quase todo dia;
- sentimento de inutilidade ou culpa excessiva;
- dificuldade de pensar, de se concentrar ou de decidir;
- pensamentos recorrentes de morte ou de se machucar.
Na crise, o que costuma chamar atenção é a mudança em relação ao seu jeito de ser: tarefas simples, como tomar banho ou responder uma mensagem, ficam enormes; o que dava prazer deixa de dar; a pessoa se isola. Cada sinal é explicado em sintomas de depressão.
Ter alguns desses sinais por alguns dias, depois de uma perda ou de uma fase pesada, não quer dizer que existe um transtorno. Quem avalia isso é um profissional, olhando a sua história. Se quiser organizar o que sente antes, o teste de depressão usa o PHQ-9, um questionário de triagem: ele não dá diagnóstico, só ajuda a ver se vale buscar avaliação.
Quanto tempo dura um episódio depressivo?
Para receber o nome de episódio depressivo, os sintomas precisam estar presentes por pelo menos duas semanas. Esse é o piso do critério. O teto não é fixo: há episódios que se resolvem em semanas e outros que se estendem por meses, e a duração depende de cada pessoa, de se há acompanhamento e do que está por trás do quadro.
Dois pontos ajudam a se situar:
- Primeiro episódio ou episódio que volta. Na CID-10, o episódio único é o F32 e o transtorno depressivo recorrente (quando já houve episódios antes) é o F33. Na CID-11, são 6A70 e 6A71. Os códigos completos, com a tabela de cada subcódigo, estão em CID da depressão.
- Crise não é o mesmo que depressão crônica. Humor rebaixado por anos, sem a intensidade de um episódio, é outra coisa: veja distimia.
Uma crise que passa não prova que "era frescura", e uma que demora não prova fraqueza. Se as semanas estão se acumulando e nada muda, é o momento de procurar avaliação, sem esperar piorar.
O que fazer durante uma crise?
Na crise, o objetivo não é se curar naquele dia. É atravessar as horas sem se machucar e chegar ao atendimento. Algumas coisas costumam ajudar:
- Não fique sozinha com isso. Avise uma pessoa de confiança, mesmo que seja só: "estou num momento ruim, pode ficar por perto ou me ligar mais tarde?". Quem está em crise tende a se isolar, e o isolamento pesa.
- Diminua o dia. Escolha o mínimo: beber água, comer algo, tomar banho, abrir a janela. Um passo pequeno conta.
- Adie decisões grandes. Largar o emprego, terminar uma relação, apagar contas: se não for urgente, deixe para quando o quadro tiver cedido um pouco. A depressão distorce a leitura do futuro.
- Evite álcool. Ele costuma piorar o humor e o sono no dia seguinte.
- Se você já tem acompanhamento, avise a psicóloga ou o médico que a crise começou. Não espere a próxima sessão se o quadro piorou. Sobre medicação, a conversa é só com quem prescreveu: não pare nem mude por conta própria.
- Se ainda não tem, marque uma avaliação. Pode ser com psicóloga, com médico da família ou psiquiatra, ou nos serviços públicos (UBS e CAPS). A psicoterapia é um dos caminhos; psicóloga não receita remédio, e quando é o caso a avaliação médica entra junto.
Se a crise vier com a ideia de se machucar ou de não estar mais aqui, o passo é outro: veja a seção abaixo.
Como ajudar alguém em crise?
Quem está perto costuma ter medo de dizer a coisa errada. O que mais ajuda é simples:
- Pergunte diretamente como a pessoa está e escute sem corrigir. "Como você está de verdade?" abre mais do que "anima, vai passar".
- Evite frases que minimizam: "isso é falta de fé", "tem gente pior", "é só querer". Elas fazem a pessoa se sentir ainda mais culpada.
- Ofereça ajuda concreta: levar a uma consulta, ficar junto enquanto marca, trazer uma refeição, caminhar com ela. Pedir "me avisa se precisar" costuma não funcionar, porque ela não tem energia para avisar.
- Incentive a avaliação profissional sem forçar, e se ofereça para ajudar a achar alguém.
- Pergunte sobre suicídio quando houver sinais. Perguntar não coloca a ideia na cabeça de ninguém; abre espaço para a pessoa falar. Se a resposta for sim, não deixe a pessoa sozinha e procure ajuda de emergência (seção abaixo).
- Cuide de você também. Apoiar alguém em crise cansa. Ter com quem conversar é parte do cuidado.
Se o seu papel é o de cuidar de alguém por muito tempo, veja sobrecarga do cuidador.
Quando é emergência?
Procure ajuda agora se houver:
- pensamentos de se matar ou de se machucar, principalmente com plano ou meio à mão;
- a sensação de que não consegue se manter segura;
- uma tentativa em curso, ou que acabou de acontecer;
- ideias de que está sendo perseguida ou vozes que mandam fazer algo, o que pode indicar sintomas psicóticos;
- quando alguém perto de você diz ou faz algo que indica risco.
No Brasil:
- CVV, 188. Atende 24 horas, de graça e em sigilo, por telefone. Também há chat em cvv.org.br.
- SAMU, 192. Risco imediato à vida: ligue, ou vá ao pronto-socorro ou à UPA mais próxima.
- Mais contatos em ajuda agora.
Se você está fora do Brasil, o 188 e o 192 não funcionam. Ligue para o número de emergência do país onde está, ou vá ao serviço de emergência mais próximo, e diga que se trata de uma crise de saúde mental. Se a língua for uma barreira, peça a alguém por perto que ligue com você. Em muitos países existe também uma linha de apoio emocional local; o site do serviço de saúde de cada país costuma listar.
Pedir ajuda numa crise não é exagero. Se você não tem certeza se é o momento, trate como se fosse.
Como a crise depressiva é tratada
O tratamento é definido na avaliação, olhando a intensidade do episódio e a sua história. Pode incluir psicoterapia, medicação (com médico ou psiquiatra) ou as duas, e o acompanhamento ajuda a reduzir a chance de o quadro voltar. Antes de procurar, vale entender o que é depressão e como ela se diferencia de tristeza.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics (2025-01), 6A70 e 6A71, transtornos depressivos. icd.who.int/browse/2025-01/mms/en
- Organização Mundial da Saúde. ICD-10 Version: 2019, categorias F32 e F33. icd.who.int/browse10/2019/en#/F32
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Critérios do episódio depressivo maior.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Apoio emocional e prevenção do suicídio, 188. cvv.org.br
Uma crise é um momento, não o seu retrato. Se está pesado, você não precisa atravessar sozinha.
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Se você se reconheceu nesse texto, o teste de depressão (PHQ-9) pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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