Amor próprio: o que é e como ter amor próprio de verdade
O que é amor próprio, por que ele não é o mesmo que se achar incrível, o que a pesquisa sobre autocompaixão mostra e caminhos práticos pra aprender a se tratar melhor.
Amor próprio é o jeito como você se trata, principalmente quando as coisas dão errado. É conseguir se olhar com cuidado e respeito, reconhecer o que precisa mudar sem se humilhar, e cuidar das suas necessidades sem sentir que está pedindo demais. Não é se achar perfeita. É se aceitar como gente, com acertos e falhas, e não abandonar você mesma no caminho.
Na internet, amor próprio virou sinônimo de autocuidado com banho de espuma e frase de espelho. Pode até ajudar. Mas o amor próprio que muda a vida costuma ser mais silencioso e mais trabalhoso que isso.
O que é amor próprio
A psicologia não usa muito o termo "amor próprio". Ela fala de coisas próximas, que ajudam a entender o que ele é:
- Autoestima: a avaliação que você faz do seu próprio valor. Escrevi sobre isso em o que é autoestima.
- Autoaceitação: reconhecer quem você é, incluindo o que não gosta, sem precisar ser outra pessoa pra ter valor.
- Autocompaixão: tratar a si mesma com a mesma gentileza que trataria alguém querido num momento difícil.
A psicóloga Kristin Neff (2003) descreveu a autocompaixão em três partes:
- Gentileza consigo, no lugar do julgamento duro.
- Humanidade compartilhada, no lugar do isolamento. Perceber que errar e sofrer faz parte de ser gente, e não é prova de que tem algo errado só com você.
- Atenção plena, no lugar de se afogar na emoção. Reconhecer a dor sem fingir que ela não existe e sem deixar que ela vire tudo.
Pra mim, essas três partes descrevem bem o que é amor próprio na prática.
Amor próprio não é egoísmo
Muitas mulheres aprenderam que pensar em si é egoísmo. Que boa pessoa é quem se doa sem limite, quem não incomoda, quem está sempre disponível.
Amor próprio não é deixar de se importar com os outros. É se incluir na lista de pessoas que merecem cuidado. Dizer não quando precisa, descansar sem culpa, sair de lugares que machucam. Se isso é difícil pra você, talvez se reconheça em o que é people pleaser.
De onde vem a falta de amor próprio
Carl Rogers, criador da abordagem com que eu trabalho, falava das condições de valor. Quando a criança sente que só é amada se for boazinha, se tirar nota boa, se não chorar, ela aprende que o próprio valor depende de cumprir essas condições. Com o tempo, passa a se tratar do mesmo jeito: só merece carinho quando acerta.
Por isso a falta de amor próprio raramente é preguiça ou fraqueza. Costuma ser uma lição antiga, aprendida pra sobreviver num ambiente que exigia muito. Algumas marcas comuns:
- Uma voz interna que critica tudo, e muito mais dura com você do que com qualquer outra pessoa.
- Dificuldade de receber elogio.
- Sensação de que precisa merecer o descanso.
- Ficar em relações que fazem mal por medo de não ter coisa melhor.
- Se cobrar o tempo todo e nunca se sentir suficiente.
O que a pesquisa mostra sobre autocompaixão
A autocompaixão é bem estudada. Uma meta-análise de MacBeth e Gumley (2012) reuniu estudos que usaram a escala de Neff e encontrou uma relação forte entre mais autocompaixão e menos sintomas de depressão, ansiedade e estresse. São estudos de correlação, ou seja, mostram que as coisas andam juntas, não que uma causa a outra.
Outra meta-análise, de Ferrari e colegas (2019), reuniu 27 ensaios clínicos com intervenções de autocompaixão. Os participantes tiveram melhoras em vários aspectos, entre eles ruminação, ansiedade, depressão e comportamento alimentar, quando comparados com grupos de controle.
Muita gente teme que, se parar de se criticar, vai se acomodar. Num conjunto de quatro experimentos, Breines e Chen (2012) encontraram o contrário: depois de um erro, quem foi convidada a se tratar com compaixão ficou mais motivada a melhorar, e estudou mais pra uma prova difícil depois de ir mal na primeira. Gentileza consigo não é passar a mão na cabeça. É conseguir olhar pro erro sem precisar se destruir por ele.
Como ter amor próprio
Não existe um passo a passo que funcione pra todo mundo. Mas alguns caminhos costumam ajudar.
Repare em como você fala consigo
Durante uns dias, preste atenção na voz interna quando algo dá errado. Ela diz "que burra" ou "foi difícil, e tudo bem"? Só perceber já muda alguma coisa. Se essa voz for muito dura, leia sobre autoimagem e autocrítica.
Fale com você como falaria com uma amiga
Quando errar, pergunte: o que eu diria pra uma amiga nessa situação? Depois tente dizer o mesmo pra você. Parece bobo e costuma ser desconfortável no começo. Isso é sinal de que é novo, não de que está errado.
Cuide das necessidades básicas
Comer, dormir, ir ao médico, descansar. Amor próprio passa por tratar o seu corpo como algo que merece cuidado, e não como uma máquina que precisa render.
Ponha limites
Cada "não" que você diz pra algo que te faz mal é um "sim" pra você. Comece pelos limites pequenos.
Questione as regras que você aprendeu
"Só tenho valor se agradar." "Se eu errar, vão me abandonar." Essas frases funcionam como regras que a gente nem percebe que segue. Explico melhor em crenças limitantes.
Conheça a sua história
Entender de onde vem a dureza consigo ajuda a não levá-la tão a sério. O autoconhecimento é parte do caminho.
Como se amar quando parece impossível
Às vezes "se ame" soa como uma ordem impossível. Se for o seu caso, não comece pelo amor. Comece pelo respeito, ou pela curiosidade. "Não sei se me amo, mas posso tentar não me maltratar hoje." Já é muito.
Amor próprio não é um sentimento que aparece de repente. É uma prática que, com o tempo, vai mudando a forma como você se sente.
Quando a terapia ajuda
Se a falta de amor próprio está te prendendo em relações difíceis, te deixando triste com frequência ou te impedindo de viver o que você quer, vale procurar ajuda. Na terapia centrada na pessoa, a ideia é que você encontre ali o que talvez tenha faltado antes: alguém que te escuta sem condição, sem julgamento. É nessa experiência que muita gente começa a se tratar de outro jeito.
Se quiser um ponto de partida, o teste de autoestima no fim deste texto ajuda a olhar pra como você se avalia hoje. Ele não é diagnóstico, é um convite pra se escutar.
Se a falta de amor por si vier junto com vontade de sumir ou de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Tem mais caminhos em ajuda agora.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre amor próprio e autoestima?
Autoestima é a avaliação que você faz do seu valor. Amor próprio, do jeito que eu uso a palavra, é mais sobre como você se trata, inclusive quando se avalia mal. Dá pra ter dias de autoestima baixa e ainda assim se tratar com cuidado.
Amor próprio é se achar bonita?
Não necessariamente. Gostar da aparência pode fazer parte, mas amor próprio vai além do espelho. É se respeitar inteira, inclusive nos dias em que você não gosta do que vê.
Quem tem amor próprio não sofre?
Sofre. A diferença é que, no sofrimento, consegue se acolher em vez de se atacar. A dor continua, mas sem a camada extra de culpa por estar sentindo.
Dá pra ter amor próprio e estar num relacionamento?
Dá, e ajuda muito. Quem se trata bem costuma aceitar menos o que machuca e escolher com mais liberdade. Amor próprio não é ficar sozinha. É não se perder de si dentro da relação.
Amor próprio se aprende depois de adulta?
Sim. Muita gente aprende a se tratar com gentileza só na vida adulta, em relações seguras, na terapia, com prática. O que foi aprendido pode ser revisto.
Referências
- Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101. doi.org/10.1080/15298860309032
- MacBeth, A. & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. doi.org/10.1016/j.cpr.2012.06.003
- Ferrari, M. et al. (2019). Self-compassion interventions and psychosocial outcomes: A meta-analysis of RCTs. Mindfulness, 10(8), 1455-1473. doi.org/10.1007/s12671-019-01134-6
- Breines, J. G. & Chen, S. (2012). Self-compassion increases self-improvement motivation. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(9), 1133-1143. doi.org/10.1177/0146167212445599
- Rogers, C. R. (1959). A theory of therapy, personality, and interpersonal relationships, as developed in the client-centered framework. Em S. Koch (Ed.), Psychology: A study of a science (Vol. 3, pp. 184-256). McGraw-Hill.
- Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person. Houghton Mifflin. (Em português: Tornar-se pessoa, WMF Martins Fontes.)
Você não precisa merecer o próprio cuidado. Ele pode começar hoje, do jeito que você está.
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Se você se reconheceu nesse texto, o teste de autoestima pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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