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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Musicoterapia funciona? O que a pesquisa mostra e como ela se compara à psicoterapia

Musicoterapia é o uso da música e dos seus elementos, cantando, tocando, improvisando ou escutando, por musicoterapeuta, com objetivo terapêutico. É profissão regulamentada no Brasil desde 2024. Revisões Cochrane mostram que, somada ao tratamento usual, ela reduz sintomas de depressão no curto prazo, com evidência de qualidade moderada, e há resultados favoráveis em esquizofrenia e autismo. Não há base pra dizer que ela é melhor ou pior que a psicoterapia, e ela não substitui remédio indicado por psiquiatra.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026

Lado a lado

Musicoterapia funciona? O que a pesquisa mostra e como ela se compara à psicoterapia: comparação lado a lado
CritérioMusicoterapiaOuvir músicaPsicoterapia
O que éMusicoterapia: Intervenção com a música e seus elementos (som, ritmo, melodia, harmonia), conduzida por musicoterapeuta, individual ou em grupo.Ouvir música: Escutar música gravada por conta própria, ou oferecida num serviço de saúde, sem um processo terapêutico em volta.Psicoterapia: Tratamento pela conversa e pela relação com a psicóloga, em sessões regulares.
Como aconteceMusicoterapia: Pode ser ativa, cantando, tocando, improvisando ou compondo, ou receptiva, escutando e reagindo ao que ouve. A musicoterapeuta participa do processo.Ouvir música: Você escolhe e escuta. Não há alguém acompanhando o que a música desperta em você.Psicoterapia: Pela fala. Você traz o que está vivendo, e o jeito de conduzir depende da abordagem da psicóloga.
Quem conduzMusicoterapia: Musicoterapeuta. Pela Lei nº 14.842, de 2024, com graduação em musicoterapia, pós-graduação na área concluída até dois anos depois da lei ou pelo menos cinco anos de atuação comprovada antes dela.Ouvir música: Ninguém, ou um profissional de saúde que oferece a música, como na espera de uma cirurgia.Psicoterapia: Psicóloga com graduação em Psicologia e registro no Conselho Regional de Psicologia, ou médico psiquiatra.
Pesquisa em depressãoMusicoterapia: Revisão Cochrane de 2017: somada ao tratamento usual, reduziu sintomas depressivos no curto prazo, com evidência de qualidade moderada.Ouvir música: As revisões usadas nesta página não testam escutar música por conta própria como tratamento de depressão.Psicoterapia: Meta-análise de 2020 com 101 estudos: resposta parecida à do remédio, e melhor com os dois juntos.
Outros quadros estudadosMusicoterapia: Revisões Cochrane com resultados favoráveis em esquizofrenia (somada ao cuidado padrão) e em autismo, com evidência moderada a baixa, conforme o desfecho.Ouvir música: Ansiedade antes de cirurgia: ouvir música gravada reduziu a ansiedade, em estudos com alto risco de viés.Psicoterapia: Tem pesquisa em muitos quadros e com várias abordagens. Só em depressão, a meta-análise de 2020 reuniu 101 estudos.
Efeitos indesejadosMusicoterapia: Na revisão de depressão, não houve mais nem menos eventos adversos do que no tratamento usual.Ouvir música: A revisão sobre cirurgia não identificou efeitos adversos.Psicoterapia: Também tem, como piora passageira ou dependência da terapeuta, e isso deve ser acompanhado na própria sessão.
No SUSMusicoterapia: Está entre as práticas integrativas e complementares desde a Portaria GM/MS nº 849, de 2017.Ouvir música: Não se aplica.Psicoterapia: Psicólogas atuam na rede pública, mas a oferta de psicoterapia varia de cidade pra cidade.
Pra que costuma servirMusicoterapia: Complemento a um tratamento, sobretudo quando a expressão pela fala é difícil ou quando a música é uma via importante pra pessoa.Ouvir música: Acalmar ou mudar o estado de ânimo num momento pontual.Psicoterapia: Tratar sofrimentos como depressão e ansiedade, entender padrões que se repetem e atravessar fases difíceis.

O que é musicoterapia e o que acontece numa sessão?

A Lei nº 14.842, de 2024, define o musicoterapeuta como o profissional que usa a música e os seus elementos pra intervenção terapêutica, com indivíduos, grupos, famílias ou comunidades, buscando melhorar a aprendizagem, a qualidade de vida e a saúde física, mental e social. Na descrição do Ministério da Saúde, a música e seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) servem pra facilitar comunicação, relação, expressão e organização, entre outros objetivos terapêuticos.

A revisão Cochrane sobre depressão separa dois jeitos de trabalhar. Nos métodos ativos, a pessoa faz música: canta, toca um instrumento, improvisa, recria ou compõe. Nos métodos receptivos, ela escuta e responde ao que ouve, em silêncio, falando ou de outras formas. Nos dois casos, a musicoterapeuta participa ativamente do processo.

Musicoterapia é a mesma coisa que ouvir música?

Não, e a pesquisa separa as duas. Uma revisão Cochrane de 2013 chama de “medicina musical” a escuta passiva de música gravada, oferecida por profissionais de saúde, e reserva o nome musicoterapia pra intervenção feita por musicoterapeuta treinada, com processo terapêutico e experiências musicais ajustadas à pessoa.

Isso não quer dizer que ouvir música não ajude. Na mesma revisão, com 26 estudos de pessoas esperando uma cirurgia, todos com música gravada, a escuta reduziu a ansiedade antes da operação. Os autores alertam que a maioria dos estudos tinha alto risco de viés, porque é difícil esconder de quem participa que está ouvindo música.

A diferença prática: ouvir a sua playlist pode acalmar num momento difícil. A musicoterapia é um acompanhamento com uma profissional, com objetivo e continuidade.

O que a pesquisa diz sobre musicoterapia na depressão?

A revisão Cochrane de 2017 reuniu nove estudos com 421 pessoas. Musicoterapia somada ao tratamento usual reduziu os sintomas depressivos mais do que o tratamento usual sozinho, tanto na avaliação de profissionais quanto no relato das próprias pessoas, com evidência de qualidade moderada. Também houve melhora em ansiedade e funcionamento, e não houve diferença em eventos adversos.

Dois limites importam. O efeito medido foi de curto prazo. E, quando a musicoterapia foi comparada diretamente com psicoterapias, havia poucos estudos, pequenos, com evidência de qualidade baixa ou muito baixa. Ou seja, a revisão não permite dizer que uma é melhor que a outra.

O jeito mais fiel de ler esse resultado é como complemento: a musicoterapia ajudou quando entrou junto com o cuidado que a pessoa já recebia.

E em esquizofrenia e autismo, a musicoterapia ajuda?

Em esquizofrenia, a revisão Cochrane de 2017 incluiu 18 estudos com 1.215 pessoas. Somada ao cuidado padrão, a musicoterapia melhorou o estado global, o estado mental, incluindo sintomas negativos, o funcionamento social e a qualidade de vida, com evidência de qualidade moderada a baixa. Os autores notam que os efeitos variaram entre estudos e dependeram do número de sessões e da qualidade da musicoterapia oferecida.

Em autismo, a revisão Cochrane de 2022 reuniu 26 estudos com 1.165 participantes, a maior parte crianças de 2 a 12 anos. A musicoterapia provavelmente aumenta a chance de melhora global, reduz a gravidade dos sintomas e melhora um pouco a qualidade de vida, com certeza moderada, e provavelmente não aumenta eventos adversos. Pra interação social e comunicação verbal e não verbal, não houve diferença clara.

Musicoterapia e psicoterapia podem andar juntas?

Podem, e isso combina com o que os estudos testaram. As duas profissões têm formações diferentes e caminhos diferentes: uma trabalha pela música, a outra pela conversa. Pra algumas pessoas, cantar ou tocar abre um acesso ao que sentem que a fala sozinha não abre.

Se você fizer as duas, vale que as profissionais saibam uma da outra, com a sua autorização. E se você toma remédio psiquiátrico, nenhuma das duas decide sobre ele: isso é com o seu psiquiatra.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Musicoterapia
Costuma fazer mais sentido quando a música é uma via importante pra você, quando falar do que sente é muito difícil, ou como complemento a um tratamento de depressão, esquizofrenia ou autismo, que são os quadros com revisões Cochrane. Procure musicoterapeuta com a formação prevista em lei. Se o sofrimento é intenso ou envolve pensamentos de morte, ela não deve ser o único cuidado.
Ouvir música
Faz sentido como recurso do dia a dia: pra acalmar, pra atravessar uma espera, pra mudar o clima de um momento. É gratuito e está ao seu alcance. Só não é tratamento: se a tristeza ou a ansiedade estão tomando conta da sua rotina, a música pode acompanhar, mas não substitui cuidado profissional.
Psicoterapia
Faz mais sentido quando você quer entender e mudar algo que se repete, atravessa um quadro de depressão ou ansiedade que pede tratamento, ou precisa de um espaço regular pra elaborar o que vive. Se a música é central na sua vida e você quer usá-la no cuidado, a musicoterapia pode entrar junto.

Perguntas frequentes

Musicoterapia funciona para ansiedade?

Há sinais, mas em contextos específicos. Na revisão Cochrane de depressão, a musicoterapia somada ao tratamento usual também reduziu a ansiedade de pessoas com depressão. E, antes de cirurgias, ouvir música gravada reduziu a ansiedade, com estudos de alto risco de viés. Pra ansiedade como quadro principal, as fontes usadas aqui não trazem uma resposta.

Preciso saber tocar ou cantar pra fazer musicoterapia?

Os métodos incluem escutar, e não só fazer música. Os estudos com autismo, por exemplo, incluem crianças a partir de 2 anos e pessoas com habilidades de linguagem muito variadas. Se isso te preocupa, pergunte à musicoterapeuta como ela trabalha antes de começar.

Musicoterapia tem no SUS?

Sim. A musicoterapia entrou na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares pela Portaria GM/MS nº 849, de 27 de março de 2017, e está entre as 29 práticas listadas pelo Ministério da Saúde. A oferta depende do município, então vale perguntar na sua unidade básica de saúde.

Quem pode ser musicoterapeuta?

Pela Lei nº 14.842, de 11 de abril de 2024: quem tem graduação em musicoterapia no Brasil, ou diploma estrangeiro revalidado; quem concluiu pós-graduação lato sensu em musicoterapia até 24 meses depois da publicação da lei; e quem comprovar pelo menos cinco anos de atuação como musicoterapeuta antes dela.

Musicoterapia tem efeito colateral?

Nas revisões Cochrane, ela não trouxe mais eventos adversos do que o cuidado usual, em depressão, e provavelmente não aumentou esses eventos, em autismo. Como qualquer cuidado que mexe com emoções, ela pode trazer à tona coisas difíceis, e por isso importa ter uma profissional formada acompanhando.

Musicoterapia substitui remédio para depressão?

Não é o que a pesquisa mostra. Na revisão Cochrane, o benefício apareceu com a musicoterapia somada ao tratamento usual. Se você toma remédio psiquiátrico, não pare nem mude a dose por conta própria: essa decisão é com o seu psiquiatra.

De onde vem cada afirmação

  1. Brasil. Presidência da República (2024). Lei nº 14.842, de 11 de abril de 2024: dispõe sobre a atividade profissional de musicoterapeuta. Diário Oficial da União, 11/04/2024, edição extra. Define o musicoterapeuta, diz quem pode exercer a profissão (graduação, pós-graduação na transição ou cinco anos de atuação) e lista as competências.
  2. Brasil. Ministério da Saúde (2017). Portaria nº 849, de 27 de março de 2017: inclui a Arteterapia, Ayurveda, Biodança, Dança Circular, Meditação, Musicoterapia e outras práticas na PNPIC. Diário Oficial da União nº 60, 28/03/2017, Seção 1, p. 68. Inclui a musicoterapia entre as práticas integrativas e complementares do SUS.
  3. Brasil. Ministério da Saúde (2026). Recursos terapêuticos: Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). gov.br/saude. Descrição oficial da musicoterapia: uso da música e de seus elementos, em grupo ou individual, com objetivos terapêuticos.
  4. Aalbers, S., Fusar-Poli, L., Freeman, R. E., Spreen, M., Ket, J. C., Vink, A. C. et al. (2017). Music therapy for depression. Cochrane Database of Systematic Reviews. 9 estudos, 421 pessoas: somada ao tratamento usual, reduziu sintomas depressivos no curto prazo (qualidade moderada), sem diferença em eventos adversos; comparação com psicoterapias incerta.
  5. Geretsegger, M., Mössler, K. A., Bieleninik, Ł., Chen, X. J., Heldal, T. O. & Gold, C. (2017). Music therapy for people with schizophrenia and schizophrenia-like disorders. Cochrane Database of Systematic Reviews. 18 estudos, 1.215 pessoas: somada ao cuidado padrão, melhorou estado global, estado mental, funcionamento social e qualidade de vida, com evidência moderada a baixa e efeitos inconsistentes.
  6. Geretsegger, M., Fusar-Poli, L., Elefant, C., Mössler, K. A., Vitale, G. & Gold, C. (2022). Music therapy for autistic people. Cochrane Database of Systematic Reviews. 26 estudos, 1.165 participantes: provável aumento da chance de melhora global e redução da gravidade dos sintomas, com certeza moderada; sem diferença clara em interação social e comunicação.
  7. Bradt, J., Dileo, C. & Shim, M. (2013). Music interventions for preoperative anxiety. Cochrane Database of Systematic Reviews. Separa medicina musical (escuta de música gravada) de musicoterapia; 26 estudos de escuta mostraram redução da ansiedade antes de cirurgia, com alto risco de viés.
  8. Cuijpers, P., Noma, H., Karyotaki, E., Vinkers, C. H., Cipriani, A. & Furukawa, T. A. (2020). A network meta-analysis of the effects of psychotherapies, pharmacotherapies and their combination in the treatment of adult depression. World Psychiatry, 19(1), 92-107. 101 estudos e 11.910 pacientes com depressão: psicoterapia e remédio sem diferença de resposta entre si, e a combinação melhor que cada um sozinho.
  9. Linden, M. & Schermuly-Haupt, M.-L. (2014). Definition, assessment and rate of psychotherapy side effects. World Psychiatry, 13(3), 306-309. Mostra que a psicoterapia também tem efeitos indesejados, como piora de sintomas e dependência da terapeuta, que precisam ser acompanhados.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

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