Pular para o conteúdo
Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Arteterapia funciona? O que a pesquisa mostra e como ela se compara à psicoterapia

Arteterapia é o uso de pintura, desenho, modelagem, colagem e outros recursos expressivos como parte de um processo terapêutico, conduzido por arteterapeuta. Há ensaios clínicos: revisões encontram melhora de sintomas, sobretudo de depressão, em comparação com controles, mas com estudos pequenos, variados e de qualidade baixa, e um grande ensaio inglês com esquizofrenia não achou benefício. Está no SUS desde 2017 e ganhou lei própria em 2026. Costuma funcionar melhor como complemento do que como tratamento único.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026

Lado a lado

Arteterapia funciona? O que a pesquisa mostra e como ela se compara à psicoterapia: comparação lado a lado
CritérioArteterapiaPsicoterapia
Recurso principalArteterapia: Materiais e linguagens da arte: pintura, desenho, modelagem, colagem, tecelagem, expressão corporal, sons. O que você cria vira ponto de partida pra olhar o que sente.Psicoterapia: A conversa e a relação com a terapeuta. Você pode trazer um desenho, um sonho ou um texto, mas o centro do trabalho é a palavra.
Precisa saber fazer arte?Arteterapia: Não. O que conta é o processo de criar e o que ele desperta em você, e não o resultado estético.Psicoterapia: Não se aplica. Precisa só de disposição pra falar do que está vivendo, no seu ritmo.
Quando falar é difícilArteterapia: Foi pensada também pra isso: a revisão Cochrane conta que ela foi desenvolvida principalmente em internações psiquiátricas, pra pessoas com quem a terapia só pela fala seria impossível.Psicoterapia: Depende de conseguir colocar a experiência em palavras, mesmo que aos poucos. Pra quem trava na fala, o começo pode ser mais lento.
Quem conduzArteterapia: Arteterapeuta. A Lei nº 15.435, de 2026, reconheceu a profissão, mas os artigos que exigiam formação específica foram vetados. Pergunte onde a pessoa se formou.Psicoterapia: Psicóloga com graduação em Psicologia e registro no Conselho Regional de Psicologia, ou médico psiquiatra.
Pesquisa em depressãoArteterapia: Uma meta-análise de 2026, com 14 estudos, achou redução de sintomas depressivos em comparação com controles. Os próprios autores pedem cautela: os estudos variam muito e parte tem risco de viés.Psicoterapia: Uma meta-análise de 2020, com 101 estudos e quase 12 mil pessoas, achou resposta parecida entre psicoterapia e remédio, e melhor ainda com os dois juntos.
Pesquisa em quadros gravesArteterapia: Num ensaio inglês com 417 pessoas com esquizofrenia, a arteterapia em grupo não melhorou o funcionamento nem os sintomas em relação ao cuidado usual.Psicoterapia: Em quadros graves, o acompanhamento psiquiátrico vem primeiro, e a psicoterapia entra junto com ele, e não no lugar.
No SUSArteterapia: Faz parte das práticas integrativas e complementares desde a Portaria GM/MS nº 849, de 2017.Psicoterapia: Psicólogas atuam na rede pública, mas a oferta de psicoterapia varia de cidade pra cidade.
O que pode dar erradoArteterapia: Pacientes ouvidos numa revisão de 2015 citaram emoções mexidas que ficaram sem resolver, pouca habilidade da arteterapeuta e interrupção brusca do acompanhamento.Psicoterapia: Também tem efeitos indesejados, como piora passageira ou dependência da terapeuta. Falar do que incomoda na própria sessão faz parte do trabalho.

O que é arteterapia e como é uma sessão?

Na descrição do Ministério da Saúde, a arteterapia usa a arte como base do processo terapêutico, com técnicas expressivas como pintura, desenho, modelagem, colagem, tecelagem, expressão corporal, sons e música, em atendimento individual ou em grupo. O mesmo texto diz que o trabalho pode focar no próprio fazer, no processo criativo, ou na investigação do que a obra simboliza.

Na prática, a sessão costuma ter um momento de criar e um momento de olhar pro que foi criado. A arteterapeuta pode propor um material ou um tema, e depois conversar com você sobre o que apareceu: uma cor que se repetiu, uma figura que ficou de fora, o que você sentiu enquanto fazia. Não há nota nem certo e errado.

É diferente de uma aula de arte. O objetivo não é aprender técnica nem produzir algo bonito, e sim usar a criação como caminho pra perceber e elaborar o que você vive.

O que os estudos mostram sobre arteterapia?

Existe pesquisa, e ela é mista. Uma revisão de 2015, financiada pelo instituto nacional de pesquisa em saúde do Reino Unido, reuniu 15 ensaios clínicos com pessoas com depressão, ansiedade e outros quadros não psicóticos. Em 10 deles, a arteterapia teve resultado melhor que o grupo de comparação; não foi possível juntar os números numa meta-análise, e a qualidade dos estudos foi, em geral, baixa.

Uma meta-análise de 2026, com adultos com depressão, encontrou redução dos sintomas depressivos em relação aos controles. Na ansiedade, o efeito foi pequeno e não significativo, com só três estudos. Os autores chamam a arteterapia de promissora e pedem estudos maiores, com mais centros e acompanhamento mais longo.

Em esquizofrenia, o quadro é outro. A revisão Cochrane de 2005 encontrou só dois estudos e concluiu que benefícios e danos ainda eram incertos. Depois disso, um ensaio grande no Reino Unido, com 417 pessoas, comparou arteterapia em grupo semanal durante um ano, grupos de atividades sem arte e cuidado usual, e não encontrou diferença em funcionamento nem em sintomas.

Resumindo sem exagero: há sinais favoráveis, mais consistentes em depressão, vindos de estudos pequenos e heterogêneos. Não dá pra dizer que a arteterapia não funciona, e também não dá pra dizer que ela já tem o mesmo volume de evidência das psicoterapias mais estudadas.

Arteterapia é profissão regulamentada no Brasil?

Desde junho de 2026, existe uma lei própria. A Lei nº 15.435, de 17 de junho de 2026, define o arteterapeuta como o profissional que usa artes visuais, música, dança, canto, teatro e literatura pra favorecer o processo terapêutico, e lista o que compete a ele, como avaliar, planejar e executar o atendimento arteterapêutico e atuar em equipes de saúde.

O detalhe importante está nos vetos. Os artigos que diziam quem pode exercer a profissão (com diploma de graduação em arteterapia, pós-graduação ou quatro anos de prática), que tratavam como exercício ilegal o uso do título fora dessas regras e que previam um órgão fiscalizador foram vetados. A razão apresentada foi a de que as exigências restringiriam demais a liberdade profissional e reduziriam a oferta de profissionais nos serviços de saúde.

Na prática, a lei como ficou não diz qual formação é obrigatória. Por isso a pergunta sobre onde e por quanto tempo a pessoa se formou, e se tem supervisão, continua sendo sua.

Arteterapia ou psicoterapia: dá pra fazer as duas?

Dá, e muita gente faz. Elas não disputam o mesmo lugar: a arteterapia oferece um caminho pela criação, e a psicoterapia, pela conversa. Pra quem tem dificuldade de pôr o que sente em palavras, criar pode abrir uma porta que depois a conversa ajuda a atravessar.

O cuidado é que as duas profissionais saibam uma da outra, com a sua autorização, e que nenhuma delas substitua o acompanhamento médico quando ele é necessário. Se você toma remédio psiquiátrico, qualquer mudança é com o seu psiquiatra.

Como escolher uma arteterapeuta com segurança?

Os riscos que aparecem na pesquisa são concretos: emoções mexidas que ficam sem fechamento, pouca habilidade de quem conduz e interrupções bruscas. Algumas perguntas ajudam a evitá-los.

  • Onde você se formou, por quanto tempo, e tem supervisão?
  • Como você trabalha quando uma sessão mexe muito comigo?
  • Com que frequência vamos nos ver, e como a gente combina o fim do acompanhamento?
  • Você atende pessoas com o que eu estou vivendo, ou me indicaria outra profissional?
  • Se alguém prometer cura ou resultado garantido, desconfie. Nenhuma forma de cuidado séria promete isso.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Arteterapia
Costuma fazer mais sentido quando você sente que a palavra não dá conta, gosta de se expressar fazendo, ou quer um espaço de cuidado que envolva criação, sozinha ou em grupo. Também pode ser um bom complemento a uma psicoterapia ou a um tratamento psiquiátrico. Se o sofrimento é intenso, está atrapalhando a sua rotina há semanas ou envolve pensamentos de morte, a arteterapia não deve ser o único cuidado.
Psicoterapia
Faz mais sentido quando você quer entender e mudar algo que se repete na sua vida, atravessa um quadro de depressão ou ansiedade que pede tratamento, ou precisa de um espaço regular pra elaborar o que está vivendo. É onde há mais pesquisa acumulada para os quadros mais comuns. Se você sente que falar não basta e quer usar a criação, a arteterapia pode entrar junto.

Perguntas frequentes

Arteterapia ajuda na ansiedade?

A pesquisa ainda é fraca pra essa pergunta. Numa meta-análise de 2026 com adultos com depressão, o efeito da arteterapia sobre a ansiedade foi pequeno e não significativo, com só três estudos. Isso não quer dizer que ela não ajude ninguém, e sim que não há base suficiente pra indicá-la como tratamento principal de ansiedade.

Preciso saber desenhar pra fazer arteterapia?

Não. A arteterapia não avalia técnica nem beleza. O que interessa é o que acontece com você enquanto cria e o que você percebe depois, olhando pro que fez.

Arteterapia tem no SUS?

Sim. Ela entrou na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares pela Portaria GM/MS nº 849, de 27 de março de 2017, e está entre as 29 práticas listadas pelo Ministério da Saúde. A oferta depende do município, então vale perguntar na sua unidade básica de saúde.

Arteterapia é a mesma coisa que aula de arte?

Não. Numa aula, o objetivo é aprender técnica e produzir uma obra. Na arteterapia, o fazer é um meio de olhar pro que você sente, com uma profissional que acompanha esse processo. O grande ensaio inglês com esquizofrenia, aliás, comparou arteterapia com grupos de atividades sem arte, justamente pra separar uma coisa da outra.

Arteterapia pode fazer mal?

Pode, como qualquer cuidado que mexe com emoções. Numa revisão de 2015, pacientes contaram de emoções que foram ativadas e ficaram sem resolução, de arteterapeutas com pouca habilidade e de acompanhamentos interrompidos de repente. Uma profissional bem formada e um combinado claro sobre como lidar com isso reduzem esse risco.

Arteterapia substitui terapia ou remédio?

Não é o que a pesquisa sustenta. Os estudos testam a arteterapia, na maior parte, junto com o cuidado usual. Se você toma remédio psiquiátrico, não pare nem mude a dose por conta própria: essa decisão é com o seu psiquiatra.

De onde vem cada afirmação

  1. Brasil. Ministério da Saúde (2017). Portaria nº 849, de 27 de março de 2017: inclui a Arteterapia, Ayurveda, Biodança, Dança Circular, Meditação, Musicoterapia e outras práticas na PNPIC. Diário Oficial da União nº 60, 28/03/2017, Seção 1, p. 68. Inclui a arteterapia no SUS, descreve a prática e justifica a inclusão pela OMS, pelo reconhecimento das categorias profissionais e pela presença nos serviços, sem citar estudos de eficácia.
  2. Brasil. Ministério da Saúde (2026). Recursos terapêuticos: Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). gov.br/saude. Descrição oficial da arteterapia: técnicas expressivas, foco no processo criativo ou na simbologia, atendimento individual ou em grupo.
  3. Brasil. Presidência da República (2026). Lei nº 15.435, de 17 de junho de 2026: dispõe sobre o exercício da profissão de arteterapeuta. Diário Oficial da União, 18/06/2026. Define o arteterapeuta e as suas competências; os artigos 3º, 4º e 5º aparecem como vetados.
  4. Brasil. Presidência da República (2026). Mensagem nº 538, de 17 de junho de 2026 (veto parcial ao Projeto de Lei nº 4.815, de 2024). Diário Oficial da União, 18/06/2026. Mostra o texto vetado (formação exigida, exercício ilegal e órgão fiscalizador) e a razão do veto: restrição excessiva à liberdade profissional e à oferta nos serviços.
  5. Uttley, L., Scope, A., Stevenson, M., Rawdin, A., Taylor Buck, E., Sutton, A. et al. (2015). Systematic review and economic modelling of the clinical effectiveness and cost-effectiveness of art therapy among people with non-psychotic mental health disorders. Health Technology Assessment, 19(18), 1-120. 15 ensaios clínicos: resultado melhor que o controle em 10, qualidade geral baixa, sem meta-análise possível; a parte qualitativa lista benefícios e riscos relatados por pacientes.
  6. Qiao, L., Zhu, B., Liu, P. & Chen, X. (2026). The Effectiveness of Art Therapy on Adults With Depression: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Psychiatric and Mental Health Nursing, 33(3), 545-560. 14 estudos com adultos com depressão: redução de sintomas depressivos frente a controles, efeito não significativo na ansiedade, com heterogeneidade alta e estudos com risco de viés.
  7. Ruddy, R. & Milnes, D. (2005). Art therapy for schizophrenia or schizophrenia-like illnesses. Cochrane Database of Systematic Reviews. Revisão Cochrane com dois estudos: benefícios e danos incertos; descreve a origem da arteterapia em internações, pra quem a terapia só verbal seria impossível.
  8. Crawford, M. J., Killaspy, H., Barnes, T. R., Barrett, B., Byford, S., Clayton, K. et al. (2012). Group art therapy as an adjunctive treatment for people with schizophrenia: multicentre pragmatic randomised trial. BMJ, 344, e846. Ensaio com 417 pessoas com esquizofrenia: arteterapia em grupo por um ano não melhorou funcionamento nem sintomas em relação a grupos de atividades ou ao cuidado usual.
  9. Cuijpers, P., Noma, H., Karyotaki, E., Vinkers, C. H., Cipriani, A. & Furukawa, T. A. (2020). A network meta-analysis of the effects of psychotherapies, pharmacotherapies and their combination in the treatment of adult depression. World Psychiatry, 19(1), 92-107. 101 estudos e 11.910 pacientes com depressão: psicoterapia e remédio sem diferença de resposta entre si, e a combinação melhor que cada um sozinho.
  10. Linden, M. & Schermuly-Haupt, M.-L. (2014). Definition, assessment and rate of psychotherapy side effects. World Psychiatry, 13(3), 306-309. Mostra que a psicoterapia também tem efeitos indesejados, como piora de sintomas e dependência da terapeuta, e que eles precisam ser acompanhados.

Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

Se sentir que este espaço faz sentido pra você, podemos conversar com calma.

Atendimento online · sigilo profissional garantido conforme Código de Ética do Psicólogo · Resolução CFP nº 9/2024.

Quer começar pelo se escutar?

Questionários breves de autoconhecimento: três minutos, sem custo. Eu criei pra você começar a olhar pra si.

Fazer o teste

Conversemos com calma.

Sessões de 50 minutos, online: R$ 210 avulsa ou R$ 180 no pacote mensal. O primeiro encontro é pra gente se conhecer e ver se faz sentido seguir.

Ou faz o teste de quem mora fora primeiro

Você preenche seus dados e a gente combina o horário direto pelo WhatsApp.

Mora fora do Brasil? Encontre seu país na lista de atendimento ou conheça a terapia online para brasileiras no exterior.

Uso cookies pra saber quais páginas ajudam de verdade. Nada do que você escreve aqui é vendido ou compartilhado. Como funciona