Eneagrama funciona? O que a pesquisa diz sobre essa tipologia
O eneagrama é uma tipologia que divide a personalidade em nove tipos, organizada entre os anos 1950 e 1970 por Oscar Ichazo e pelo psiquiatra chileno Claudio Naranjo. Ele descreve padrões e não se propõe a tratar sofrimento. Uma revisão sistemática de 2021, com 104 amostras, achou evidência mista: as escalas conversam com os Cinco Grandes Fatores, mas a pesquisa não encontrou nove tipos bem separados e quase não testou as asas e os movimentos entre tipos. Os autores pedem cautela no uso clínico.
Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · revisado em setembro de 2026
Lado a lado
| Critério | Eneagrama | Cinco Grandes Fatores | Psicoterapia |
|---|---|---|---|
| Origem | Eneagrama: Raízes atribuídas a tradições antigas; levado ao Ocidente por George Gurdjieff e organizado como tipologia por Oscar Ichazo, nos anos 1950, e Claudio Naranjo, nos anos 1970. | Cinco Grandes Fatores: Pesquisas do século 20 sobre as palavras que as línguas usam pra descrever pessoas e sobre questionários de personalidade. | Psicoterapia: Várias abordagens criadas ao longo do século 20, como a psicanálise, a Abordagem Centrada na Pessoa e a terapia cognitivo-comportamental. |
| O que propõe | Eneagrama: Nove tipos, cada um com um foco de atenção e uma paixão central, além de asas e de movimentos para outros tipos em momentos de estresse e de segurança. | Cinco Grandes Fatores: Cinco dimensões contínuas: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência. | Psicoterapia: Cuidar do sofrimento psíquico em encontros regulares com uma profissional, a partir da história de cada pessoa. |
| Como se chega ao resultado | Eneagrama: Questionários como o RHETI e o WEPSS, livros e oficinas em que a pessoa se reconhece num dos tipos. | Cinco Grandes Fatores: Questionários respondidos pela própria pessoa ou por quem a conhece, que dão uma posição em cada dimensão. | Psicoterapia: Escuta e avaliação ao longo das sessões, sem depender de um tipo ou de uma pontuação. |
| O que a pesquisa apoia | Eneagrama: As escalas se relacionam de forma coerente com os Cinco Grandes Fatores, e alguns estudos relatam ganhos em autoconhecimento e crescimento pessoal. | Cinco Grandes Fatores: Os cinco fatores se repetem entre culturas e observadores, ficam mais estáveis com a idade e ajudaram a prever mortalidade, divórcio e carreira. | Psicoterapia: Numa meta-análise de 331 ensaios randomizados em depressão, as psicoterapias foram melhores do que cuidado usual e placebo. |
| Onde a pesquisa é fraca | Eneagrama: As análises estatísticas costumam achar menos de nove fatores, nenhum estudo derivou os nove tipos dos dados, e asas e movimentos quase não foram testados. | Cinco Grandes Fatores: Descreve tendências gerais e não foi feito pra tratar sofrimento. | Psicoterapia: As abordagens principais tiveram resultados parecidos entre si na depressão, então a escolha costuma depender de preferência e de acesso. |
| Onde a pesquisa sai | Eneagrama: Das 104 amostras revisadas em 2021, 49 foram publicadas; 11 dos 40 artigos revisados por pares saíram numa revista dedicada ao próprio eneagrama. | Cinco Grandes Fatores: Periódicos de psicologia de vários países, inclusive do Brasil, com instrumentos em português desde os anos 1990. | Psicoterapia: Ensaios randomizados publicados em periódicos científicos e reunidos em meta-análises. |
| Para que serve | Eneagrama: Autoconhecimento e crescimento pessoal ou espiritual, que é o propósito declarado pelos professores da tipologia. | Cinco Grandes Fatores: Descrever a personalidade de forma comparável, em pesquisa e em avaliação feita por profissional. | Psicoterapia: Tratar o que está atrapalhando a vida: ansiedade, tristeza que não passa, crises, conflitos que se repetem. |
| Quem responde pelo uso | Eneagrama: Não encontrei conselho profissional no Brasil que regule quem ensina ou aplica o eneagrama. | Cinco Grandes Fatores: Quando uma psicóloga usa um questionário desses em avaliação, ele precisa de parecer favorável no SATEPSI, do CFP. | Psicoterapia: Psicóloga com registro no Conselho Regional de Psicologia, sujeita ao Código de Ética e ao sigilo profissional. |
O que é o eneagrama?
O eneagrama é uma figura de nove pontas dentro de um círculo, usada para descrever nove tipos de personalidade. Segundo a revisão de Hook e colegas, publicada em 2021, alguns estudiosos atribuem a ele raízes antigas; o filósofo George Gurdjieff teria entrado em contato com o símbolo por volta de 1916, e nos anos 1950 Oscar Ichazo, fundador da escola Arica, no Chile, passou a usá-lo para descrever a personalidade. Entre 1969 e 1970, Ichazo ensinou o sistema ao psiquiatra chileno Claudio Naranjo, que passou anos traduzindo os tipos para a linguagem da psicologia ocidental.
Cada tipo teria um foco de atenção habitual e uma paixão, um jeito recorrente de lidar com a dor emocional. A teoria acrescenta as asas, os tipos vizinhos que influenciariam o seu, e os movimentos pelas linhas da figura, que mostrariam como a pessoa muda sob estresse e em segurança. Hoje o eneagrama circula em livros de desenvolvimento pessoal, espiritualidade, relacionamentos e trabalho.
Eneagrama é terapia?
O eneagrama é uma tipologia: ele descreve padrões de personalidade e propõe um caminho de autoconhecimento, sem se apresentar como tratamento de sofrimento psíquico. A revisão de 2021 conta que alguns terapeutas o usam dentro da clínica, por exemplo pra nomear temas de relacionamento ou fortalecer o vínculo, e os próprios autores veem espaço pra que ele um dia seja desenvolvido como ferramenta terapêutica. Isso ainda é proposta de pesquisa.
Os estudos de intervenção revisados mediram sobretudo crescimento pessoal, trabalho e bem-estar, com resultados mistos: houve melhora em algumas medidas, como autoconhecimento e versatilidade de liderança, e nenhuma mudança em outras, como estresse percebido e inteligência emocional. Os autores concluem que a teoria do eneagrama segue em grande parte sem teste e que clínicos devem proceder com cautela.
A pesquisa confirma os nove tipos do eneagrama?
Ainda não. A revisão reuniu 104 amostras independentes e encontrou evidência mista de fidedignidade e validade. As análises fatoriais, que procuram quantos agrupamentos os dados formam, costumam achar menos de nove, e nenhum estudo usou técnicas de agrupamento para chegar aos nove tipos a partir das respostas.
Há também dificuldade prática em encaixar as pessoas: num estudo citado pela revisão, menos da metade dos participantes teve um tipo claramente mais alto que o segundo colocado no questionário RHETI. E os aspectos secundários da teoria, as asas e os movimentos entre tipos, têm pouca pesquisa por trás.
Existe um lado favorável, e ele deve ser dito. As escalas do eneagrama se relacionam com os Cinco Grandes Fatores e com o MBTI do jeito que a teoria prevê, e há estudos em que as pessoas reconhecem como seu o tipo apontado pelo questionário.
Eneagrama ou Cinco Grandes Fatores: qual tem mais base científica?
O modelo dos Cinco Grandes Fatores, também chamado de Big Five, descreve a personalidade em cinco dimensões contínuas, em vez de tipos. Ele apareceu tanto em pesquisas com as palavras que usamos pra descrever pessoas quanto em questionários teóricos, e se repetiu entre culturas e observadores. Uma meta-análise de 152 estudos longitudinais mostrou que esses traços ficam mais estáveis com a idade, e uma revisão de 2007 mostrou que eles previram mortalidade, divórcio e carreira com força parecida à da renda da família e da capacidade cognitiva.
O eneagrama tem bem menos pesquisa. Um estudo de 2022 com 859 universitários peruanos o descreve como o sistema de personalidade menos pesquisado quando comparado ao Big Five. A revisão de 2021 também lembra que cerca de metade dos estudos não foi publicada e que, entre os não publicados, a maioria é dissertação de doutorado. Por isso, se a pergunta é qual retrato de personalidade tem mais base, a resposta hoje é o Big Five.
Psicólogo pode usar eneagrama?
Não encontrei documento do Conselho Federal de Psicologia específico sobre o eneagrama. O que vale pra qualquer técnica está no Código de Ética: a psicóloga deve usar princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica. Quando se trata de teste usado em avaliação psicológica, ele precisa de parecer favorável no SATEPSI, o sistema de avaliação de testes do CFP.
Na prática, isso significa que uma tipologia pode aparecer numa conversa, trazida por quem já se identifica com ela, mas não deveria virar base de diagnóstico, laudo ou decisão sobre a vida de alguém.
Quando cada um costuma fazer mais sentido
- Eneagrama
- Muita gente chega ao eneagrama num grupo de espiritualidade, num livro ou num curso de autoconhecimento, e encontra ali palavras pra padrões que já percebia. Se ele serve pra isso e você o usa com leveza, como uma hipótese sobre si, tudo bem. Ele não foi testado como tratamento, e um tipo não explica o que você está vivendo agora.
- Cinco Grandes Fatores
- É o modelo com mais base quando a ideia é descrever a personalidade de forma comparável e estável, como em pesquisa ou em avaliação feita por profissional com instrumento validado. Mesmo assim, ele descreve tendências, e não diz o que fazer com um sofrimento.
- Psicoterapia
- Faz mais sentido quando o que você sente está atrapalhando o sono, o trabalho ou as relações, ou quando um padrão se repete e você quer entender de onde ele vem. Na terapia, a sua história importa mais do que o tipo em que você se encaixa. Se um remédio parecer necessário, essa decisão é com médico psiquiatra.
Perguntas frequentes
Eneagrama tem base científica?
Tem pouca, e a que existe é mista. Uma revisão sistemática de 2021 com 104 amostras encontrou escalas que se relacionam com os Cinco Grandes Fatores, mas não confirmou os nove tipos: as análises costumam achar menos fatores, e asas e movimentos entre tipos quase não foram testados. Os autores recomendam cautela.
O eneagrama é reconhecido pelo Conselho Federal de Psicologia?
Não encontrei documento do CFP específico sobre o eneagrama. O Código de Ética pede técnicas reconhecidamente fundamentadas na ciência psicológica, e testes usados em avaliação psicológica precisam de parecer favorável no SATEPSI.
Teste de eneagrama da internet é confiável?
Os questionários mais estudados, como o RHETI, tiveram resultados mistos de fidedignidade e validade. Num estudo citado pela revisão de 2021, menos da metade das pessoas teve um tipo claramente destacado do segundo colocado. Vale ler o resultado como hipótese, e não como definição de quem você é.
Não me identifico com um tipo só. Isso é normal?
É comum. Num estudo citado pela revisão de 2021, muita gente não teve um tipo claramente destacado, e as análises estatísticas costumam achar menos de nove agrupamentos. Isso fala mais dos limites da tipologia do que de você.
Eneagrama ajuda no autoconhecimento?
Alguns estudos relatam ganhos em autoconhecimento, crescimento espiritual e relações, e esse é o propósito declarado da tipologia. Outros não acharam mudança em medidas como estresse e inteligência emocional. Se ele ajuda você a pensar sobre si, pode ser útil, desde que não vire rótulo.
Eneagrama substitui terapia?
Não. Ele descreve padrões e propõe um caminho de autoconhecimento, mas não foi testado como tratamento de ansiedade, depressão ou outro sofrimento. A psicoterapia tem ensaios randomizados mostrando benefício e é feita por profissional com registro, código de ética e sigilo.
Qual a diferença entre eneagrama e MBTI?
Os dois classificam pessoas em tipos: nove no eneagrama, dezesseis no MBTI. O eneagrama foca em motivações e na dor emocional por trás dos padrões, com proposta de crescimento pessoal ou espiritual; o MBTI descreve preferências. A revisão de 2021 encontrou relações entre as escalas dos dois. Escrevi uma página só sobre o MBTI.
De onde vem cada afirmação
- Hook, J. N., Hall, T. W., Davis, D. E., Van Tongeren, D. R. & Conner, M. (2021). The Enneagram: a systematic review of the literature and directions for future research. Journal of Clinical Psychology, 77(4), 865-883. Revisão de 104 amostras: evidência mista, relação com os Cinco Grandes Fatores, menos de nove fatores, pouco apoio a asas e movimentos, intervenções mistas e recomendação de cautela; também descreve a origem da tipologia.
- Ramos-Vera, C., Serpa Barrientos, A., Baños-Chaparro, J., Vallejos Saldarriaga, J. & Saintila, J. (2022). Enneagram typologies and healthy personality to psychosocial stress: a network approach. Frontiers in Psychology, 13, 1051271. Estudo transversal com 859 universitários peruanos que descreve o eneagrama como o sistema de personalidade menos pesquisado em comparação com o Big Five.
- McCrae, R. R. & John, O. P. (1992). An introduction to the five-factor model and its applications. Journal of Personality, 60(2), 175-215. Apresenta as cinco dimensões e o apoio a elas em pesquisas com adjetivos e questionários, entre observadores e culturas.
- Roberts, B. W. & DelVecchio, W. F. (2000). The rank-order consistency of personality traits from childhood to old age: a quantitative review of longitudinal studies. Psychological Bulletin, 126(1), 3-25. Meta-análise de 152 estudos longitudinais: a estabilidade dos traços de personalidade aumenta com a idade.
- Roberts, B. W., Kuncel, N. R., Shiner, R., Caspi, A. & Goldberg, L. R. (2007). The power of personality: the comparative validity of personality traits, socioeconomic status, and cognitive ability for predicting important life outcomes. Perspectives on Psychological Science, 2(4), 313-345. Em estudos prospectivos, traços de personalidade previram mortalidade, divórcio e carreira com força comparável à de renda e capacidade cognitiva.
- Hutz, C. S., Nunes, C. H., Silveira, A. D., Serra, J., Anton, M. & Wieczorek, L. S. (1998). O desenvolvimento de marcadores para a avaliação da personalidade no modelo dos cinco grandes fatores. Psicologia: Reflexão e Crítica, 11(2), 395-411. Pesquisa brasileira com 976 universitários que construiu marcadores em português e reproduziu os cinco fatores.
- Cuijpers, P., Quero, S., Noma, H., Ciharova, M., Miguel, C., Karyotaki, E., Cipriani, A., Cristea, I. A. & Furukawa, T. A. (2021). Psychotherapies for depression: a network meta-analysis covering efficacy, acceptability and long-term outcomes of all main treatment types. World Psychiatry, 20(2), 283-293. Meta-análise de 331 ensaios randomizados: as psicoterapias foram melhores do que cuidado usual e placebo, com resultados parecidos entre as abordagens principais.
- Conselho Federal de Psicologia (2005). Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 10/2005). Conselho Federal de Psicologia. Artigo 1º, alínea c: técnicas reconhecidamente fundamentadas na ciência psicológica; artigo 9º: dever de sigilo profissional.
- Conselho Federal de Psicologia (2026). SATEPSI: perguntas frequentes. Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (página consultada em 23/09/2026). Com base na Resolução CFP nº 31/2022, informa que só testes com parecer favorável podem ser usados por psicólogas fora de pesquisa.
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Conteúdo informativo, não substitui avaliação individual · Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica, CRP 01/30999.

Fernanda, em Brasília
Fernanda Pessoa Ferro
Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.
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