Tricotilomania e dermatilomania: arrancar cabelo e cutucar a pele
Tricotilomania é arrancar o próprio cabelo; dermatilomania é cutucar a pele. Entenda esses comportamentos repetitivos focados no corpo e o que ajuda, sem culpa.
Tricotilomania é arrancar o próprio cabelo, sobrancelha, cílios ou outros pelos de forma repetida, a ponto de causar falhas, mesmo tentando parar. Dermatilomania é cutucar, apertar ou arrancar pedacinhos da própria pele, também de forma repetida e difícil de controlar. As duas fazem parte de um grupo chamado comportamentos repetitivos focados no corpo. Não são falta de força de vontade, e existem formas de tratamento com boa evidência, como a terapia de reversão de hábito.
Se você esconde a sobrancelha com maquiagem, usa boné o tempo todo ou evita mostrar as mãos e os braços, quero que você saiba que muita gente vive isso em silêncio. E que esse silêncio costuma pesar mais do que o comportamento em si.
O que são comportamentos repetitivos focados no corpo
É o nome dado a hábitos repetitivos dirigidos ao próprio corpo que a pessoa tem dificuldade de interromper e que acabam causando algum dano. Os mais conhecidos são arrancar cabelo e cutucar a pele. Roer unhas até machucar e morder a parte de dentro da bochecha também entram na conversa.
Na CID-11, esse grupo tem um código próprio, 6B25, dentro do capítulo do TOC e transtornos relacionados. A tricotilomania é o 6B25.0 e a dermatilomania (transtorno de escoriação) é o 6B25.1. O DSM-5-TR (APA, 2022) também coloca as duas no mesmo capítulo do TOC.
Parentes do TOC, mas não iguais. No TOC, o ritual costuma vir pra aliviar uma obsessão, um pensamento que assusta. Aqui, muitas vezes não há pensamento nenhum por trás. Há uma tensão, um tédio, uma sensação na pele, e a mão vai. Se quiser entender o TOC, escrevi sobre o que é TOC. Outro parente do TOC no mesmo capítulo da CID-11 é a hipocondria.
Tricotilomania: o que é e como aparece
A tricotilomania pode envolver cabelo, sobrancelhas, cílios, barba ou pelos do corpo. Algumas formas comuns de aparecer:
- Automática. Você está lendo, vendo série, dirigindo, estudando, e só percebe quando já tem fios no colo.
- Focada. Você procura um fio "diferente", mais grosso, enrolado, que parece fora do lugar, e sente que precisa tirar.
- Rituais com o fio. Olhar a raiz, passar nos lábios, enrolar nos dedos, morder. Algumas pessoas engolem o cabelo. Se isso acontece com você, conte para o seu médico, porque o cabelo engolido pode se acumular no estômago.
Explicando com as minhas palavras, o que os manuais descrevem é: arrancar os pelos de forma repetida, a ponto de haver perda visível; tentar diminuir ou parar, várias vezes, sem conseguir; isso trazer sofrimento ou atrapalhar a vida; e não ser explicado por outra condição, como um problema de pele ou outro quadro psicológico. Na CID-10, a tricotilomania aparece com o código F63.3.
Dermatilomania: cutucar a pele e não conseguir parar
Na dermatilomania, o foco é a pele. Espinhas, casquinhas, cutículas, pelinhos encravados, "imperfeições" que às vezes só você vê. Você aperta, cutuca, arranca, e muitas vezes fica com feridas, manchas ou cicatrizes.
Os critérios seguem a mesma lógica: cutucar a pele de forma repetida a ponto de machucar, tentar parar sem conseguir, ter sofrimento ou prejuízo, e não ser efeito de uma substância, de uma doença de pele ou de outro quadro.
Um cuidado prático: se uma ferida inflama, dói, esquenta ou demora a cicatrizar, procure um dermatologista. Cuidar da pele também faz parte do tratamento.
Por que eu arranco o cabelo quando estou ansiosa?
Ansiedade é um gatilho muito comum, mas não o único. O comportamento costuma aparecer em momentos de:
- tensão ou estresse, como um jeito de descarregar;
- tédio ou pouca estimulação, como quando você está parada em frente a uma tela;
- cansaço, no fim do dia, na cama;
- sensações no corpo, como coceira, um fio áspero, uma pele irregular;
- emoções difíceis, como frustração, vergonha ou tristeza.
E tem algo importante: durante o comportamento, muitas vezes vem um alívio ou até uma certa satisfação. Depois vem a culpa, a vergonha, a tentativa de esconder. Esse alívio é real, e é parte do que mantém o ciclo. Não tem a ver com você ser fraca.
Tricotilomania tem tratamento? O que ajuda
Tem. O tratamento com mais evidência é psicológico, e ele é bem prático.
Terapia de reversão de hábito (HRT). Desenvolvida nos anos 1970 (Azrin & Nunn, 1973), ela tem algumas partes principais:
- Perceber. Aprender a notar quando, onde e como o comportamento acontece. Muitas vezes a mão já está no cabelo antes de você perceber.
- Resposta concorrente. Fazer, por um ou dois minutos, algo com as mãos que seja incompatível com arrancar ou cutucar: fechar as mãos, segurar um objeto, apertar uma bolinha.
- Apoio. Ter alguém, ou um sistema, que ajude a manter o treino nos dias difíceis.
Modelo ComB. O modelo comportamental abrangente, conhecido como ComB (Mansueto et al., 1997), olha para tudo que alimenta o comportamento: o que você sente, o que pensa, o que acontece no corpo, os movimentos e o lugar. A partir disso, monta estratégias pra cada ponto. Alguns exemplos que costumam aparecer:
- usar luvas finas, curativo nos dedos ou unhas curtas;
- prender o cabelo ou usar touca em casa;
- diminuir a luz do banheiro ou cobrir o espelho de aumento;
- deixar algo pra mexer nas mãos perto do sofá, da mesa, da cama;
- prestar atenção nos lugares e horários de maior risco.
Acompanhamento médico. O psiquiatra pode avaliar se faz sentido alguma medicação, principalmente quando há ansiedade, depressão ou TOC junto. O dermatologista cuida das feridas e da pele.
O objetivo não é "nunca mais encostar no cabelo". É diminuir a frequência, o dano e, principalmente, a vergonha. Recaídas fazem parte do caminho e não apagam o que você já conquistou.
Sem vergonha: o que eu quero que você saiba
Muita gente passa anos sem contar pra ninguém, nem pro parceiro, nem pro médico. Esconde com maquiagem, cabelo, mangas compridas. E se cobra muito: "é só parar", "que falta de controle".
Na terapia, comigo, a gente não começa pela bronca. Começa por entender quando isso aparece, o que acontece antes e o que acontece depois, e quanto peso você tem carregado sozinha. Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, e acredito que é muito mais fácil mudar um hábito quando você para de brigar consigo mesma.
Se a ansiedade estiver muito presente no seu dia, o teste de ansiedade GAD-7 pode te ajudar a olhar pra ela com mais clareza. Não é diagnóstico, nem mede tricotilomania ou dermatilomania. É um jeito de entender um dos gatilhos.
Perguntas frequentes
Tricotilomania é um tipo de TOC?
Não exatamente. Ela fica no mesmo capítulo do TOC nos manuais, porque as duas têm comportamentos repetitivos difíceis de controlar. Mas, na tricotilomania, o comportamento muitas vezes não vem pra aliviar uma obsessão, e sim tensão, tédio ou uma sensação no corpo.
Dermatilomania tem cura?
Ela pode melhorar bastante com tratamento. A terapia de reversão de hábito e o modelo ComB ajudam muita gente a diminuir o comportamento e o dano na pele. É comum ter fases melhores e piores, principalmente em períodos de estresse.
O cabelo volta a crescer depois da tricotilomania?
Na maioria das vezes, sim, quando o arrancar diminui. Em quem arranca no mesmo lugar por muitos anos, o fio pode voltar mais fino ou mais devagar. Um dermatologista consegue avaliar o seu caso.
Roer unha é comportamento repetitivo focado no corpo?
Pode ser, quando é frequente, difícil de parar e chega a machucar os dedos. Roer a unha de vez em quando, sem dano e sem sofrimento, é um hábito comum.
Criança pode ter tricotilomania?
Pode, e é comum começar na infância ou na adolescência. Em crianças pequenas, às vezes passa sozinho. Se continua, machuca ou traz sofrimento, vale procurar avaliação, sem broncas nem castigos, que costumam piorar a vergonha.
Se estiver pesado demais
Se a vergonha ou a tristeza estiverem tão grandes que vêm pensamentos de se machucar ou de sumir, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR).
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Códigos 6B25.0 e 6B25.1.
- Azrin, N. H., & Nunn, R. G. (1973). Habit-reversal: a method of eliminating nervous habits and tics. Behaviour Research and Therapy, 11(4), 619-628.
- Mansueto, C. S., Stemberger, R. M. T., Thomas, A. M., & Golomb, R. G. (1997). Trichotillomania: a comprehensive behavioral model. Clinical Psychology Review, 17(5), 567-577.
O que você faz com as mãos não diz quem você é. Diz que algo em você está pedindo cuidado.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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