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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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TOCTema: TOC06 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Tricotilomania e dermatilomania: arrancar cabelo e cutucar a pele

Tricotilomania é arrancar o próprio cabelo; dermatilomania é cutucar a pele. Entenda esses comportamentos repetitivos focados no corpo e o que ajuda, sem culpa.


Tricotilomania é arrancar o próprio cabelo, sobrancelha, cílios ou outros pelos de forma repetida, a ponto de causar falhas, mesmo tentando parar. Dermatilomania é cutucar, apertar ou arrancar pedacinhos da própria pele, também de forma repetida e difícil de controlar. As duas fazem parte de um grupo chamado comportamentos repetitivos focados no corpo. Não são falta de força de vontade, e existem formas de tratamento com boa evidência, como a terapia de reversão de hábito.

Se você esconde a sobrancelha com maquiagem, usa boné o tempo todo ou evita mostrar as mãos e os braços, quero que você saiba que muita gente vive isso em silêncio. E que esse silêncio costuma pesar mais do que o comportamento em si.

O que são comportamentos repetitivos focados no corpo

É o nome dado a hábitos repetitivos dirigidos ao próprio corpo que a pessoa tem dificuldade de interromper e que acabam causando algum dano. Os mais conhecidos são arrancar cabelo e cutucar a pele. Roer unhas até machucar e morder a parte de dentro da bochecha também entram na conversa.

Na CID-11, esse grupo tem um código próprio, 6B25, dentro do capítulo do TOC e transtornos relacionados. A tricotilomania é o 6B25.0 e a dermatilomania (transtorno de escoriação) é o 6B25.1. O DSM-5-TR (APA, 2022) também coloca as duas no mesmo capítulo do TOC.

Parentes do TOC, mas não iguais. No TOC, o ritual costuma vir pra aliviar uma obsessão, um pensamento que assusta. Aqui, muitas vezes não há pensamento nenhum por trás. Há uma tensão, um tédio, uma sensação na pele, e a mão vai. Se quiser entender o TOC, escrevi sobre o que é TOC. Outro parente do TOC no mesmo capítulo da CID-11 é a hipocondria.

Tricotilomania: o que é e como aparece

A tricotilomania pode envolver cabelo, sobrancelhas, cílios, barba ou pelos do corpo. Algumas formas comuns de aparecer:

  • Automática. Você está lendo, vendo série, dirigindo, estudando, e só percebe quando já tem fios no colo.
  • Focada. Você procura um fio "diferente", mais grosso, enrolado, que parece fora do lugar, e sente que precisa tirar.
  • Rituais com o fio. Olhar a raiz, passar nos lábios, enrolar nos dedos, morder. Algumas pessoas engolem o cabelo. Se isso acontece com você, conte para o seu médico, porque o cabelo engolido pode se acumular no estômago.

Explicando com as minhas palavras, o que os manuais descrevem é: arrancar os pelos de forma repetida, a ponto de haver perda visível; tentar diminuir ou parar, várias vezes, sem conseguir; isso trazer sofrimento ou atrapalhar a vida; e não ser explicado por outra condição, como um problema de pele ou outro quadro psicológico. Na CID-10, a tricotilomania aparece com o código F63.3.

Dermatilomania: cutucar a pele e não conseguir parar

Na dermatilomania, o foco é a pele. Espinhas, casquinhas, cutículas, pelinhos encravados, "imperfeições" que às vezes só você vê. Você aperta, cutuca, arranca, e muitas vezes fica com feridas, manchas ou cicatrizes.

Os critérios seguem a mesma lógica: cutucar a pele de forma repetida a ponto de machucar, tentar parar sem conseguir, ter sofrimento ou prejuízo, e não ser efeito de uma substância, de uma doença de pele ou de outro quadro.

Um cuidado prático: se uma ferida inflama, dói, esquenta ou demora a cicatrizar, procure um dermatologista. Cuidar da pele também faz parte do tratamento.

Por que eu arranco o cabelo quando estou ansiosa?

Ansiedade é um gatilho muito comum, mas não o único. O comportamento costuma aparecer em momentos de:

  • tensão ou estresse, como um jeito de descarregar;
  • tédio ou pouca estimulação, como quando você está parada em frente a uma tela;
  • cansaço, no fim do dia, na cama;
  • sensações no corpo, como coceira, um fio áspero, uma pele irregular;
  • emoções difíceis, como frustração, vergonha ou tristeza.

E tem algo importante: durante o comportamento, muitas vezes vem um alívio ou até uma certa satisfação. Depois vem a culpa, a vergonha, a tentativa de esconder. Esse alívio é real, e é parte do que mantém o ciclo. Não tem a ver com você ser fraca.

Tricotilomania tem tratamento? O que ajuda

Tem. O tratamento com mais evidência é psicológico, e ele é bem prático.

Terapia de reversão de hábito (HRT). Desenvolvida nos anos 1970 (Azrin & Nunn, 1973), ela tem algumas partes principais:

  • Perceber. Aprender a notar quando, onde e como o comportamento acontece. Muitas vezes a mão já está no cabelo antes de você perceber.
  • Resposta concorrente. Fazer, por um ou dois minutos, algo com as mãos que seja incompatível com arrancar ou cutucar: fechar as mãos, segurar um objeto, apertar uma bolinha.
  • Apoio. Ter alguém, ou um sistema, que ajude a manter o treino nos dias difíceis.

Modelo ComB. O modelo comportamental abrangente, conhecido como ComB (Mansueto et al., 1997), olha para tudo que alimenta o comportamento: o que você sente, o que pensa, o que acontece no corpo, os movimentos e o lugar. A partir disso, monta estratégias pra cada ponto. Alguns exemplos que costumam aparecer:

  • usar luvas finas, curativo nos dedos ou unhas curtas;
  • prender o cabelo ou usar touca em casa;
  • diminuir a luz do banheiro ou cobrir o espelho de aumento;
  • deixar algo pra mexer nas mãos perto do sofá, da mesa, da cama;
  • prestar atenção nos lugares e horários de maior risco.

Acompanhamento médico. O psiquiatra pode avaliar se faz sentido alguma medicação, principalmente quando há ansiedade, depressão ou TOC junto. O dermatologista cuida das feridas e da pele.

O objetivo não é "nunca mais encostar no cabelo". É diminuir a frequência, o dano e, principalmente, a vergonha. Recaídas fazem parte do caminho e não apagam o que você já conquistou.

Sem vergonha: o que eu quero que você saiba

Muita gente passa anos sem contar pra ninguém, nem pro parceiro, nem pro médico. Esconde com maquiagem, cabelo, mangas compridas. E se cobra muito: "é só parar", "que falta de controle".

Na terapia, comigo, a gente não começa pela bronca. Começa por entender quando isso aparece, o que acontece antes e o que acontece depois, e quanto peso você tem carregado sozinha. Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, e acredito que é muito mais fácil mudar um hábito quando você para de brigar consigo mesma.

Se a ansiedade estiver muito presente no seu dia, o teste de ansiedade GAD-7 pode te ajudar a olhar pra ela com mais clareza. Não é diagnóstico, nem mede tricotilomania ou dermatilomania. É um jeito de entender um dos gatilhos.

Perguntas frequentes

Tricotilomania é um tipo de TOC?

Não exatamente. Ela fica no mesmo capítulo do TOC nos manuais, porque as duas têm comportamentos repetitivos difíceis de controlar. Mas, na tricotilomania, o comportamento muitas vezes não vem pra aliviar uma obsessão, e sim tensão, tédio ou uma sensação no corpo.

Dermatilomania tem cura?

Ela pode melhorar bastante com tratamento. A terapia de reversão de hábito e o modelo ComB ajudam muita gente a diminuir o comportamento e o dano na pele. É comum ter fases melhores e piores, principalmente em períodos de estresse.

O cabelo volta a crescer depois da tricotilomania?

Na maioria das vezes, sim, quando o arrancar diminui. Em quem arranca no mesmo lugar por muitos anos, o fio pode voltar mais fino ou mais devagar. Um dermatologista consegue avaliar o seu caso.

Roer unha é comportamento repetitivo focado no corpo?

Pode ser, quando é frequente, difícil de parar e chega a machucar os dedos. Roer a unha de vez em quando, sem dano e sem sofrimento, é um hábito comum.

Criança pode ter tricotilomania?

Pode, e é comum começar na infância ou na adolescência. Em crianças pequenas, às vezes passa sozinho. Se continua, machuca ou traz sofrimento, vale procurar avaliação, sem broncas nem castigos, que costumam piorar a vergonha.

Se estiver pesado demais

Se a vergonha ou a tristeza estiverem tão grandes que vêm pensamentos de se machucar ou de sumir, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR).
  • Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Códigos 6B25.0 e 6B25.1.
  • Azrin, N. H., & Nunn, R. G. (1973). Habit-reversal: a method of eliminating nervous habits and tics. Behaviour Research and Therapy, 11(4), 619-628.
  • Mansueto, C. S., Stemberger, R. M. T., Thomas, A. M., & Golomb, R. G. (1997). Trichotillomania: a comprehensive behavioral model. Clinical Psychology Review, 17(5), 567-577.

O que você faz com as mãos não diz quem você é. Diz que algo em você está pedindo cuidado.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

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Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

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Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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