Despersonalização e desrealização: quando tudo parece irreal
Despersonalização e desrealização são formas de dissociação: sentir-se fora de si ou ver o mundo como um sonho. Entenda quando é sintoma e o que ajuda.
Despersonalização é a sensação de estar fora de si: você se vê de longe, como se assistisse a um filme da própria vida. Desrealização é a sensação de que o mundo em volta ficou estranho, plano, com cara de sonho ou de cenário. As duas são formas de dissociação. Assustam muito, mas você continua sabendo que é só uma sensação. Quase sempre aparecem como reação a ansiedade forte, estresse ou trauma, e só às vezes formam um transtorno próprio.
Se você chegou aqui depois de uma crise em que achou que estava enlouquecendo, respira. Isso tem nome, é mais comum do que parece e tem cuidado possível.
O que é dissociação, em palavras simples
Dissociação é quando partes da experiência que normalmente andam juntas se descolam um pouco. O que você sente, o que você pensa, o seu corpo e o mundo lá fora continuam ali, mas parecem não encaixar.
Todo mundo dissocia um pouco de vez em quando. Dirigir até o trabalho e não lembrar do caminho. Ficar "no automático" depois de uma notícia ruim. Sentir que o dia não foi real depois de uma noite sem dormir. Isso é a mente economizando energia ou se protegendo.
Despersonalização e desrealização são duas formas específicas e mais intensas disso.
Como é a sensação de despersonalização
Quem vive despersonalização costuma descrever coisas assim:
- "Parece que eu estou me vendo de fora, de cima, de longe."
- "Minha voz soa estranha, como se fosse de outra pessoa."
- "Olho as minhas mãos e parece que não são minhas."
- "Eu sei que estou triste, mas não sinto. É como se a emoção estivesse anestesiada."
- "Faço as coisas como um robô, sem estar ali de verdade."
Uma parte importante: você sabe que é você. Você não acredita de fato que saiu do corpo. É justamente por perceber a estranheza que ela assusta tanto.
Como é a sensação de desrealização
Na desrealização, o estranho é o mundo em volta:
- as coisas parecem achatadas, sem profundidade, como uma foto;
- as cores ficam desbotadas ou fortes demais;
- tudo parece atrás de um vidro, de uma névoa;
- pessoas conhecidas parecem estranhas, quase atores;
- o tempo parece andar diferente, rápido demais ou parado.
As duas sensações podem vir juntas ou separadas. E podem durar minutos, horas, ou se estender por semanas.
Despersonalização é sintoma de ansiedade?
Muitas vezes, sim. Numa crise de ansiedade ou de pânico, o corpo entra em alarme máximo. Para algumas pessoas, junto com o coração disparado e a falta de ar, vem essa sensação de irrealidade. É como se o cérebro puxasse o freio de mão: "isso é demais, vou desligar um pouco".
Ela também aparece com frequência:
- depois de um trauma, como um jeito de não sentir tudo de uma vez. Escrevi sobre isso em o que é estresse pós-traumático e em flashback: o que fazer;
- em períodos de estresse muito longo ou de exaustão;
- com privação de sono;
- na depressão, quando a vida parece sem cor e sem presença;
- com o uso de algumas substâncias, como maconha, e às vezes depois de parar.
Um detalhe que pesa muito: o medo da sensação costuma alimentar a sensação. Você sente a irrealidade, se assusta ("estou enlouquecendo?"), a ansiedade sobe, e a irrealidade aumenta. Entender o que está acontecendo já ajuda a quebrar um pouco esse círculo.
Quando vira transtorno de despersonalização-desrealização
Existe um diagnóstico próprio para quando essas sensações deixam de ser episódios ligados a outra coisa e passam a ocupar a vida. Na CID-11, ele se chama transtorno de despersonalização-desrealização (código 6B66). Na CID-10, que ainda aparece em muitos documentos no Brasil, o código é F48.1. O DSM-5-TR (APA, 2022) também descreve o quadro dentro dos transtornos dissociativos.
Explicando com as minhas palavras, os manuais olham para algumas coisas:
- as experiências se repetem ou não vão embora, seja de estar fora de si, seja de o mundo parecer irreal, ou as duas;
- durante essas experiências, você mantém o contato com a realidade. Sabe que é uma sensação, e não que o mundo virou um cenário de verdade;
- isso traz sofrimento importante ou atrapalha o trabalho, as relações, o dia a dia;
- não é melhor explicado por outra coisa, como o efeito de uma substância, uma condição médica (algumas condições neurológicas podem dar sensações parecidas) ou outro quadro, como o pânico, a depressão ou o estresse pós-traumático.
Esse último ponto importa muito. Na maioria das vezes, a despersonalização faz parte de outro quadro, e cuidar dele costuma aliviar a sensação também. Quem separa uma coisa da outra é um profissional, numa avaliação com calma. Por isso vale também uma consulta médica, pra descartar causas no corpo.
Despersonalização é perigosa? Estou ficando louca?
Esse é o medo mais comum que eu escuto. A sensação é horrível, mas ela não costuma ser o começo de uma perda de contato com a realidade. Na despersonalização, a pessoa sabe que a sensação é estranha. É essa consciência que a diferencia de quadros em que a pessoa passa a acreditar em coisas que não estão acontecendo.
Isso não quer dizer que seja "bobagem". Viver semanas sentindo que a própria vida não é real cansa, isola e pode trazer muita tristeza. Merece cuidado sério.
Técnicas de grounding para despersonalização
Grounding quer dizer algo como "aterrar": trazer a atenção de volta para o corpo e para o ambiente, aqui e agora. Não faz a sensação sumir na hora, mas costuma diminuir a intensidade e o medo. Algumas que eu gosto:
5-4-3-2-1. Diga em voz baixa 5 coisas que você vê, 4 que você pode tocar, 3 que você ouve, 2 cheiros que você sente e 1 gosto na boca. Devagar, descrevendo os detalhes.
Temperatura. Segure algo gelado, lave o rosto com água fria, segure uma caneca quente. Sensação forte e concreta ajuda o corpo a voltar.
Pés no chão. Sente, apoie os dois pés no chão e repare no peso do corpo na cadeira. Aperte e solte as mãos algumas vezes.
Nomear o que está acontecendo. "Isso é despersonalização. É desconfortável, mas não é perigoso. Vai passar." Parece simples, mas tira um pouco do combustível do medo.
Respirar mais devagar, sem forçar. Soltar o ar por mais tempo do que puxa ajuda o corpo a sair do modo alarme.
O que costuma piorar: ficar testando a sensação o tempo todo ("ainda estou sentindo?"), se olhar no espelho por muito tempo, pesquisar sem parar na internet, ficar sem dormir.
Despersonalização tem tratamento?
Tem. O caminho depende do que está por trás:
- Quando faz parte da ansiedade, do pânico ou do trauma, tratar esse quadro costuma ser o principal. Psicoterapia e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico.
- No transtorno de despersonalização-desrealização, a psicoterapia é o centro do cuidado. A terapia cognitivo-comportamental tem estudos específicos para o quadro (Hunter et al., 2005), trabalhando principalmente o medo da sensação e os hábitos de checagem e evitação. Não existe, até hoje, um remédio aprovado especificamente para esse transtorno. O psiquiatra avalia caso a caso, principalmente quando há ansiedade ou depressão junto.
Na terapia, comigo, a gente olha para o que essa desconexão pode estar protegendo. Muitas vezes ela começou num momento em que sentir tudo seria demais. Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, e ofereço um espaço em que você pode contar essa sensação estranha sem medo de ser julgada, no seu ritmo.
Um teste pra organizar o que você sente
Se a despersonalização apareceu depois de algo muito difícil, o teste de estresse pós-traumático pode te ajudar a olhar para outros sinais que andam junto. Ele é baseado na PCL-5 e leva poucos minutos. Não é diagnóstico. É um ponto de partida pra decidir se vale buscar uma avaliação.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre despersonalização e desrealização?
Na despersonalização, o estranho é você: o corpo, a voz, as emoções parecem distantes, como se você se visse de fora. Na desrealização, o estranho é o mundo: as coisas parecem planas, irreais, como um sonho. As duas são formas de dissociação e podem aparecer juntas.
Despersonalização passa sozinha?
Episódios ligados a uma crise de ansiedade, a uma noite sem dormir ou a um susto costumam passar em minutos ou horas. Quando as sensações voltam muito ou ficam por semanas, vale procurar avaliação, porque costuma haver algo por trás que merece cuidado.
Dissociação é sinal de trauma?
Pode ser, mas nem sempre. A dissociação aparece em quem viveu trauma, e também na ansiedade intensa, no estresse longo, na privação de sono e com algumas substâncias. Ter dissociado não significa que você viveu algo traumático.
Quem trata despersonalização, psicólogo ou psiquiatra?
Os dois podem ajudar, e muitas vezes juntos. A psicoterapia é o centro do cuidado. O psiquiatra avalia se há ansiedade, depressão ou outra condição que precise de medicação. Uma consulta médica também ajuda a descartar causas no corpo.
Grounding funciona mesmo?
Grounding não é cura, mas ajuda a atravessar o momento. Trazer a atenção para os sentidos e para o corpo costuma baixar a intensidade da sensação e, principalmente, o medo dela.
Se estiver pesado demais
Se essa sensação vier junto com pensamentos de se machucar ou de sumir, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR).
- Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Código 6B66.
- Hunter, E. C. M., Baker, D., Phillips, M. L., Sierra, M., & David, A. S. (2005). Cognitive-behaviour therapy for depersonalisation disorder: an open study. Behaviour Research and Therapy, 43(9), 1121-1130.
Sentir que a vida está acontecendo do outro lado de um vidro é solitário. Você não precisa ficar desse lado sozinha.
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Se você se reconheceu nesse texto, o teste de estresse pós-traumático pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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