Saudade de casa: como lidar com a saudade quando ela aperta
Por que a saudade de casa aperta mais em certos dias, o que fazer na hora, como lidar com ela no dia a dia morando fora e quando ela pede mais cuidado.
Saudade de casa é a dor de estar longe do lugar e das pessoas que faziam você se sentir em casa. Ela vem em ondas, costuma apertar em domingos, datas e dias de cansaço, e na maioria das vezes não quer dizer que tem algo errado com você. Pra lidar com ela, costuma ajudar mais dar lugar à saudade do que brigar com ela: nomear do que exatamente você sente falta, manter o contato com quem ficou num ritmo que caiba na sua semana e, ao mesmo tempo, ir criando raízes onde você mora agora.
Eu atendo brasileiras que moram fora, algumas há um ano, outras há vinte. A saudade aparece em quase todas as histórias. Muda de cara, mas aparece.
O que é saudade de casa
Na pesquisa, o nome é homesickness. Uma revisão de Margaret Stroebe e colegas, de 2015, reuniu 55 estudos sobre o tema e descreve a saudade de casa como o sofrimento ligado à separação de casa, real ou antecipada, com um pensamento que insiste em voltar pra casa e pras pessoas de lá. Ela é comum em qualquer mudança, de estudante que sai da cidade dos pais a quem atravessa um oceano.
O mesmo grupo propôs, em 2016, olhar pra saudade de casa como uma espécie de pequeno luto. Faz sentido. Ninguém morreu, e mesmo assim você perdeu coisas de verdade: o almoço de domingo, a amiga que aparecia sem avisar, a padaria da esquina, a língua em que você não precisa pensar antes de falar. A psicóloga Pauline Boss chama esse tipo de perda, que não tem ritual nem ponto final, de perda ambígua. Escrevi mais sobre isso em quando a saudade vira outra coisa.
Saudade não é só de pessoas. Muitas vezes é de uma versão sua: a que era conhecida, que sabia se virar, que ria das piadas sem esforço.
Por que a saudade aperta mais em alguns dias
A saudade raramente é constante. Ela tem gatilhos, e conhecer os seus ajuda a não ser pega de surpresa.
- Domingo. O dia em que a casa cheia faz mais falta. Tem um texto só sobre isso: domingo morando fora.
- Datas. Aniversário da mãe, Natal, festa junina, o dia em que nasce o sobrinho e você vê pela tela.
- Quando alguém lá adoece. A distância vira impotência. Falo disso em quando o telefone toca de madrugada.
- Cansaço e inverno. Dias curtos, frio, burocracia, uma semana inteira falando outra língua. O corpo cansado sente mais falta de colo.
- Conquista sem testemunha. Você foi promovida, passou na prova, terminou o curso, e não tem ninguém da sua história ali pra comemorar.
- Quando o país novo te trata como estrangeira. Um comentário atravessado, uma porta fechada. A saudade de casa, aí, vem misturada com a vontade de estar onde ninguém te olha torto. Escrevi sobre isso em xenofobia contra brasileiros.
O que fazer quando a saudade aperta
Na hora em que ela bate forte, não precisa resolver nada. Precisa atravessar o momento. Algumas coisas costumam ajudar:
- Deixe vir. Chorar de saudade não é fraqueza nem ingratidão. Brigar com a saudade ("eu escolhi isso, não tenho direito de reclamar") costuma deixar ela mais pesada.
- Nomeie do que é a falta. É da sua mãe? Da comida? De ser entendida sem explicar? Saudade sem nome vira um aperto difuso. Com nome, dá pra fazer alguma coisa com ela.
- Faça uma coisa pequena com o corpo. Um banho quente, uma caminhada curta, uma comida que lembra casa. O corpo acalma antes da cabeça.
- Mande uma mensagem sem esperar a conversa perfeita. Um áudio de um minuto pra uma amiga, uma foto do que você está comendo. O vínculo se mantém mais com contato pequeno e frequente do que com a ligação longa que nunca acontece.
- Cuidado com a madrugada. Rolar fotos antigas às duas da manhã costuma aumentar a dor em vez de aliviar.
- Não decida a vida nessa noite. Saudade forte não é o melhor momento pra decidir se volta ou se fica. Anote o que sentiu e retome num dia comum.
Como lidar com a saudade no dia a dia
A saudade de cada dia pede outro tipo de cuidado, mais de construção do que de socorro.
Contato com ritmo, sem obrigação. Uma chamada fixa na semana ajuda muita família. Mas se ela virou um compromisso pesado, em que você finge que está tudo bem, vale rever o formato. Assistir junto a um jogo, cozinhar a mesma receita ao mesmo tempo, mandar áudio no caminho do trabalho: tudo isso também é estar perto.
O Brasil que cabe aí. Uma receita, uma playlist, um grupo de brasileiras, a festa junina improvisada na sala. Isso não é fugir do país novo, é levar a sua história junto. Se a falta é de comida, tem um texto sobre a comida do Brasil que eu não acho.
Raízes onde você está. A saudade dói mais quando não tem nada segurando você no lugar novo. Uma pessoa com quem dá pra contar, um café em que te conhecem, uma atividade semanal. Escrevi sobre como fazer amigos morando fora e sobre solidão morando fora.
Visitar ajuda, e a volta dói. As férias no Brasil enchem o tanque, e a semana depois costuma ser das mais difíceis do ano. Isso é esperado. Falo disso em voltar pro Brasil nas férias e voltar diferente.
Você não precisa escolher um lado. Muita gente sente que não é mais daqui nem de lá. Esse lugar do meio pode ser desconfortável, e também pode virar seu. Escrevi sobre ele em nem daqui nem de lá.
Se você tem filhos, parte da saudade às vezes é dos filhos não terem o que você teve: os avós perto, a língua, a festa. Isso tem um texto próprio, sobre criança bilíngue.
Saudade de casa passa?
Na maioria das vezes, ela muda de forma. No primeiro ano costuma ser mais aguda e mais frequente. Com o tempo fica mais discreta, aparece menos, e volta com força em datas e em momentos de perda. Tem gente que sente saudade há quinze anos e vive bem. Tem um texto sobre quanto tempo leva pra se adaptar e outro pra quem está há muito tempo fora e ainda não se acostumou.
Sentir saudade há anos não quer dizer que você errou ao mudar. Saudade e arrependimento são coisas diferentes, e às vezes vêm juntas. Fiz uma comparação entre as duas em saudade ou arrependimento de ter mudado. Se a pergunta que está rondando é se valeu a pena, escrevi sobre o que costuma pesar nessa conta.
Quando a saudade pede mais cuidado
A saudade dói e, entre uma onda e outra, a vida continua. Vale prestar atenção quando ela deixa de vir em ondas e vira um fundo cinza constante, quando some o prazer pelas coisas de que você gostava, quando o sono, o apetite e a energia mudam por semanas, ou quando você começa a se afastar de todo mundo, inclusive de quem está lá. O nome que eu uso pra esse processo mais pesado é luto migratório, e ele merece cuidado.
Este texto não é diagnóstico. Se você quiser olhar pra sua adaptação com calma, o teste de quem mora fora é anônimo e ajuda a ver em que momento você está.
Se a saudade vier junto com vontade de sumir, de dormir e não acordar, ou de se machucar, não espere passar. No Brasil, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas. Fora do Brasil, reuni as linhas de apoio de vários países em ajuda agora.
Perguntas frequentes
É normal sentir saudade de casa depois de anos morando fora?
É. A saudade de quem migra costuma acompanhar a pessoa por muito tempo, mudando de intensidade. O que chama atenção não é a saudade durar, e sim ela apagar o resto da vida.
Saudade de casa pode dar sintomas físicos?
A revisão de Stroebe e colegas encontrou associação entre saudade de casa intensa e dificuldades de adaptação e problemas de saúde. Sono ruim, cansaço e aperto no peito são queixas comuns. Se o sintoma físico é forte ou persistente, vale passar por uma médica antes de concluir que é só emocional.
Ligar todo dia pra família piora a saudade?
Depende de como você fica depois. Se a ligação te deixa mais leve, ela está ajudando. Se você desliga pior, com culpa ou com vontade de largar tudo, talvez o formato precise mudar, não o vínculo.
Voltar pro Brasil resolve a saudade?
Às vezes, voltar é a decisão certa. Mas muita gente que volta descobre que sente saudade do país onde morava, ou que o Brasil de que sentia falta mudou. Escrevi sobre como saber se é hora de voltar.
Criança também sente saudade de casa?
Sente, e nem sempre fala. Pode aparecer como irritação, choro na hora de dormir ou recusa da escola nova. Dar nome ao que ela sente e manter pontes com quem ficou costuma ajudar.
Se a saudade estiver pesando
Fernanda Pessoa Ferro é psicóloga clínica (CRP 01/30999) e atende online, em português, brasileiras que moram fora do Brasil, no horário do país onde elas vivem. Se a saudade está ocupando mais espaço do que você consegue carregar sozinha, dá pra conversar sobre ela sem precisar traduzir o que sente. Saiba como funciona a terapia online pra brasileiras no exterior.
Referências
- Stroebe, M., Schut, H. & Nauta, M. (2015). Homesickness: A systematic review of the scientific literature. Review of General Psychology, 19(2), 157-171. doi.org/10.1037/gpr0000037
- Stroebe, M., Schut, H. & Nauta, M. H. (2016). Is homesickness a mini-grief? Development of a dual process model. Clinical Psychological Science. doi.org/10.1177/2167702615585302
- Boss, P. (1999). Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief. Harvard University Press. hup.harvard.edu
Sentir saudade não é sinal de que você está no lugar errado. É sinal de que você teve, e tem, gente e lugares que importam.
Continue se escutando
Se você mora fora e se reconheceu aqui, o teste sobre morar fora mostra em que momento da adaptação você está. Anônimo, 3 minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
Conversa sobre este texto
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