Chorei no mercado por causa de um pote de goiabada
Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 15 de setembro de 2026
A goiabada é só a porta. Cheiro e sabor puxam memória de um jeito direto, e uma comida específica pode devolver em segundos uma casa, uma pessoa e uma época inteira. Por isso a cena do mercado acontece com tanta gente.
Você estava no corredor errado do mercado, procurando outra coisa. E aí viu o pote, com o rótulo que você conhece desde criança, num prateleira de comida importada.
E chorou ali, segurando um pote de doce, sem entender direito o que estava acontecendo.
Por que comida faz isso
Cheiro e sabor ativam lembrança de um jeito mais direto e mais imediato do que a maioria das outras coisas. A cena volta inteira, com pessoa, cozinha, horário e sensação junto.
E comida de infância é a mais carregada de todas, porque ela vem de uma época em que você não escolhia nada. A comida chegava pronta, feita por alguém que cuidava de você. Comer aquilo era ser cuidada.
Morando fora, isso vira o atalho mais curto pra casa. Por isso a lágrima aparece no mercado e não na hora que você esperava.
O que a goiabada carrega
O gosto é a menor parte.
O que pesa é a sua avó fazendo. É o domingo. É a mesa com gente falando junto, a televisão ligada, alguém chegando sem avisar. É uma versão sua que existia num lugar onde tudo era mais fácil de entender.
O alimento é só a porta. O que está atrás dela é bem maior.
Por que a versão daqui não resolve
Você acha o produto na loja de importados, paga caro, leva pra casa, e não é a mesma coisa.
Parte é técnica: ingrediente diferente, água diferente, fruta diferente, forno diferente. Parte é a expectativa, porque o que você queria era o dia.
E tem a parte mais dura: mesmo que ficasse idêntico, ia faltar a mesa. A comida era coletiva, e comer sozinha o prato de domingo às vezes escancara justamente o que está faltando.
O que costuma ajudar
Cozinhar, mesmo que não fique igual. Fazer com as mãos aciona uma parte diferente da memória, e muita gente descreve que o processo alivia mais que o resultado.
Cozinhar pra alguém. É o que mais muda a experiência, porque devolve a parte coletiva. Servir feijoada pra gente que nunca comeu feijoada tem um efeito específico: você deixa de estar com saudade sozinha e passa a apresentar quem você é.
Pedir a receita pra quem faz. Não a receita da internet, a de casa, com as imprecisões e o jeito que a pessoa fala. Vale muito ligar pra sua mãe ou pra sua tia e anotar enquanto ela explica, e vale mais ainda fazer isso enquanto dá tempo.
E aceitar substituto sem exigir que ele seja tradução exata. Muita gente encontra uma versão daí que resolve a vontade sem ser a mesma coisa, e isso já é bastante.
Quando o mercado vira um lugar difícil
Vale prestar atenção se você começou a evitar a seção de importados, se a saudade que aparece nessas horas está ficando mais frequente e mais forte, ou se ela vem junto com desânimo que não passa.
Chorar por comida é uma cena comum e costuma dar alívio depois. Quando o episódio deixa de ser pontual e vira um estado, o assunto já não é a goiabada, e conversar com alguém ajuda a olhar o que está por baixo.
Quando buscar ajuda profissional
Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.
Perguntas frequentes
- Por que a comida daqui não me satisfaz mesmo sendo boa?
- Porque o que costuma faltar é familiaridade. Comida conhecida exige zero decodificação e vem junto com memória, e é essa combinação que dá conforto. Comida boa e desconhecida alimenta e não conforta do mesmo jeito.
- Faz mal ficar sempre procurando produto brasileiro?
- Não faz mal, e costuma ser um pedaço importante de cuidado com você mesma. O que vale observar é se isso virou o único vínculo com o Brasil, ou se está substituindo contato com pessoas, porque comida mata a saudade da casa e não mata a falta de gente.
- Cozinhar pra gente daqui é uma boa ideia?
- É uma das coisas que mais aparecem nos relatos de quem se sentiu melhor. Ela devolve a parte coletiva da comida, que costuma ser o que faz mais falta, e coloca você no lugar de quem oferece em vez de quem sente falta.
Em que momento de morar fora você está?
Dez perguntas, três minutos. O teste diz em que fase da adaptação você está e o que costuma pesar nela.
Fazer o teste de quem mora foraSe este texto conversou com você
Às vezes colocar em palavras já ajuda. Se quiser ir além, dá pra conversar comigo sobre o que você está sentindo. Sou psicóloga brasileira no exterior: atendo por vídeo, em português, no seu fuso.
Outras dores
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa
Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.
