Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

Chorei no mercado por causa de um pote de goiabada

Responsável técnica: Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999) · Atualizado em 09 de setembro de 2026

Não é sobre a goiabada. Cheiro e sabor puxam memória de um jeito direto, e uma comida específica pode devolver em segundos uma casa, uma pessoa e uma época inteira. Por isso a cena do mercado acontece com tanta gente.

Você estava no corredor errado do mercado, procurando outra coisa. E aí viu o pote, com o rótulo que você conhece desde criança, num prateleira de comida importada.

E chorou ali, segurando um pote de doce, sem entender direito o que estava acontecendo.

Por que comida faz isso

Cheiro e sabor ativam lembrança de um jeito mais direto e mais imediato do que a maioria das outras coisas. Não é você lembrando de uma cena: é a cena voltando inteira, com pessoa, cozinha, horário e sensação junto.

E comida de infância é a mais carregada de todas, porque ela vem de uma época em que você não escolhia nada. A comida chegava pronta, feita por alguém que cuidava de você. Comer aquilo era ser cuidada.

Morando fora, isso vira o atalho mais curto pra casa. Por isso a lágrima aparece no mercado e não na hora que você esperava.

Não é sobre o alimento

Quase nunca é sobre o gosto.

É sobre a sua avó fazendo. É sobre o domingo. É sobre a mesa com gente falando junto, a televisão ligada, alguém chegando sem avisar. É sobre uma versão sua que existia num lugar onde tudo era mais fácil de entender.

O alimento é só a porta. O que está atrás dela é bem maior.

Por que a versão daqui não resolve

Você acha o produto na loja de importados, paga caro, leva pra casa, e não é a mesma coisa.

Parte é técnica: ingrediente diferente, água diferente, fruta diferente, forno diferente. Parte é a expectativa, porque você não queria o sabor, queria o dia.

E tem a parte mais dura: mesmo que ficasse idêntico, ia faltar a mesa. A comida era coletiva, e comer sozinha o prato de domingo às vezes escancara justamente o que está faltando.

O que costuma ajudar

Cozinhar, mesmo que não fique igual. Fazer com as mãos aciona uma parte diferente da memória, e muita gente descreve que o processo alivia mais que o resultado.

Cozinhar pra alguém. É o que mais muda a experiência, porque devolve a parte coletiva. Servir feijoada pra gente que nunca comeu feijoada tem um efeito específico: você deixa de estar com saudade sozinha e passa a apresentar quem você é.

Pedir a receita pra quem faz. Não a receita da internet, a de casa, com as imprecisões e o jeito que a pessoa fala. Vale muito ligar pra sua mãe ou pra sua tia e anotar enquanto ela explica, e vale mais ainda fazer isso enquanto dá tempo.

E aceitar substituto sem exigir que ele seja tradução exata. Muita gente encontra uma versão daí que resolve a vontade sem ser a mesma coisa, e isso já é bastante.

Quando o mercado vira um lugar difícil

Vale prestar atenção se você começou a evitar a seção de importados, se a saudade que aparece nessas horas está ficando mais frequente e mais forte, ou se ela vem junto com desânimo que não passa.

Chorar por comida é uma cena comum e costuma dar alívio depois. Quando o episódio deixa de ser pontual e vira um estado, o assunto já não é a goiabada, e conversar com alguém ajuda a olhar o que está por baixo.

Quando buscar ajuda profissional

Só um profissional pode avaliar o que você sente e o que faz sentido pro seu momento. Este texto é um ponto de partida pra pensar, não uma avaliação nem um diagnóstico. Se o que você sente insiste, se atrapalha sua rotina, ou se você só quer ter com quem conversar sobre isso, marcar uma conversa com uma psicóloga é um caminho possível.

Perguntas frequentes

Por que a comida daqui não me satisfaz mesmo sendo boa?
Porque o que costuma faltar não é qualidade, é familiaridade. Comida conhecida exige zero decodificação e vem junto com memória, e é essa combinação que dá conforto. Comida boa e desconhecida alimenta e não conforta do mesmo jeito.
Faz mal ficar sempre procurando produto brasileiro?
Não faz mal, e costuma ser um pedaço importante de cuidado com você mesma. O que vale observar é se isso virou o único vínculo com o Brasil, ou se está substituindo contato com pessoas, porque comida mata a saudade da casa e não mata a falta de gente.
Cozinhar pra gente daqui é uma boa ideia?
É uma das coisas que mais aparecem nos relatos de quem se sentiu melhor. Ela devolve a parte coletiva da comida, que costuma ser o que faz mais falta, e coloca você no lugar de quem oferece em vez de quem sente falta.

Se este texto conversou com você

Às vezes colocar em palavras já ajuda. Se quiser ir além, dá pra conversar comigo sobre o que você está sentindo.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999 · Abordagem Centrada na Pessoa

Este conteúdo é psicoeducativo e não substitui atendimento psicológico.