Pular para o conteúdo
Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
Voltar pros textos
DorTema: Outros textos06 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Xenofobia contra brasileiros: o impacto emocional e o que fazer

Como a xenofobia contra brasileiros aparece no dia a dia, o que os dados oficiais de Portugal mostram, o que ela faz por dentro e como se proteger.


Xenofobia é o preconceito, a desconfiança ou a hostilidade contra alguém por ser estrangeiro. Contra brasileiros, ela costuma aparecer em piada sobre o sotaque, em porta fechada no aluguel ou no emprego, no estereótipo da mulher brasileira e no famoso "vocês, brasileiros...". Em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística (INE) perguntou isso diretamente: no inquérito feito em 2023, 54,7% das pessoas nascidas no Brasil que vivem no país relataram já ter sofrido discriminação, contra 16,1% da população geral de 18 a 74 anos. Por dentro, o efeito costuma ser de desgaste: alerta constante, vergonha, dúvida sobre si mesma e vontade de se encolher.

Eu atendo brasileiras que moram em Portugal e em muitos outros países. Esse assunto aparece muito, quase sempre com uma pergunta junto: "será que eu estou exagerando?".

O que é xenofobia

A palavra vem do grego e junta "estrangeiro" com "medo". Na prática, é tratar alguém como menos, como suspeito ou como ameaça por causa de onde a pessoa vem. Ela se mistura com frequência com racismo, machismo e preconceito de classe. Uma brasileira negra, por exemplo, pode sofrer as duas coisas ao mesmo tempo, e nem sempre dá pra separar uma da outra.

Xenofobia não precisa ser grito na rua. Na maioria das vezes ela é baixinha.

Xenofobia em Portugal: o que os dados oficiais mostram

O INE fez em 2023 o Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente (ICOT) e divulgou os principais números em março de 2025:

  • 16,1% das pessoas de 18 a 74 anos que vivem em Portugal disseram ter sofrido discriminação.
  • Entre as pessoas nascidas no Brasil, foram 54,7%, uma das taxas mais altas entre os grupos analisados.
  • Entre pessoas com histórico de imigração, 29,2%.
  • No conjunto de quem sofreu discriminação, os lugares mais citados foram o trabalho (40,0%), a escola (34,6%), estabelecimentos comerciais (30,2%) e instituições públicas (29,6%). Mais de um terço (34,3%) relatou discriminação ao procurar emprego, e 17,2% ao procurar casa.

Esses últimos números são de todas as pessoas que sofreram discriminação, não só das brasileiras. Mas ajudam a entender onde ela costuma acontecer. Se você mora em Portugal, também escrevi sobre a vida emocional de quem está aí em brasileiras em Portugal.

Como a xenofobia contra brasileiros aparece no dia a dia

Algumas formas comuns, que as pacientes me contam e que talvez você reconheça:

  • O sotaque como defeito. Ouvir que você "não fala português direito", ou que o seu filho precisa "falar corretamente" na escola.
  • O estereótipo da mulher brasileira. Comentários sobre o seu corpo, suposições sobre por que você está ali, assédio disfarçado de elogio.
  • A desconfiança automática. O senhorio que desiste quando ouve o sotaque, o atendimento que muda de tom, a pergunta sobre documentos que ninguém faz pros outros.
  • O "você não é como os outros". Parece elogio. É uma forma de dizer que o resto do seu povo é pior.
  • A culpa coletiva. Ser cobrada pelo que "os brasileiros" fazem, como se você representasse milhões de pessoas.
  • A exclusão silenciosa. Não ser chamada, não ser promovida, ser sempre "a brasileira" da equipe. Escrevi sobre isso em sou a única estrangeira do time e em sou tratada como a estrangeira até hoje.

O impacto emocional da xenofobia

Uma meta-análise de Yin Paradies e colegas, de 2015, reuniu quase 300 estudos e encontrou associação consistente entre sofrer racismo e ter pior saúde mental, incluindo depressão, ansiedade e estresse. Xenofobia e racismo não são idênticos, mas se sobrepõem muito, e o mecanismo descrito é parecido: o corpo e a cabeça passam a viver em guarda.

No consultório, isso costuma aparecer assim:

  • Alerta constante. Antes de abrir a boca numa loja, você já calcula a reação. Isso cansa, mesmo nos dias em que nada acontece.
  • Se encolher. Falar menos, baixar o tom, imitar o sotaque local, esconder de onde você é. Às vezes ajuda a passar despercebida. Com o tempo, costuma custar um pedaço de você.
  • Duvidar de si. "Será que foi xenofobia ou fui eu que entendi errado?". Essa dúvida é parte do que torna a xenofobia sutil tão desgastante.
  • Vergonha que não é sua. Muita gente passa a sentir vergonha do sotaque, da origem, até da família. Essa vergonha foi colocada em você.
  • Raiva e tristeza junto. Raiva do que aconteceu, tristeza por ter mudado esperando outra coisa. As duas são reações compreensíveis.
  • Saudade mais forte. Depois de um episódio, a vontade de estar onde ninguém te olha torto cresce. Escrevi sobre isso em saudade de casa.

Uma situação isolada pode doer por dias. Várias pequenas, ao longo de anos, vão se somando, e é esse acúmulo que costuma pesar mais. O nome que eu uso pro conjunto de choques de quem chega a um país novo é choque cultural, e a xenofobia é uma das partes mais duras dele.

"Será que eu estou exagerando?"

Essa pergunta aparece em quase todo relato. Algumas coisas ajudam a pensar:

  • Você não precisa ter certeza da intenção da outra pessoa pra reconhecer que aquilo te machucou.
  • Se o mesmo tipo de situação se repete, o padrão diz mais do que cada episódio.
  • Contar pra alguém de confiança, de preferência alguém que já passou por isso, costuma desfazer a sensação de que está tudo na sua cabeça.

Reconhecer não obriga você a reagir na hora. Às vezes a resposta mais protetora é sair dali e cuidar de você depois.

O que fazer depois de sofrer xenofobia

Cuide de você primeiro. Saia da situação se puder, fale com alguém, faça uma coisa que acalme o corpo. Você não precisa ter a resposta perfeita no momento.

Registre. Data, lugar, o que foi dito, quem viu. Se um dia você quiser fazer queixa, isso ajuda. E escrever também organiza o que você sentiu.

Conheça os caminhos em Portugal. Existe uma comissão pública, a CICDR (Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial), que recebe queixas de discriminação inclusive por nacionalidade. Ameaça, injúria ou difamação pública por origem nacional podem ser crime pelo artigo 240.º do Código Penal português. Pra decidir o que fazer no seu caso, vale buscar orientação jurídica. Em outros países, os caminhos são outros, e o consulado brasileiro pode orientar.

Se houve agressão ou ameaça, procure ajuda imediata. Em Portugal e em toda a União Europeia, o número de emergência é o 112. Se você é mulher e está vivendo violência, o Ligue 180 também atende pelo WhatsApp (61) 9610-0180.

Não carregue sozinha. Grupos de brasileiras, associações de imigrantes e amigas que entendem do que você está falando fazem diferença.

Quando procurar ajuda

Vale buscar apoio quando o medo de sair ou de falar começa a limitar a sua vida, quando você não consegue parar de reviver um episódio, quando o sono e o humor mudam por semanas, ou quando a vergonha de ser brasileira começou a ocupar espaço. Este texto não é diagnóstico, e a dor que você sente não precisa de laudo pra merecer cuidado.

Se em algum momento vier vontade de sumir ou de se machucar, não espere. No Brasil, o CVV atende pelo 188. Fora do Brasil, reuni as linhas de apoio de vários países em ajuda agora.

Perguntas frequentes

Xenofobia é crime em Portugal?

Algumas condutas, sim. O artigo 240.º do Código Penal português pune, entre outras coisas, ameaça, injúria ou difamação pública contra alguém por causa da origem nacional. Outras situações de discriminação podem ser levadas como queixa à CICDR. Uma advogada ou um serviço de apoio jurídico ajuda a entender o seu caso.

Xenofobia e racismo são a mesma coisa?

Não exatamente. Xenofobia é sobre ser estrangeiro. Racismo é sobre raça e cor. Na vida real, as duas costumam vir juntas, e uma brasileira negra ou indígena pode sofrer as duas na mesma frase.

Por que dói tanto se foi "só uma piada"?

Porque a piada carrega uma mensagem: você é de fora e é menos. E porque raramente é a primeira. A dor costuma ser do acúmulo, não só daquela frase.

Devo mudar meu sotaque pra sofrer menos?

A escolha é sua, e não tem resposta certa. Tem gente que adapta o jeito de falar no trabalho e se sente bem com isso. O que vale observar é se a mudança é uma escolha ou um jeito de se esconder que está te custando caro.

Meu filho sofre xenofobia na escola. O que eu faço?

Escute sem minimizar, leve à escola por escrito e mostre pra ele que a língua e a origem dele têm valor. Muita criança passa a ter vergonha do português por causa disso. Falo sobre esse ponto em criança bilíngue.

Se você quiser conversar

Fernanda Pessoa Ferro é psicóloga clínica (CRP 01/30999) e atende online, em português, brasileiras que moram fora do Brasil, no horário do país onde elas vivem. Falar de xenofobia com alguém que não vai te pedir pra provar que aconteceu muda bastante coisa. Saiba como funciona a terapia online pra brasileiras no exterior.

Referências

  • Instituto Nacional de Estatística (2025). Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial: mais de 1,2 milhões de pessoas já sofreram discriminação em Portugal (dados do Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente, 2023). ine.pt
  • Paradies, Y., Ben, J., Denson, N., Elias, A., Priest, N., Pieterse, A. et al. (2015). Racism as a determinant of health: A systematic review and meta-analysis. PLoS ONE, 10(9), e0138511. doi.org/10.1371/journal.pone.0138511

Ser de fora não é defeito. O sotaque que alguém tenta corrigir é o mesmo em que a sua mãe te chamou pelo nome a vida inteira.

Esse texto pode ajudar alguém?Manda pra uma amiga

Continue se escutando

Se você mora fora e se reconheceu aqui, o teste sobre morar fora mostra em que momento da adaptação você está. Anônimo, 3 minutos.

Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

Conversa sobre este texto

Se algo aqui te tocou, ou ficou uma dúvida, pode escrever. Eu leio tudo.

Deixe seu comentário

Não aparece no site. Só pra eu poder te escrever se precisar.

Aqui não é espaço de atendimento nem de diagnóstico. Em sofrimento intenso, ligue 188 (CVV).

Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

Se sentir que este espaço faz sentido pra você, podemos conversar com calma.

Atendimento online · sigilo profissional garantido conforme Código de Ética do Psicólogo · Resolução CFP nº 9/2024.

Quer começar pelo se escutar?

Questionários breves de autoconhecimento: três minutos, sem custo. Eu criei pra você começar a olhar pra si.

Fazer o teste

Conversemos com calma.

Sessões de 50 minutos, online: R$ 210 avulsa ou R$ 180 no pacote mensal. O primeiro encontro é pra gente se conhecer e ver se faz sentido seguir.

Ou faz o teste de quem mora fora primeiro

Você preenche seus dados e a gente combina o horário direto pelo WhatsApp.

Mora fora do Brasil? Nos Estados Unidos, veja a página da psicóloga brasileira nos EUA. Em outro país, encontre seu país na lista de atendimento ou conheça a terapia online para brasileiros no exterior.

Uso cookies pra saber quais páginas ajudam de verdade. Nada do que você escreve aqui é vendido ou compartilhado. Como funciona