Autoestima: 7 mitos que atrapalham mais do que ajudam
Mitos sobre autoestima: que ela é arrogância, que basta se amar ou repetir afirmações no espelho. Entenda o que é verdade e o que só aumenta a cobrança.
Os mitos sobre autoestima estão por toda parte: que autoestima alta é arrogância, que basta decidir se amar, que repetir frases positivas no espelho resolve. O problema é que esses mitos costumam virar mais uma cobrança. Quem já se sente insuficiente passa a se sentir insuficiente também por não conseguir "ter autoestima" do jeito que ensinam.
Autoestima, de verdade, é o quanto você se valoriza e se respeita como pessoa. Não é um estado de euforia nem uma habilidade que se liga com força de vontade. É uma relação consigo que se constrói ao longo da vida, e que pode ser reconstruída.
Vamos aos mitos.
Mito 1: autoestima alta é arrogância
Esse é um dos que mais escuto, especialmente de mulheres. Muitas cresceram ouvindo que gostar de si é feio, que é se achar, que mulher modesta é mais bem vista.
Mas autoestima saudável não tem nada a ver com se sentir superior. Na verdade, quem precisa o tempo todo se mostrar melhor que os outros muitas vezes está protegendo uma sensação de valor bem frágil.
Autoestima saudável é mais silenciosa. É conseguir reconhecer suas qualidades sem precisar diminuir ninguém, e reconhecer seus limites sem se desmanchar.
Mito 2: basta se amar
"Você precisa se amar primeiro." A frase é bonita, mas pode soar como uma ordem impossível para quem não sabe nem por onde começar.
Ninguém aprende a se amar sozinha, no vácuo. A forma como a gente se trata é, em grande parte, aprendida com a forma como fomos tratadas. Se você cresceu ouvindo críticas, sendo comparada ou sentindo que precisava merecer afeto, é natural que hoje tenha dificuldade de se olhar com carinho.
Então não é "basta se amar". É um processo, e ele costuma precisar de outras pessoas, de relações que mostrem um jeito diferente de ser tratada.
Mito 3: espelho e afirmações positivas resolvem
Repetir "eu sou incrível" na frente do espelho pode até fazer bem para algumas pessoas. Mas para quem tem uma voz interna muito crítica, pode ter o efeito contrário.
Quando a frase está muito distante do que você sente, a mente tende a responder: "mentira". E aí a afirmação acaba reforçando justamente a sensação de que você não é aquilo.
Costuma funcionar melhor algo mais próximo e mais honesto consigo, como "estou fazendo o que dá hoje" ou "eu mereço o mesmo cuidado que dou aos outros". Frases menores, que você consegue acreditar pelo menos um pouco.
Mito 4: autoestima é sobre aparência
Aparência pode fazer parte, mas autoestima é bem mais ampla. Ela envolve o quanto você confia no seu julgamento, o quanto se permite errar, o quanto sente que tem direito de ocupar espaço.
Tem mulher que se acha bonita e ainda assim sente que não tem valor. E tem mulher que não gosta de muita coisa no espelho e ainda assim se respeita profundamente.
Aliás, autoestima e autoimagem são coisas diferentes, embora andem juntas. Escrevi sobre isso em autoestima ou autoimagem.
Mito 5: quem tem autoestima nunca se sente insegura
Todo mundo se sente insegura às vezes. Numa entrevista de emprego, num encontro, diante de uma crítica. Isso não significa autoestima baixa.
A diferença está no que acontece depois. Com uma base de autoestima mais firme, a insegurança passa, e você consegue se lembrar de que um momento difícil não define quem você é. Com a autoestima fragilizada, um erro pequeno pode virar prova de que você é um fracasso.
Então o objetivo não é nunca sentir insegurança. É conseguir atravessá-la sem se perder de si.
Mito 6: autoestima vem de conquistas
Muita gente acredita que vai se sentir bem consigo quando alcançar alguma coisa: o emprego certo, o corpo certo, o relacionamento certo, a casa própria.
Conquistas trazem satisfação, claro. Mas quando o seu valor depende delas, ele fica sempre instável. Cada meta alcançada é substituída por outra. E se algo dá errado, parece que todo o seu valor vai junto.
A autoestima mais sólida é aquela que existe mesmo quando você não está produzindo nada. Aquela que diz: eu tenho valor porque existo, não só pelo que faço.
Mito 7: autoestima é fixa, ou você tem ou não tem
Esse mito é talvez o mais desanimador, e também o mais falso. Autoestima não é um traço de nascença. Ela muda ao longo da vida, oscila em fases diferentes, é afetada pelas relações, pelas perdas, pelas conquistas.
Isso significa que ela pode ser cuidada. Não do dia para a noite, e não com uma fórmula. Mas pode.
Então, o que ajuda de verdade
Algumas coisas costumam abrir espaço:
- Perceber a voz crítica e se perguntar se ela é justa.
- Tratar a si mesma como trataria uma amiga querida na mesma situação.
- Se aproximar de pessoas que te tratam bem, e se afastar um pouco das que te diminuem.
- Aceitar que errar faz parte, sem transformar cada erro em sentença.
- Olhar para a própria história com curiosidade, e não com julgamento.
E, se fizer sentido para você, buscar psicoterapia. Na abordagem que eu uso, centrada na pessoa, a ideia é oferecer um espaço de aceitação onde você possa ir se encontrando, no seu ritmo. Não para virar outra pessoa, mas para poder ser quem você é com menos peso.
Um jeito de começar
Se você ficou curiosa sobre como anda a sua autoestima hoje, fiz um teste de autoestima gratuito baseado na Escala de Rosenberg, um dos questionários mais usados no mundo para isso. São 10 afirmações, uns 3 minutos, e o resultado sai na hora. Não é diagnóstico, é um convite a se olhar com mais atenção.
E se, junto com a autoestima baixa, você estiver sentindo uma tristeza que não passa ou pensamentos de se machucar, procure ajuda. O CVV atende 24h, de graça e em sigilo, pelo 188 ou pelo cvv.org.br.
Autoestima não é se achar a melhor. É conseguir se tratar com respeito, inclusive nos dias em que você não se acha grande coisa.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de autoestima pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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