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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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AutoconhecimentoTema: Outros textos06 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

Carl Rogers: vida, ideias e o que ficou da Abordagem Centrada na Pessoa

Quem foi Carl Rogers, o psicólogo que criou a Abordagem Centrada na Pessoa: vida, principais ideias, livros, a passagem pelo Brasil e o que a pesquisa diz da ACP hoje.


Carl Rogers (1902-1987) foi um psicólogo americano que criou a Abordagem Centrada na Pessoa, a ACP. A ideia que atravessou toda a obra dele é que cada pessoa tem, dentro de si, uma tendência a crescer e se organizar, e que essa tendência floresce quando ela encontra uma relação com empatia, aceitação e autenticidade. Rogers foi um dos fundadores da psicologia humanista, foi um dos primeiros a gravar sessões de terapia pra estudá-las e levou suas ideias pra educação, grupos e conflitos políticos. Num levantamento publicado em 2002, apareceu como o sexto psicólogo mais eminente do século 20.

Eu trabalho com a ACP. Este texto é sobre o homem e as ideias. Pra entender como a abordagem funciona numa sessão hoje, escrevi uma página só sobre a Abordagem Centrada na Pessoa.

Quem foi Carl Rogers

Rogers nasceu em 8 de janeiro de 1902, em Oak Park, perto de Chicago, numa família protestante e rígida. Começou estudando agricultura, passou pela história e chegou a entrar num seminário teológico em Nova York. Ali percebeu que se interessava mais pelas pessoas do que pelas doutrinas e foi estudar psicologia na Universidade Columbia, onde fez o doutorado.

Nos anos 1930, trabalhou em Rochester, atendendo crianças e famílias num serviço de proteção à infância. Foi lá que começou a desconfiar das técnicas que tinha aprendido. Contava que o que mais ajudava era deixar que a própria pessoa mostrasse o caminho, já que ela sabia melhor o que doía.

Depois vieram as universidades: Ohio State, em 1940; Chicago, de 1945 a 1957; Wisconsin, até 1963. Em 1947, foi presidente da Associação Americana de Psicologia (APA). Na última fase da vida, morou em La Jolla, na Califórnia, onde ajudou a fundar o Centro de Estudos da Pessoa, em 1968. Morreu em 4 de fevereiro de 1987, aos 85 anos.

As principais ideias de Carl Rogers

Tendência atualizante

Rogers acreditava que todo organismo tende a se desenvolver e a realizar o que tem de potencial, como uma planta que cresce em direção à luz mesmo num lugar ruim. O sofrimento aparece quando essa tendência fica travada.

Self e incongruência

Ao longo da vida, a gente forma uma imagem de quem é, o self. Muitas vezes essa imagem é construída pra ser aceita pelos outros, e não a partir do que a gente sente de verdade. Rogers chamou esse descompasso entre o que se vive e o que se acha que deveria viver de incongruência. Boa parte da angústia, pra ele, vinha daí.

Condições de valor

Quando a criança sente que só é amada se for de certo jeito (boazinha, forte, quieta, brilhante), ela aprende a se valorizar só nessas condições. Na vida adulta, isso aparece como autocrítica, medo de decepcionar, dificuldade de dizer não.

As condições da relação terapêutica

Em 1957, Rogers publicou um artigo que virou clássico, descrevendo as condições que, segundo ele, bastavam pra uma mudança terapêutica acontecer. As três mais conhecidas dizem respeito a quem atende:

  • Empatia: tentar compreender o mundo da pessoa como ela vive, e comunicar essa compreensão.
  • Consideração positiva incondicional: aceitar a pessoa sem condicionar essa aceitação ao que ela faz ou sente.
  • Congruência, ou autenticidade: ser genuíno na relação, sem se esconder atrás de um papel.

Ele chamava isso de hipótese, e não de dogma. Queria que fosse testado.

De "terapia não diretiva" a "Abordagem Centrada na Pessoa"

O nome mudou com o tempo. Em 1942, no livro Counseling and Psychotherapy, Rogers falava em aconselhamento não diretivo: o terapeuta não conduz, não aconselha, não interpreta. Em 1951, com Client-Centered Therapy, o nome virou terapia centrada no cliente, pra deixar claro onde estava o centro do trabalho.

Mais tarde, quando as mesmas ideias passaram a ser usadas em escolas, grupos e organizações, ele adotou o nome Abordagem Centrada na Pessoa. Por isso "terapia centrada no cliente" e "ACP" são, na prática, a mesma tradição.

Livros de Carl Rogers

  • Counseling and Psychotherapy (1942)
  • Client-Centered Therapy (1951)
  • On Becoming a Person (1961), lançado no Brasil como Tornar-se pessoa, o mais lido dele
  • Freedom to Learn (1969), sobre educação, lançado aqui como Liberdade para aprender
  • A Way of Being (1980), lançado aqui como Um jeito de ser

Rogers, os grupos e a paz

A partir dos anos 1960, Rogers se dedicou muito aos grupos de encontro, em que pessoas se reuniam por dias pra conversar com franqueza sobre o que sentiam. Depois levou esse formato pra situações de conflito. Em 1985, coordenou em Rust, na Áustria, um encontro com pessoas de vários países sobre a tensão na América Central. Também fez trabalhos de diálogo na África do Sul e na Irlanda do Norte.

E veio ao Brasil. Em 1977, esteve em Recife, São Paulo e no Rio de Janeiro pra encontros com centenas de pessoas e um grupo intensivo de algumas semanas no estado do Rio. Voltou em 1978 e em 1985. A ACP segue presente nos cursos de Psicologia no Brasil até hoje.

Carl Rogers e a pesquisa

Uma coisa que pouca gente sabe: Rogers foi um pioneiro da pesquisa em psicoterapia. Ele gravava as sessões, numa época em que isso era raro, e estudava as transcrições pra entender o que de fato acontecia ali. Em 1956, recebeu da APA um prêmio por contribuição científica. Ele dizia que os fatos são sempre amigáveis, mesmo quando contrariam o que a gente gostaria.

O que a pesquisa diz da ACP hoje

As condições de Rogers continuam sendo estudadas, agora em todas as abordagens. Meta-análises publicadas em 2018 encontraram associação entre a empatia de quem atende e o resultado da terapia, e também entre a consideração positiva e o resultado. É correlação, e não prova sozinha que essas atitudes causam a melhora, mas confirma que elas importam.

A ACP como tratamento também tem pesquisa, em número bem menor que a TCC. A mais forte é na depressão. No ensaio PRaCTICED, com 510 pessoas no serviço público de saúde da Inglaterra, uma versão da ACP com protocolo pra depressão foi equivalente à TCC em seis meses, e a TCC teve resultado melhor em doze. Uma meta-análise de 2024 sobre terapias humanistas na depressão encontrou um desenho parecido: resultados comparáveis no fim do tratamento e vantagem das outras terapias no acompanhamento. Na diretriz inglesa de depressão, o aconselhamento dessa tradição aparece entre as opções, depois da TCC.

Pra pânico, fobias e TOC, a TCC tem bem mais evidência. Quando alguém chega comigo com uma dessas queixas, eu digo isso e encaminho. Comparei as duas em ACP ou TCC, e escrevi sobre outras linhas em o que é TCC e o que é psicanálise.

Críticas a Carl Rogers

Rogers também foi bastante criticado. Algumas críticas comuns:

  • Otimismo demais: a ideia de que as pessoas tendem ao crescimento pareceu ingênua pra quem trabalha com quadros graves.
  • Pouca técnica: pra quem quer ferramentas concretas, a ACP pode parecer vaga.
  • Condições "suficientes": a pesquisa mostra que a relação importa, mas não confirma que ela basta sozinha pra todo tipo de sofrimento.

Eu concordo com parte disso. A relação não substitui a técnica certa quando há um tratamento específico com mais evidência. Mas o que Rogers descreveu é a base de qualquer terapia boa, e é o que eu tento oferecer em cada sessão.

Este texto não é diagnóstico nem indicação de tratamento. Se quiser olhar pra sua crítica interna, que tem muito a ver com as condições de valor de Rogers, o teste no fim da página pode ajudar.

Perguntas frequentes

O que Carl Rogers defendia?

Que cada pessoa tem dentro de si recursos pra crescer, e que esses recursos aparecem numa relação com empatia, aceitação e autenticidade. O terapeuta, pra ele, não deveria conduzir nem interpretar, e sim acompanhar.

Qual a teoria de Carl Rogers?

A teoria do self e da tendência atualizante. O sofrimento vem da incongruência entre o que a pessoa vive e a imagem que ela tem de si, muitas vezes formada a partir de condições de valor impostas por outros.

Qual o livro mais famoso de Carl Rogers?

Tornar-se pessoa (On Becoming a Person), de 1961. É uma coletânea de textos acessível, boa pra quem quer começar.

Carl Rogers é da psicologia humanista?

Sim. Ele é, ao lado de Abraham Maslow, um dos nomes centrais da psicologia humanista, que surgiu nos Estados Unidos como alternativa à psicanálise e ao behaviorismo.

Terapia centrada no cliente e ACP são a mesma coisa?

São a mesma tradição. Terapia centrada no cliente foi o nome usado por Rogers a partir de 1951. ACP é o nome mais amplo que ele adotou depois, quando as ideias passaram a ser usadas fora do consultório também.

Referências

  • Rogers, C. R. (1942). Counseling and Psychotherapy. Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1951). Client-Centered Therapy. Houghton Mifflin.
  • Rogers, C. R. (1957). The necessary and sufficient conditions of therapeutic personality change. Journal of Consulting Psychology, 21(2), 95-103. doi.org/10.1037/h0045357
  • Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person. Houghton Mifflin. (Em português: Tornar-se pessoa.)
  • Haggbloom, S. J. et al. (2002). The 100 most eminent psychologists of the 20th century. Review of General Psychology, 6(2), 139-152. doi.org/10.1037/1089-2680.6.2.139
  • Elliott, R., Bohart, A. C., Watson, J. C. & Murphy, D. (2018). Therapist empathy and client outcome: An updated meta-analysis. Psychotherapy, 55(4), 399-410. doi.org/10.1037/pst0000175
  • Farber, B. A., Suzuki, J. Y. & Lynch, D. A. (2018). Positive regard and psychotherapy outcome: A meta-analytic review. Psychotherapy, 55(4), 411-423. doi.org/10.1037/pst0000171
  • Barkham, M., Saxon, D., Hardy, G. E., Bradburn, M., Galloway, D., Wickramasekera, N. et al. (2021). Person-centred experiential therapy versus cognitive behavioural therapy delivered in the English Improving Access to Psychological Therapies service for the treatment of moderate or severe depression (PRaCTICED): a pragmatic, randomised, non-inferiority trial. The Lancet Psychiatry, 8(6), 487-499. doi.org/10.1016/S2215-0366(21)00083-3
  • Duffy, K. E. M., Simmonds-Buckley, M., Haake, R., Delgadillo, J. & Barkham, M. (2024). The efficacy of individual humanistic-experiential therapies for the treatment of depression: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Psychotherapy Research, 34(3), 323-338. doi.org/10.1080/10503307.2023.2227757
  • National Institute for Health and Care Excellence. (2022). Depression in adults: treatment and management (NG222). ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK583074

Rogers dizia que, quando se aceitava como era, aí sim conseguia mudar. Eu vejo isso acontecer no consultório quase toda semana.

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Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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