Ansiedade de separação em adultos: quando ficar longe de quem você ama vira pavor
Ansiedade de separação não é só coisa de criança. Entenda os sintomas em adultos, os critérios do DSM-5-TR e da CID-11, a diferença para apego ansioso e o que ajuda.
Ansiedade de separação é um medo intenso e desproporcional de ficar longe das pessoas a quem você é mais ligada, ou de que algo ruim aconteça com elas. Em adultos, costuma girar em torno do parceiro ou dos filhos, às vezes dos pais. Não é só coisa de criança: desde o DSM-5, os manuais reconhecem que o transtorno de ansiedade de separação pode começar e ser diagnosticado na vida adulta. Na CID-11, o código é 6B05. Tem tratamento, e a terapia cognitivo-comportamental é a abordagem com mais base.
Sentir saudade, ficar apertada quando o parceiro viaja, se preocupar com um filho que saiu à noite, tudo isso é humano. A ansiedade de separação é quando a distância vira sinal de perigo e você passa a organizar a vida pra não se afastar.
O que é ansiedade de separação
Durante muito tempo, o transtorno de ansiedade de separação ficou no capítulo dos quadros da infância. Na CID-10, o código F93.0 tinha até "na infância" no nome. Isso mudou.
- No DSM-5-TR (APA, 2022), o transtorno está entre os transtornos de ansiedade, e a exigência de que comece antes dos 18 anos foi retirada.
- Na CID-11, ele também saiu do capítulo da infância e passou a ficar junto dos outros transtornos de ansiedade, com o código 6B05. A descrição da OMS diz que, em adultos, o foco costuma ser o parceiro ou os filhos.
E não é raro. Num levantamento da Organização Mundial da Saúde com quase 39 mil adultos em 18 países, a frequência ao longo da vida ficou em média em 4,8%, e 43,1% dos casos começaram depois dos 18 anos (Silove e colegas, 2015). Num estudo anterior nos Estados Unidos, a maioria dos adultos com o quadro nunca tinha tido ansiedade de separação na infância, e muitos não recebiam tratamento pra ela (Shear e colegas, 2006).
Sintomas de ansiedade de separação em adultos
O DSM-5-TR descreve oito sinais. Com as minhas palavras, e com exemplos de adulto:
- Sofrimento intenso quando a separação acontece ou está pra acontecer. A viagem de trabalho do parceiro, a ida do filho pra outra cidade, até um fim de semana fora.
- Preocupação constante de perder essas pessoas ou de que elas adoeçam, sofram um acidente, morram.
- Medo de que algo aconteça com você e separe vocês: se perder, sofrer um acidente, ficar doente longe.
- Dificuldade de sair de casa, ir trabalhar ou viajar por causa do medo de ficar longe.
- Medo ou desconforto grande de ficar sozinha, em casa ou em outros lugares, sem essa pessoa por perto.
- Dificuldade de dormir longe dessa pessoa, ou de dormir fora de casa.
- Pesadelos repetidos sobre separação.
- Sintomas no corpo quando a separação acontece ou vai acontecer: dor de cabeça, dor de estômago, enjoo, taquicardia.
Pra pensar em transtorno, o manual pede pelo menos três desses sinais, um medo bem maior do que a situação pede, sofrimento ou prejuízo real, e duração longa: em adultos, em geral seis meses ou mais. A CID-11 fala em pelo menos vários meses.
Ansiedade de separação sintomas no dia a dia
Na vida real, costuma aparecer assim:
- Mandar mensagem várias vezes pra saber se a pessoa chegou, e entrar em pânico se ela não responde.
- Acompanhar a localização dela no celular o tempo todo.
- Não conseguir dormir enquanto ela não chega.
- Recusar viagens, cursos ou promoções que exigiriam ficar longe.
- Pedir que o parceiro não viaje, não saia com amigos, não trabalhe até tarde.
- Ter dificuldade de deixar os filhos na escola, com a avó, numa festa do pijama, mesmo quando já são grandes.
- Ficar mal no corpo quando a separação se aproxima.
Muita gente com esse quadro sabe que o medo é exagerado. Saber não faz o medo ir embora, e isso não é fraqueza.
Ansiedade de separação, apego ansioso ou medo do abandono?
Essas ideias se parecem, e a diferença ajuda a entender o que está acontecendo.
- Apego ansioso é um estilo de vínculo, não um diagnóstico. A pessoa precisa de muita confirmação de que é amada e se inquieta com sinais de distanciamento. Pode existir sem transtorno nenhum. Veja também os tipos de apego.
- Medo do abandono é o medo de ser deixada, de que o outro escolha ir embora. Na ansiedade de separação, o medo muitas vezes é de que algo aconteça com a pessoa, ou de não suportar a distância, mesmo sabendo que ela vai voltar.
- Borderline. O medo intenso de abandono é um dos critérios, mas no transtorno de personalidade borderline ele vem junto de instabilidade nas emoções, na forma de se ver e nas relações.
- Agorafobia. A pessoa também evita sair de casa, mas o medo é de passar mal e não ter socorro, e não de ficar longe de alguém. Leia sobre agorafobia.
- Ansiedade generalizada. A preocupação com quem você ama é uma entre muitas, sobre trabalho, saúde, dinheiro, tudo.
- Medo da morte. Quando o centro é o medo de perder as pessoas pra morte, leia também sobre tanatofobia.
- Luto. Depois de perder alguém, é esperado ter mais medo de perder os outros. Isso pede cuidado com o luto, e não necessariamente um diagnóstico novo.
Só uma avaliação com psicóloga ou psiquiatra pode separar esses quadros, que às vezes vêm juntos.
O que pode levar à ansiedade de separação na vida adulta
No estudo da OMS, alguns fatores apareceram ligados ao quadro: ser mulher, ter passado por dificuldades na infância e ter vivido eventos traumáticos ao longo da vida (Silove e colegas, 2015).
Na clínica, ela costuma aparecer ou piorar em momentos de mudança: depois de uma perda, de uma doença na família, do nascimento de um filho, de uma mudança de país, de um susto com alguém próximo. Às vezes já existia uma ansiedade de separação na infância que voltou com outra cara.
Ansiedade de separação tem cura?
Eu não prometo cura. O transtorno tem tratamento, e muita gente melhora.
Os estudos de tratamento feitos especificamente com adultos ainda são poucos. O que se usa com mais base é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), como nos outros transtornos de ansiedade. Ela costuma incluir entender o ciclo do medo, diminuir aos poucos a checagem e as ligações de confirmação, e treinar separações cada vez maiores, de forma combinada, até o corpo perceber que dá pra ficar longe e que a pessoa volta.
Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa. Ela tem espaço pra história dos seus vínculos, pras perdas e pro que significa, pra você, ficar sozinha. Quando a ansiedade de separação é intensa e está travando a sua vida, a TCC é a abordagem com mais evidência, e eu encaminho quando é o caso. Remédio é decisão de psiquiatra.
Este texto não é diagnóstico. Se quiser entender melhor como você se vincula, o teste de estilo de apego pode ser um ponto de partida. Ele não mede ansiedade de separação.
Perguntas frequentes
Adulto pode ter ansiedade de separação?
Pode. Desde o DSM-5 e na CID-11, o diagnóstico não é mais restrito à infância. Em adultos, o foco costuma ser o parceiro ou os filhos.
Ansiedade de separação é o mesmo que dependência emocional?
Não. Dependência emocional não é um diagnóstico formal e fala de um jeito de se relacionar em que a pessoa se anula pra manter o vínculo. A ansiedade de separação é um transtorno de ansiedade centrado no medo da distância. As duas podem andar juntas.
Ansiedade de separação dos filhos é normal?
Sentir falta e se preocupar com os filhos é normal. Vira um problema quando o medo impede você ou eles de viverem etapas importantes, como dormir fora, viajar, estudar em outra cidade, ou quando a sua vida para enquanto eles estão longe.
Ansiedade de separação pode aparecer depois de um luto?
Pode. Uma perda mostra que as pessoas podem ir embora de verdade, e o medo de perder os outros cresce. Se o medo continua muito forte depois de bastante tempo, vale procurar ajuda.
Qual a diferença entre ansiedade de separação e ciúme?
No ciúme, o medo é de perder a pessoa pra outra pessoa. Na ansiedade de separação, o medo é da distância em si e de que algo ruim aconteça enquanto vocês estão longe.
Referências
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA Publishing.
- World Health Organization. (2024). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders (CDDR). who.int
- Silove, D., Alonso, J., Bromet, E., Gruber, M., Sampson, N., Scott, K. et al. (2015). Pediatric-onset and adult-onset separation anxiety disorder across countries in the World Mental Health Survey. American Journal of Psychiatry, 172(7), 647-656. doi.org/10.1176/appi.ajp.2015.14091185
- Shear, K., Jin, R., Ruscio, A. M., Walters, E. E. & Kessler, R. C. (2006). Prevalence and correlates of estimated DSM-IV child and adult separation anxiety disorder in the National Comorbidity Survey Replication. American Journal of Psychiatry, 163(6), 1074-1083. doi.org/10.1176/ajp.2006.163.6.1074
Querer perto quem a gente ama é a coisa mais humana do mundo. Quando a distância passa a doer como perigo, dá pra cuidar disso sem deixar de amar.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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