Alexitimia em mulheres: quando você não consegue chorar
Alexitimia em mulheres: a que resolve tudo, a que engole o choro, a que não consegue chorar. Como cobranças de gênero afastam você do que sente.
"Eu não consigo chorar." Às vezes essa frase vem com alívio, como se fosse uma qualidade. Às vezes vem com vergonha, como se fosse um defeito. Quase sempre vem acompanhada de um cansaço enorme.
Quando falo de alexitimia em mulheres, falo muito disso: da mulher que dá conta de tudo, que resolve, que segura, e que em algum momento percebe que perdeu o acesso ao que sente. Alexitimia é um traço que envolve dificuldade de identificar e descrever as próprias emoções. Não é doença. E, no caso de muitas mulheres, ela conversa diretamente com as cobranças que a gente recebe desde cedo.
Por que não consigo chorar?
Não existe uma causa única. Dificuldade de chorar pode ter a ver com cansaço extremo, com uso de algumas medicações, com momentos de luto em que a emoção fica "congelada", com depressão, ou com um jeito de funcionar construído ao longo da vida, em que emoção precisou ficar guardada.
Se isso é recente e veio junto de outras mudanças (sono, apetite, perda de interesse pelas coisas), vale conversar com um médico ou psicóloga. Se é algo que te acompanha há muito tempo, pode estar ligado a esse aprendizado de engolir o que sente. Este texto é sobre esse segundo cenário.
A mulher forte, a que resolve tudo
Muitas mulheres crescem ouvindo, de forma direta ou não, que precisam ser fortes. Que a casa depende delas. Que a mãe cansada não pode desabar. Que a filha mais velha precisa ajudar. Que a profissional precisa provar o dobro.
Nesse contexto, emoção vira quase um luxo. Tristeza atrapalha a rotina. Raiva é mal vista ("histérica", "descontrolada"). Medo é fraqueza. Então a gente aprende a:
- Engolir o choro e deixar pra depois, que nunca chega.
- Transformar sentimento em tarefa. Em vez de sentir, organiza, limpa, resolve.
- Cuidar de todo mundo e perder a noção do que precisa pra si.
- Sorrir no automático pra não preocupar ninguém.
Funciona por um tempo. Às vezes por muito tempo. Mas tem um preço.
Alexitimia em mulheres: como ela costuma aparecer
Alguns sinais que escuto com frequência:
- Quando alguém pergunta como você está, a resposta é sempre "tudo bem" ou "cansada", e você não sabe dizer mais nada.
- Você chora em filmes, mas não na própria vida. Ou não chora em nenhum dos dois.
- O corpo fala por você: dor de cabeça, enxaqueca, gastrite, tensão no pescoço, insônia.
- Você só percebe que estava no limite quando explode, e depois não entende de onde veio aquilo.
- Você acha mais fácil falar dos problemas dos outros do que dos seus.
- Descansar dá culpa. Ficar parada dá angústia.
Se quiser uma lista mais completa, escrevi sobre os sinais de alexitimia em outro texto.
As cobranças de gênero por trás das dores silenciosas
Essa dificuldade não é "coisa da sua cabeça" nem falha pessoal. Ela é construída num contexto.
Mulheres ainda carregam, em muitos lares, a maior parte do trabalho de cuidado: da casa, dos filhos, dos pais que envelhecem. Isso tem sido documentado em pesquisas como as do IBGE sobre o tempo dedicado a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, em que as mulheres aparecem com uma carga semanal bem maior que a dos homens. Quando sobra pouco tempo e pouca energia, sobra pouco espaço pra sentir.
E há a contradição: a mulher é vista como "a emocional", mas é cobrada pra não demonstrar emoção nos lugares onde isso seria considerado inadequado, como no trabalho. Resultado: muitas aprendem a desligar em todo lugar.
Não conseguir chorar não é o mesmo que não sentir
A ausência de choro, ou a dificuldade de nomear sentimentos, não quer dizer que não exista nada ali. Muitas vezes existe muito. Só que ficou guardado num lugar difícil de acessar.
Esse "guardar" foi, em algum momento, uma proteção. Não precisa ser arrancado à força. Ele pode ser olhado com respeito, e aos poucos ir se afrouxando.
Se você quiser começar a se observar, preparei um teste de alexitimia gratuito, com perguntas que eu mesma escrevi. São poucos minutos, sem julgamento.
Pequenos passos pra se reaproximar do que sente
Sem pressa, e sem transformar isso em mais uma obrigação:
- Crie pausas curtas. Um minuto por dia, sem celular, só pra perceber como o corpo está.
- Troque o "tudo bem" automático por algo um pouquinho mais honesto, pelo menos com você mesma.
- Preste atenção no que te emociona de longe. Uma música, uma cena, uma notícia. Isso pode dar pistas do que está guardado.
- Permita-se não dar conta de tudo. Delegar uma tarefa pode abrir espaço pra sentir.
- Escreva. Três linhas sobre o dia e o que o corpo sentiu já ajudam.
Quando buscar ajuda
Se você percebe que vive no automático há muito tempo, que o corpo vem cobrando a conta, ou que existe uma tristeza de fundo que não passa, procurar uma psicóloga pode ser um cuidado importante.
No meu trabalho, com a Abordagem Centrada na Pessoa, a terapia não é um lugar pra você "aprender a chorar" ou ser forçada a sentir. É um espaço sem cobrança, onde você não precisa ser forte, e onde o que estava guardado pode aparecer no tempo que for seu.
E se o que você sente ficar pesado demais, com pensamentos de se machucar ou de sumir, procure ajuda agora: o CVV atende 24h, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
A mulher que não chora quase sempre aprendeu a segurar o mundo. Ela também merece um lugar onde possa soltar.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de alexitimia pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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