Insegurança: de onde vem e como lidar com ela
O que é insegurança, como ela aparece no relacionamento, no trabalho e no espelho, de onde costuma vir e o que ajuda a parar de ser tão insegura.
Insegurança é a sensação de não estar firme: de que você não é suficiente, de que vai errar, de que as pessoas podem ir embora a qualquer momento. Todo mundo sente em alguma fase. Ela vira um problema quando passa a decidir por você, quando faz você checar, se comparar, pedir confirmação o tempo todo ou desistir antes de tentar.
Insegurança não é um transtorno. É um jeito de se sentir, e costuma ter história.
O que é insegurança emocional
É quando o chão interno depende demais do que vem de fora. Se alguém elogia, você respira. Se alguém demora pra responder, o dia desaba. A opinião dos outros vira termômetro do seu valor.
Ela aparece de muitos jeitos:
- Comparação constante com outras mulheres, colegas, amigas, ex do parceiro.
- Pedir confirmação o tempo todo: "você gostou?", "tá bravo comigo?", "ficou bom?".
- Dificuldade de decidir sem ouvir várias opiniões antes.
- Medo de errar que leva a adiar ou a fazer tudo dez vezes.
- Ler rejeição em coisas neutras, como uma resposta curta ou um olhar.
- Desconfiar de elogio, como se fosse educação ou pena.
De onde vem a insegurança
Não costuma ter uma causa só. Algumas origens comuns:
- Uma infância em que o afeto parecia condicionado. Ser amada quando ia bem na escola, quando não dava trabalho, quando agradava. Carl Rogers, que criou a abordagem com que eu trabalho, chamava isso de condições de valor: a gente aprende que só vale quando cumpre certas exigências.
- Críticas repetidas, em casa, na escola, em relações.
- Relações em que você foi enganada ou desvalorizada, que deixam o alarme ligado.
- Um jeito de se vincular mais ansioso, em que a distância do outro soa como perigo. Escrevi sobre apego ansioso.
- Autoestima baixa, que é parente próxima da insegurança. Se quiser se olhar por aí, veja os sinais de autoestima baixa.
Insegurança no relacionamento
É onde ela costuma doer mais. A insegurança no relacionamento aparece como ciúme, medo de ser trocada, necessidade de saber onde o outro está, interpretação de cada silêncio como sinal de que acabou.
Geraldine Downey e Scott Feldman descreveram, em 1996, a sensibilidade à rejeição: a tendência de esperar a rejeição com ansiedade, enxergá-la com facilidade e reagir forte a ela. Nos estudos deles, quem entrava nas relações com essa expectativa via rejeição intencional em comportamentos ambíguos do parceiro, e os dois lados ficavam menos satisfeitos com a relação.
O que dá pra tirar disso: muitas vezes a insegurança cria justamente o que teme. Você cobra, o outro se afasta, você confirma que estava certa. Escrevi mais sobre esse medo em medo de rejeição e em medo do abandono na relação.
Uma diferença importante: às vezes a insegurança não é só sua. Se o parceiro mente, some, desqualifica você ou faz você duvidar do que viu, a sensação de não estar firme tem motivo. Aí o trabalho não é "parar de ser insegura", é olhar pra relação.
Como lidar com a insegurança
Repare no que dispara
Insegurança costuma ter gatilhos parecidos: uma mensagem sem resposta, uma reunião, uma foto, uma comparação. Anotar quando ela aparece ajuda a perceber o padrão e a se surpreender menos com ele.
Separe o fato da interpretação
"Ele respondeu seco" é o fato. "Ele não gosta mais de mim" é a interpretação. Perguntar a si mesma que outras explicações existem não apaga a ansiedade, mas abre espaço entre o que aconteceu e o que você concluiu.
Peça confirmação com menos frequência, e com mais clareza
Pedir carinho é legítimo. O que cansa os dois lados é a checagem repetida, que acalma por pouco tempo. Às vezes ajuda trocar dez perguntas soltas por uma conversa direta: "quando você some, eu fico insegura. Dá pra me avisar?".
Mude o jeito de falar consigo
Muita insegurança vem de uma voz interna dura, que aponta cada erro. Tratar-se com a mesma gentileza que você teria com uma amiga não é se iludir. É o que a pesquisa chama de autocompaixão, e ela tem sido associada a menos sofrimento psicológico.
Faça coisas inseguras mesmo assim
Esperar a segurança chegar pra depois agir costuma não funcionar. A confiança costuma vir depois de tentar, errar e ver que você continua de pé.
Como parar de ser insegura
A pergunta é compreensível, mas talvez a meta não seja zerar a insegurança. Ela aparece em situações novas, em mudanças, em relações que importam. Isso é humano. A meta pode ser ela deixar de mandar: você sente o frio na barriga e faz mesmo assim, sente ciúme e conversa em vez de vasculhar.
Quando a insegurança é antiga e atravessa várias áreas da vida, costuma pedir mais que dicas. A terapia é um espaço pra entender de onde ela veio e pra experimentar, numa relação, ser aceita sem precisar cumprir condições. Na abordagem centrada na pessoa, é justamente essa experiência que ajuda a pessoa a confiar mais no que sente e no que vale.
Este texto não é diagnóstico. Se quiser se olhar com calma, o teste de autoestima do site pode ajudar a organizar o que você sente.
Perguntas frequentes
Insegurança é falta de amor-próprio?
Pode ter relação, mas não é tão simples. Muita gente insegura gosta de si em vários aspectos e trava em outros, como no amor ou no trabalho. E amor-próprio não se cria por decisão. Costuma ser construído aos poucos, também nas relações.
Insegurança tem cura?
Insegurança não é doença, então não se fala em cura. Ela pode diminuir bastante e deixar de comandar as suas escolhas, principalmente quando você entende de onde ela vem.
Insegurança no relacionamento é culpa minha?
Não é questão de culpa. Às vezes vem da sua história, às vezes da forma como o parceiro age, quase sempre das duas coisas juntas. Vale olhar com honestidade pros dois lados.
Ciúme é insegurança?
Muitas vezes sim, mas nem todo ciúme é igual. Se ele vira controle, como vigiar o celular ou proibir amizades, aí é outra conversa, que pede cuidado.
Insegurança pode ser ansiedade?
Podem andar juntas. Quando a preocupação é constante, difícil de controlar e vem com tensão no corpo, sono ruim e cansaço, vale avaliar ansiedade. Uma profissional ajuda a separar.
Referências
- Downey, G. & Feldman, S. I. (1996). Implications of rejection sensitivity for intimate relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 70(6), 1327-1343. doi.org/10.1037/0022-3514.70.6.1327
- MacBeth, A. & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. doi.org/10.1016/j.cpr.2012.06.003
- Rogers, C. R. (1959). A theory of therapy, personality, and interpersonal relationships, as developed in the client-centered framework. Em S. Koch (Org.), Psychology: A study of a science (Vol. 3, pp. 184-256). McGraw-Hill.
Insegurança não é defeito de caráter. Muitas vezes é o que sobrou de um tempo em que você precisou estar sempre atenta pra ser aceita.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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