Autocompaixão: o que é e como praticar com você mesma
O que é autocompaixão segundo Kristin Neff, os três elementos, a diferença para autoestima e autopiedade, o que a pesquisa mostra e como começar a praticar.
Autocompaixão é tratar a si mesma com a mesma gentileza que você ofereceria a alguém querido num momento difícil. Quando você erra, falha ou está sofrendo, em vez de se atacar, você reconhece a dor, lembra que isso faz parte de ser humana e se oferece cuidado. O conceito ficou conhecido na psicologia a partir dos trabalhos da pesquisadora americana Kristin Neff, no início dos anos 2000.
Pra muita gente, essa ideia soa estranha. A voz interna dura parece necessária, quase uma proteção. A pesquisa sugere outra coisa.
O que é autocompaixão, segundo Kristin Neff
Em 2003, Neff publicou um artigo propondo a autocompaixão como um jeito saudável de se relacionar consigo. No modelo dela, a autocompaixão tem três elementos, cada um com um oposto:
- Gentileza consigo, em vez de julgamento. Falar consigo de forma calorosa quando as coisas dão errado, em vez de se criticar com dureza.
- Humanidade compartilhada, em vez de isolamento. Lembrar que errar e sofrer são experiências de todo mundo, e não prova de que só você é defeituosa.
- Atenção plena, em vez de se afogar no sentimento. Reconhecer a dor como ela é, sem fingir que não existe e sem deixar que ela tome tudo.
No mesmo ano, ela publicou uma escala pra medir a autocompaixão, que passou a ser usada em muitas pesquisas pelo mundo.
Autocompaixão não é autopiedade nem acomodação
Alguns mal-entendidos comuns:
- Não é autopiedade. Na autopiedade, a pessoa fica presa na própria dor e se sente a única a sofrer. A autocompaixão faz o caminho contrário: lembra que a dor é humana e compartilhada.
- Não é passar a mão na cabeça. Dá pra reconhecer que errou, assumir a responsabilidade e querer mudar, sem se humilhar no processo.
- Não é fraqueza nem egoísmo. Numa revisão de 2023, Neff discute pesquisas que contestam justamente esses mitos: que a autocompaixão seria fraca, egoísta, autoindulgente ou tiraria a motivação.
Sobre a motivação, há um estudo curioso. Juliana Breines e Serena Chen, em 2012, fizeram quatro experimentos. Pessoas estimuladas a ter autocompaixão depois de um erro mostraram mais vontade de reparar o que fizeram e passaram mais tempo estudando para uma prova depois de ir mal numa primeira. Ser gentil consigo, nesses estudos, aumentou a vontade de melhorar.
Autocompaixão e autoestima: qual a diferença
A autoestima costuma depender de avaliação: eu me sinto bem quando vou bem, quando sou elogiada, quando me acho melhor que alguém. Por isso ela oscila. A autocompaixão não exige que você esteja bem pra se tratar bem. Ela aparece justamente quando as coisas dão errado.
Num estudo de 2009 com mais de 2 mil pessoas, Neff e Roos Vonk encontraram que a autocompaixão estava ligada a um senso de valor próprio mais estável e menos dependente de resultados do que a autoestima. Ela também teve relação mais forte com menos comparação social e menos ruminação. Já a autoestima, e não a autocompaixão, apareceu associada ao narcisismo.
Se quiser entender melhor a autoestima, escrevi sobre o que é autoestima e sobre os sinais de autoestima baixa.
O que a pesquisa mostra
Uma meta-análise de Angus MacBeth e Andrew Gumley, de 2012, reuniu 20 amostras de 14 estudos e encontrou uma associação grande entre mais autocompaixão e menos sintomas de sofrimento psicológico. É uma associação, não prova de causa: não dá pra dizer só com isso que uma coisa provoca a outra.
Também existem programas pra treinar a autocompaixão. Num ensaio de Neff e Christopher Germer, de 2013, o programa Mindful Self-Compassion, de oito semanas, aumentou a autocompaixão, a atenção plena e o bem-estar em comparação com um grupo em lista de espera. Os ganhos se mantiveram depois de seis meses e de um ano. Era um grupo pequeno, de pouco mais de 50 pessoas.
Como praticar autocompaixão
Não precisa de técnica complicada. Algumas portas de entrada:
Repare em como você fala consigo
Na próxima vez que errar, escute a frase que vem. "Que burra." "Sempre estrago tudo." Só perceber já é um começo.
Pergunte o que diria a uma amiga
Se uma amiga chegasse com o mesmo problema, o que você diria? Tente dizer isso a si mesma, mesmo que soe artificial no início.
Nomeie a dor
"Isso está doendo." "Estou com medo." Dar nome ao que sente ajuda a não se afogar no sentimento e também a não fingir que ele não existe.
Lembre que não é só você
Muita gente já se sentiu assim. Não pra diminuir a sua dor, mas pra lembrar que ela não te separa do resto das pessoas.
Use o corpo
Pôr a mão no peito, respirar mais devagar, se dar um tempo. Gestos simples de cuidado ajudam o corpo a entender que você está do seu lado.
Por que é tão difícil ter autocompaixão
Pra quem cresceu ouvindo críticas, sendo comparada ou só sendo amada quando ia bem, a voz interna dura foi uma forma de se proteger: se eu me cobrar antes, ninguém vai me pegar desprevenida. Largar isso dá medo. Escrevi sobre essa voz em autoimagem e autocrítica e sobre a autoexigência.
A autocompaixão costuma ser aprendida em relação. Na terapia comigo, na abordagem centrada na pessoa, a aceitação que você recebe da terapeuta muitas vezes vira, com o tempo, um jeito novo de se tratar. Existe também uma abordagem que trabalha isso de forma estruturada, a terapia focada na compaixão, criada por Paul Gilbert. Quando for o caso, eu indico.
Este texto não é diagnóstico. Se quiser olhar pra sua crítica interna com calma, o teste de autoimagem do site pode ajudar.
Perguntas frequentes
O que é autocompaixão em poucas palavras?
É se tratar com gentileza quando as coisas dão errado, lembrar que sofrer faz parte de ser humana e reconhecer a dor sem se afogar nela.
Quem criou o conceito de autocompaixão?
A ideia de compaixão consigo vem de tradições antigas, como o budismo. Na psicologia, quem definiu e começou a medir a autocompaixão foi Kristin Neff, em artigos de 2003.
Autocompaixão é o mesmo que amor-próprio?
São parecidos, mas não iguais. Amor-próprio costuma ser usado de forma ampla. Autocompaixão é algo mais específico: como você se trata nos momentos de dor e de erro.
Autocompaixão deixa a pessoa acomodada?
As pesquisas apontam o contrário. Nos experimentos de Breines e Chen, a autocompaixão depois de um erro aumentou a vontade de melhorar.
Dá pra aprender autocompaixão?
Dá. Ela pode ser praticada no dia a dia, e existem programas e terapias que trabalham isso. Pra quem tem uma autocrítica muito antiga, costuma ajudar ter acompanhamento.
Referências
- Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101. doi.org/10.1080/15298860309032
- Neff, K. D. (2003). The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity, 2(3), 223-250. doi.org/10.1080/15298860309027
- Neff, K. D. & Vonk, R. (2009). Self-compassion versus global self-esteem: Two different ways of relating to oneself. Journal of Personality, 77(1), 23-50. doi.org/10.1111/j.1467-6494.2008.00537.x
- Breines, J. G. & Chen, S. (2012). Self-compassion increases self-improvement motivation. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(9), 1133-1143. doi.org/10.1177/0146167212445599
- MacBeth, A. & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. doi.org/10.1016/j.cpr.2012.06.003
- Neff, K. D. & Germer, C. K. (2013). A pilot study and randomized controlled trial of the mindful self-compassion program. Journal of Clinical Psychology, 69(1), 28-44. doi.org/10.1002/jclp.21923
- Neff, K. D. (2023). Self-compassion: Theory, method, research, and intervention. Annual Review of Psychology, 74, 193-218. doi.org/10.1146/annurev-psych-032420-031047
Você não precisa merecer a própria gentileza. Ela costuma fazer mais falta justamente nos dias em que você acha que não merece.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de autoimagem pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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