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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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AutoimagemTema: Outros textos06 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Etarismo: o que é, exemplos e como o preconceito de idade afeta as mulheres

Etarismo é o preconceito por idade. Veja o que é, exemplos do dia a dia, o que diz a lei no Brasil, como ele pesa sobre as mulheres e o medo de envelhecer.


Etarismo é o preconceito e a discriminação por causa da idade. Também é chamado de idadismo ou, em inglês, ageism. Ele aparece em estereótipos ("velho não aprende", "isso não é roupa pra sua idade"), em sentimentos (desprezo, pena, impaciência) e em atitudes (não contratar, não promover, falar com a pessoa como se ela fosse criança). Atinge pessoas mais velhas com mais frequência, mas pode atingir jovens também. E costuma pesar mais sobre as mulheres. No Brasil, discriminar a pessoa idosa é crime previsto no Estatuto da Pessoa Idosa.

Escrevo sobre isso porque o etarismo não fica só do lado de fora. Ele entra. Muitas mulheres que atendo têm medo de envelhecer muito antes de envelhecer, e esse medo foi aprendido.

O que é etarismo

O termo ageism foi criado pelo psiquiatra americano Robert Butler, num artigo de 1969, pra nomear um preconceito que ele via contra pessoas idosas, parecido com o racismo e o sexismo.

Em 2021, a Organização Mundial da Saúde e outras agências da ONU lançaram o Relatório Global sobre o Idadismo. O relatório estima que uma em cada duas pessoas no mundo tem atitudes etaristas em relação a pessoas mais velhas. Ele também associa o etarismo a pior saúde física e mental, mais isolamento e solidão, pior qualidade de vida e morte mais cedo.

A OMS descreve três formas:

  • Estereótipos: o que a gente pensa sobre uma idade.
  • Preconceito: o que a gente sente.
  • Discriminação: o que a gente faz.

E três níveis: o institucional (leis, regras de empresas, serviços), o interpessoal (entre pessoas) e o autodirigido, quando a pessoa aplica esses estereótipos a si mesma.

Etarismo exemplos

Alguns exemplos do dia a dia:

  • Vaga de emprego que pede "perfil jovem".
  • Ser deixada de fora de treinamentos ou promoções por "estar perto de se aposentar".
  • Médico que atribui qualquer queixa à idade sem investigar.
  • Falar alto, devagar ou no diminutivo com uma pessoa idosa que ouve e entende bem.
  • Piadas sobre "velha", "coroa", "passou do prazo".
  • Comentários como "você está ótima pra sua idade".
  • Decidir pela pessoa idosa sem perguntar o que ela quer.
  • No sentido contrário, desqualificar alguém por ser jovem demais.

O etarismo que a gente aplica em si mesma

Esse é o que mais aparece no consultório. "Estou velha demais pra mudar de carreira." "Não tenho mais idade pra isso." "Ninguém vai me querer depois dos 50." São frases que a pessoa ouviu a vida toda e passou a repetir pra si.

A pesquisadora Becca Levy, de Yale, estuda isso há décadas. Num estudo de 2002, ela e colegas acompanharam 660 pessoas com 50 anos ou mais por até 23 anos. Quem tinha uma visão mais positiva sobre o próprio envelhecimento viveu, em média, 7,5 anos a mais do que quem tinha uma visão mais negativa, mesmo levando em conta idade, sexo, nível socioeconômico, solidão e saúde.

Numa revisão de 2020 com 422 estudos de 45 países, que teve Levy entre as autoras, a equipe encontrou que o etarismo esteve associado a piores desfechos de saúde em 95,5% dos estudos, inclusive depressão.

Etarismo é crime?

No Brasil, a Lei 10.741/2003, hoje chamada Estatuto da Pessoa Idosa (nome dado pela Lei 14.423/2022), protege pessoas com 60 anos ou mais. O artigo 96 tipifica como crime discriminar a pessoa idosa, impedindo ou dificultando o acesso dela a operações bancárias, transporte, contratos ou outros meios de exercer a cidadania, por causa da idade. A pena prevista é reclusão de seis meses a um ano e multa. O mesmo artigo vale pra quem desdenhar, humilhar ou menosprezar a pessoa idosa.

Pra quem tem menos de 60 anos, a discriminação por idade no trabalho também pode ser questionada, com base em outras normas. Pra saber o que se aplica ao seu caso, o caminho é falar com uma advogada ou com a Defensoria Pública. Denúncias de violência contra a pessoa idosa podem ser feitas pelo Disque 100.

Envelhecimento feminino e o duplo padrão

Em 1972, a escritora Susan Sontag publicou um ensaio chamado The Double Standard of Aging, o duplo padrão do envelhecimento. A ideia central: a sociedade costuma ver o homem que envelhece como mais experiente e interessante, e a mulher que envelhece como alguém que está perdendo valor. Mais de 50 anos depois, a frase ainda descreve muita coisa.

Na prática, isso aparece como:

  • Cobrança sobre a aparência muito mais cedo e muito mais forte. Ruga, cabelo branco, corpo depois da gravidez, tudo vira "problema".
  • Invisibilidade. Muitas mulheres contam que, a partir de certa idade, sentem que deixaram de ser vistas, no trabalho, na rua, nas relações.
  • Carreira. A mulher é vista como "nova demais" pra cargos de liderança e, pouco depois, como "velha demais".
  • Menopausa como tabu. Um processo natural tratado como fim. Escrevi sobre o lado emocional em menopausa e emoções.
  • Comparação nas redes, com filtros e procedimentos que fazem a pele real parecer erro. Falo disso em comparação nas redes.

Medo de envelhecer

O medo de envelhecer mistura coisas diferentes. Medo de adoecer, de depender dos outros, de perder a beleza, de ficar sozinha, de morrer. Também medo de deixar de ser desejada, respeitada ou ouvida.

Parte desse medo é humana. A finitude assusta, e escrevi sobre isso em crise existencial. Outra parte é aprendida com o etarismo. Ajuda separar as duas:

  • O que exatamente me assusta? Dor, dependência, solidão, aparência?
  • De onde veio essa ideia? Da minha mãe, da minha avó, da TV, do Instagram?
  • Que mulheres mais velhas eu admiro? O que elas mostram que é possível?
  • O que eu posso cuidar agora? Saúde, vínculos, finanças, projetos.

Às vezes o medo de envelhecer aparece forte em fases de virada, como a crise dos 40 ou a saída dos filhos de casa, a síndrome do ninho vazio. Às vezes aparece quando os pais envelhecem, como contei em meu pai envelheceu e eu não vi.

Como lidar com o etarismo

Nomear. Perceber quando uma frase, uma regra ou um olhar é etarista já muda a forma como ele te atinge.

Observar a própria fala. "Tô velha pra isso" é uma frase que vale questionar.

Buscar referências. Mulheres mais velhas vivendo de jeitos diversos ampliam o que parece possível.

Cuidar dos vínculos. Amizades entre gerações fazem bem pros dois lados.

Se proteger. Em situações de discriminação no trabalho ou em serviços, registrar o que aconteceu e procurar orientação.

Quando procurar terapia

Se o medo de envelhecer, a sensação de invisibilidade ou a crítica à própria aparência estiverem tomando muito espaço, a terapia pode ajudar. Muitas vezes o trabalho é olhar pra uma autoimagem construída a partir do olhar dos outros. Escrevi sobre isso em autoimagem e autocrítica.

Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, que parte do que você sente e valoriza, sem julgamento. Envelhecer com mais liberdade costuma passar por isso.

Este texto não é diagnóstico. Se você quiser olhar pra forma como se vê, o teste de autoimagem pode ser um primeiro passo.

Perguntas frequentes

O que significa etarismo?

É o preconceito e a discriminação com base na idade. Pode vir em estereótipos, sentimentos ou atitudes, contra outras pessoas ou contra si mesma.

Etarismo e idadismo são a mesma coisa?

Sim. São duas palavras usadas em português pro mesmo fenômeno, que em inglês se chama ageism. A Organização Pan-Americana da Saúde, nos documentos em português, usa idadismo.

Etarismo é crime no Brasil?

Discriminar pessoa idosa (60 anos ou mais) é crime previsto no artigo 96 do Estatuto da Pessoa Idosa. Pra outras situações, procure orientação jurídica.

Etarismo afeta a saúde mental?

Sim. Estudos associam o etarismo a mais depressão, isolamento e solidão, e a visão negativa sobre o próprio envelhecimento a pior saúde ao longo dos anos.

Como perder o medo de envelhecer?

O medo talvez não suma de vez, mas pode diminuir. Ajuda entender do que exatamente você tem medo, questionar ideias herdadas, buscar referências de mulheres mais velhas e cuidar do presente. Se o medo estiver muito forte, a terapia é um bom lugar pra isso.

Etarismo atinge só pessoas idosas?

Não. Atinge com mais frequência pessoas mais velhas, mas jovens também sofrem preconceito por idade, por exemplo quando são desacreditadas no trabalho.

Se estiver muito pesado

Se o medo de envelhecer ou a solidão vierem junto com desesperança ou pensamentos de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas pelo 188 ou em cvv.org.br. Reuni outros contatos em ajuda agora.

Referências

  • World Health Organization. (2021). Global report on ageism. who.int
  • Butler, R. N. (1969). Age-ism: Another form of bigotry. The Gerontologist, 9(4), 243-246. doi.org/10.1093/geront/9.4_Part_1.243
  • Levy, B. R., Slade, M. D., Kunkel, S. R. & Kasl, S. V. (2002). Longevity increased by positive self-perceptions of aging. Journal of Personality and Social Psychology, 83(2), 261-270. doi.org/10.1037/0022-3514.83.2.261
  • Chang, E.-S., Kannoth, S., Levy, S., Wang, S.-Y., Lee, J. E. & Levy, B. R. (2020). Global reach of ageism on older persons' health: A systematic review. PLOS ONE, 15(1), e0220857. doi.org/10.1371/journal.pone.0220857
  • Sontag, S. (1972, 23 de setembro). The double standard of aging. The Saturday Review, 29-38.
  • Brasil. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Estatuto da Pessoa Idosa. planalto.gov.br

Envelhecer não é perder o direito de ser vista. É continuar sendo alguém, com mais história.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

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Fernanda Pessoa Ferro

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Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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