Coração partido: por que a dor de amor dói tanto e como atravessar
Coração partido é a dor que vem depois de uma desilusão amorosa. Entenda por que a dor de amor pesa no corpo, o que é a síndrome do coração partido e quando pedir ajuda.
Coração partido é o nome que a gente dá pra dor que vem depois de perder um amor: um término, uma traição, uma pessoa que não quis ficar, uma relação que acabou antes de começar. Não é exagero nem fraqueza. As pesquisas mostram que a rejeição amorosa mexe com áreas do cérebro ligadas à dor física e à recompensa, e por isso ela pesa no corpo, no sono e na concentração. Na maioria das vezes essa dor diminui com o tempo e com cuidado. Quando ela não se move, vale pedir ajuda.
Recebo muita mulher que chega pedindo desculpa por estar sofrendo "só" por causa de um homem, ou de uma mulher, ou de uma relação curta. Como se a dor precisasse de autorização pra existir.
Não precisa. Se doeu, foi importante.
O que é coração partido
Coração partido não é um diagnóstico. É uma expressão popular pra um estado muito real: tristeza intensa, saudade que aperta, dificuldade de pensar em outra coisa, vontade de mandar mensagem, raiva, culpa, às vezes tudo no mesmo dia.
Ele aparece depois de perdas diferentes:
- o fim de um namoro ou de um casamento;
- uma traição descoberta;
- uma pessoa que se afastou sem explicar;
- um amor que nunca foi correspondido;
- um relacionamento que você mesma terminou, mas que ainda faz falta.
Esse último costuma confundir. Ter escolhido sair não impede de sofrer. Dá pra saber que foi certo e mesmo assim perder algo que importava.
Dor de amor dói no corpo?
Dói, e não é só jeito de falar. Num estudo de 2011, Ethan Kross e colegas pediram a pessoas que tinham passado por um término indesejado pra olhar a foto do ex enquanto pensavam na rejeição. As áreas do cérebro que processam a parte sensorial da dor física também ficaram ativas.
Outra pesquisa, de Helen Fisher e colegas (2010), olhou o cérebro de pessoas recém-rejeitadas que ainda se diziam muito apaixonadas. Apareceu atividade em regiões ligadas a recompensa, desejo intenso e regulação das emoções, as mesmas que aparecem em estudos sobre vício. Os autores sugerem que isso ajuda a explicar o comportamento obsessivo que muita gente tem depois de levar um fora: olhar o perfil da pessoa de novo e de novo, reler conversas, procurar sinais.
Isso não quer dizer que você está viciada em alguém. Quer dizer que a vontade de voltar, de saber, de checar, tem uma base no corpo. Ela não é falta de caráter.
No dia a dia, a dor de amor costuma aparecer assim:
- aperto no peito ou nó na garganta;
- falta de apetite, ou fome fora de hora;
- sono picado, acordar de madrugada pensando na pessoa;
- cansaço e dificuldade de se concentrar;
- choro que vem sem aviso, no ônibus, no banho, no meio do trabalho.
Síndrome do coração partido existe?
Existe, e é outra coisa. A síndrome do coração partido é o nome popular da cardiomiopatia de Takotsubo, uma alteração no músculo do coração que pode aparecer depois de um estresse emocional ou físico muito forte. Ela imita um infarto, com dor no peito e falta de ar.
Num estudo publicado em 2005 por Ilan Wittstein e colegas, com 19 pacientes, 95% eram mulheres, a idade mediana era 63 anos, e a função do coração se recuperou em poucas semanas em todos os casos. Os pesquisadores encontraram níveis muito altos de adrenalina e de outros hormônios do estresse no sangue.
É um quadro raro e médico, não psicológico. Se você sentir dor forte no peito, falta de ar ou desmaio, procure um pronto-socorro na hora. Não espere pra ver se é "só emocional".
Desilusão amorosa e decepção amorosa: qual a diferença
Na prática, as duas palavras são usadas como sinônimo. Eu gosto de pensar numa diferença pequena, que ajuda a entender o que está doendo.
Decepção amorosa costuma falar de alguém que fez algo que você não esperava. Mentiu, traiu, sumiu, mostrou um lado que você não conhecia. A dor vem misturada com raiva e com a sensação de ter sido enganada.
Desilusão amorosa fala mais da perda de uma ideia. Você tinha uma imagem da pessoa, da relação ou do futuro, e essa imagem desmontou. Às vezes a pessoa nem fez nada de errado. Só não era quem você imaginava, ou não quis o mesmo que você.
Muitas vezes as duas vêm juntas. E vale olhar pra cada uma, porque a decepção pede que você reconheça o que foi feito com você, e a desilusão pede que você se despeça de um sonho.
Por que a desilusão amorosa ocupa tanto a cabeça
Quando uma relação acaba, não some só a pessoa. Some a rotina, os planos, o jeito de dividir o dia, às vezes os amigos em comum, às vezes a casa. Uma pesquisa de Slotter e colegas (2010) mostrou que, depois de um término, muita gente fica com a sensação de não saber direito quem é, e que essa confusão sobre si mesma se ligou a mais sofrimento.
Por isso eu chamo esse processo de luto de relacionamento. Não é exagero usar a palavra luto. Você está se despedindo de uma parte da vida.
E a cabeça, nesse luto, tenta resolver o que não tem solução. Ela repassa a última conversa, procura o momento em que deu errado, imagina o que teria acontecido se você tivesse dito outra coisa. Esse looping tem nome: ruminação. Ele dá a impressão de que você está entendendo, mas muitas vezes só gasta energia.
Como cuidar de um coração partido
Não existe atalho, e eu desconfio de quem promete um. Existem cuidados que costumam ajudar a dor a se mover.
Deixe a tristeza ter lugar. Engolir o choro pra parecer bem costuma adiar a dor, não diminuir. Chorar, escrever, falar com alguém de confiança ajudam o corpo a descarregar.
Diminua o contato com o que reabre a ferida. Marshall (2012) estudou 464 pessoas e viu que quem continuava vigiando o perfil do ex no Facebook tinha mais sofrimento pelo término, mais saudade e menos crescimento pessoal. Silenciar, arquivar ou deixar de seguir não é infantil. É proteção.
Cuide do básico. Comer, dormir, tomar banho de sol, mexer o corpo. Parece pouco, mas a dor de amor derruba justamente essas coisas, e sem elas tudo pesa mais.
Conte a história de novo, com calma. Larson e Sbarra (2015) acompanharam 210 jovens adultos depois de um término. Quem participou de quatro encontros de avaliação ao longo de nove semanas, voltando várias vezes a pensar e falar sobre a separação, recuperou mais a clareza sobre quem era, e isso se ligou a menos pensamentos invasivos e menos solidão. Falar sobre o término com intenção, e não só repetir a mesma cena, pode ajudar.
Lembre de quem você era antes e de quem quer ser agora. Retomar uma amizade, um hobby, um lugar que era seu. Não pra provar nada pra ninguém. Pra você se reencontrar.
Escrevi mais sobre o passo a passo em como superar um término e sobre o pensamento que não sai em como esquecer alguém.
Quanto tempo dura um coração partido
Não tem prazo. Depende de quanto tempo durou a relação, de como acabou, do que mais está acontecendo na sua vida, do apoio que você tem.
O que costuma acontecer é a dor mudar de forma antes de mudar de tamanho. Primeiro ela ocupa o dia inteiro. Depois vira ondas. Depois as ondas ficam mais espaçadas. Datas, músicas e lugares podem trazer uma onda forte meses depois, e isso não quer dizer que você voltou pro começo.
Quando a dor de amor pede ajuda
Sofrer por amor é humano. Mas alguns sinais mostram que a dor parou de se mover ou virou outra coisa:
- meses se passaram e você ainda não consegue trabalhar, dormir ou ver gente;
- a tristeza tomou tudo, e nada mais dá prazer;
- você se culpa o tempo todo e acha que não merece ser amada;
- você continua presa a alguém que te tratava mal e não consegue se afastar;
- a vida inteira está organizada em torno de evitar lembranças ou de esperar a pessoa voltar.
Quando a tristeza vira constante e atinge a forma como você se vê, pode ser depressão, e vale uma avaliação. Escrevi sobre essa diferença em luto ou depressão.
Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa. Na terapia, a gente não apressa a dor nem dá conselho sobre voltar ou não voltar. A gente olha com calma pro que essa perda levou de você e pro que ficou. Este texto não é diagnóstico, é um convite pra você se escutar.
Perguntas frequentes
Coração partido tem cura?
A dor de um coração partido costuma diminuir com o tempo, com cuidado e com apoio. Eu não prometo prazo nem fórmula. O que vejo é que, quando a pessoa consegue falar da perda e voltar a cuidar de si, a dor vai abrindo espaço pra vida de novo.
É normal sentir dor física depois de um término?
É comum. Aperto no peito, nó na garganta, falta de apetite e cansaço aparecem muito. As pesquisas mostram que a rejeição ativa áreas ligadas à dor física. Mas dor forte no peito com falta de ar precisa de avaliação médica na hora.
Por que eu não consigo parar de olhar o perfil da pessoa?
Porque a rejeição ativa no cérebro os sistemas de recompensa e de desejo intenso. Checar dá um alívio rápido e depois a dor volta maior. Silenciar ou deixar de seguir por um tempo costuma ajudar.
Dá pra ter coração partido sem nunca ter namorado a pessoa?
Dá. Um amor que não foi correspondido também é perda, às vezes de um futuro que só existia na sua cabeça, mas que era importante. Escrevi sobre isso em amor não correspondido.
Sofrer por amor é sinal de dependência emocional?
Não necessariamente. Sofrer depois de perder alguém é esperado. A dependência emocional é um padrão que se repete nas relações, em que a pessoa sente que não consegue existir sem o outro, mesmo quando a relação faz mal.
Se estiver muito pesado
Se a dor vier junto com vontade de sumir, desesperança ou pensamentos de se machucar, não espere passar. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Reuni outros caminhos em ajuda agora.
Referências
- Kross, E., Berman, M. G., Mischel, W., Smith, E. E. & Wager, T. D. (2011). Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proceedings of the National Academy of Sciences, 108(15), 6270-6275. doi.org/10.1073/pnas.1102693108
- Fisher, H. E., Brown, L. L., Aron, A., Strong, G. & Mashek, D. (2010). Reward, addiction, and emotion regulation systems associated with rejection in love. Journal of Neurophysiology, 104(1), 51-60. doi.org/10.1152/jn.00784.2009
- Wittstein, I. S. et al. (2005). Neurohumoral features of myocardial stunning due to sudden emotional stress. New England Journal of Medicine, 352(6), 539-548. doi.org/10.1056/NEJMoa043046
- Slotter, E. B., Gardner, W. L. & Finkel, E. J. (2010). Who am I without you? The influence of romantic breakup on the self-concept. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(2), 147-160. doi.org/10.1177/0146167209352250
- Marshall, T. C. (2012). Facebook surveillance of former romantic partners: Associations with postbreakup recovery and personal growth. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 15(10), 521-526. doi.org/10.1089/cyber.2012.0125
- Larson, G. M. & Sbarra, D. A. (2015). Participating in research on romantic breakups promotes emotional recovery via changes in self-concept clarity. Social Psychological and Personality Science, 6(4), 399-406. doi.org/10.1177/1948550614563085
Um coração partido não é prova de que você amou errado. É prova de que você amou. E quem amou também pode, aos poucos, voltar a caber na própria vida.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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