Como superar um término: o que ajuda depois do fim de um relacionamento
Como superar um término sem se cobrar prazo. O que a pesquisa diz sobre contato zero, voltar com o ex, a sensação de não saber quem você é e quando o fim de relacionamento pede terapia.
Superar um término é atravessar um luto: a dor diminui quando você deixa a tristeza existir, se afasta do que reabre a ferida e vai reconstruindo uma rotina e um jeito de se ver que não dependem mais da relação. Não tem prazo certo. O que costuma ajudar é diminuir o contato com o ex por um tempo, cuidar do corpo, falar sobre o que aconteceu e lembrar quem você é fora daquele "nós". Quando meses passam e nada se move, a terapia pode ajudar.
Muita gente me pergunta quanto tempo vai demorar. Entendo a pergunta. Quando dói muito, a gente quer saber quando acaba.
Mas o fim de um relacionamento não segue calendário. Ele segue o tamanho do que foi perdido.
Fim de relacionamento é luto
Quando uma relação acaba, você não perde só uma pessoa. Perde a rotina, o "bom dia" de todo dia, os planos que tinham data, o lugar na família do outro, às vezes a casa, os amigos em comum, o cachorro. Perde também uma versão sua que só existia ali.
Por isso o cansaço costuma ser maior do que a saudade explicaria. Eu chamo esse processo de luto de relacionamento. Chamar pelo nome ajuda a parar de se cobrar por estar sofrendo "demais".
E tem uma diferença em relação ao luto por morte: a pessoa continua viva, às vezes a um clique de distância. Isso deixa a pergunta "e se ainda der?" aberta, e é justamente essa pergunta que atrasa o fechamento.
Fases do término
Você vai encontrar listas com cinco, sete, dez fases do término. Elas podem ajudar a reconhecer o que você sente, mas eu não levaria ao pé da letra. O próprio modelo das fases do luto, criado pra pensar a morte, hoje é visto como um retrato de emoções possíveis, não uma ordem obrigatória.
O que eu observo no consultório é uma mistura que vai e volta:
- choque e negação: "isso não está acontecendo", vontade de resolver na hora;
- busca: checar o perfil, reler conversas, procurar sinais de arrependimento;
- raiva: do outro, de você, de quem sabia e não contou;
- barganha: "se eu mudar isso, ele volta";
- tristeza funda: quando cai a ficha de que acabou;
- reorganização: a vida volta a ter outros assuntos.
Dá pra passar por várias no mesmo dia. Dá pra voltar pra raiva depois de semanas de calma. Isso não é regressão. É o jeito do luto.
Contato zero funciona?
Contato zero é a ideia de cortar toda comunicação com o ex por um período: não mandar mensagem, não responder, não seguir nas redes. Não existe um estudo que prove um número mágico de dias. Mas existe pesquisa que ajuda a entender por que afastar costuma fazer bem.
Marshall (2012) estudou 464 pessoas depois de um término. Quem continuava vigiando o Facebook do ex tinha mais sofrimento, mais saudade, mais desejo pela pessoa e menos crescimento pessoal, mesmo levando em conta o contato fora da internet. O estudo sugere que ficar exposta ao ex atrapalha o processo de seguir em frente.
Eu penso no contato zero como uma proteção, não como estratégia pra fazer o outro sentir sua falta. Se a ideia é "ficar sem falar pra ele voltar", você continua organizando a vida em torno dele.
Na prática, pode ser:
- silenciar ou deixar de seguir, sem precisar bloquear se isso parecer demais;
- arquivar as conversas pra não reler à noite;
- pedir pra uma amiga segurar o celular quando bater a vontade;
- combinar com você mesma um tempo, por exemplo um mês, e reavaliar depois.
Quando há filhos, bens ou trabalho em comum, contato zero não é possível. Aí o caminho é o contato mínimo: falar só do necessário, por escrito quando der, sem entrar em assuntos da relação.
Vale a pena voltar com o ex?
Depende do motivo do fim e do que mudou. Às vezes uma separação mostra pros dois o que precisava ser cuidado, e a volta acontece em outro lugar. Muitas vezes, a volta é só uma forma de parar a dor do término, e os mesmos problemas aparecem de novo.
René Dailey e colegas (2009) estudaram relacionamentos do tipo "vai e volta" com universitários americanos. Quase dois terços já tinham vivido uma relação assim. Comparados a casais que nunca tinham terminado, os casais que iam e voltavam relataram menos coisas boas, como amor e compreensão, e mais coisas ruins, como problemas de comunicação e incerteza. E quanto mais vezes voltavam, mais o lado negativo pesava.
Algumas perguntas que eu faria antes de voltar com o ex:
- O que fez a relação acabar foi conversado, ou só ficou pra trás?
- Eu quero essa pessoa, ou quero parar de sentir essa dor?
- Algo concreto mudou, dele e meu, ou só a saudade aumentou?
- Eu tinha medo, me sentia diminuída, pisava em ovos?
Se a resposta da última pergunta for sim, vale ler sobre sinais de relacionamento abusivo antes de decidir. E saudade do ex não é prova de que ele era a pessoa certa. Saudade é prova de que ele fez parte da sua vida.
Quem eu sou sem essa relação?
Essa é uma das perguntas mais difíceis depois de um término longo. Slotter e colegas (2010) mostraram, em três estudos, que muita gente sente a própria identidade embaralhar depois de terminar. Quanto menor a clareza sobre si, maior o sofrimento.
Faz sentido. Numa relação, a gente divide amigos, gostos, hábitos, até o jeito de falar. Quando acaba, você precisa separar o que era seu do que era do casal.
Isso pode ser feito aos poucos:
- retomar algo que você deixou de fazer durante a relação;
- perceber de que você gosta quando não precisa negociar com ninguém;
- trocar o "a gente" por "eu" quando contar a sua história.
Grace Larson e David Sbarra (2015) acompanharam 210 jovens adultos recém-separados. Quem voltou várias vezes a pensar e falar sobre o término, ao longo de nove semanas, recuperou mais a clareza sobre si, e isso se ligou a menos pensamentos invasivos e menos solidão. Contar a história com calma, pra uma amiga, num diário ou na terapia, ajuda a organizá-la.
Quando o término também é alívio
Nem todo fim é só perda. Lewandowski e Bizzoco (2007) estudaram pessoas que saíram de relações de baixa qualidade, em que pouco se crescia junto. Depois do término, muitas relataram alívio, calma, mais energia e a sensação de se reencontrar.
Se você sente alívio e tristeza ao mesmo tempo, as duas coisas são verdade. Alívio não quer dizer que você não amava. Tristeza não quer dizer que você errou ao sair.
Como superar um término de namoro ou um divórcio
O caminho emocional se parece, mas o divórcio costuma vir com mais camadas: filhos, casa, dinheiro, família, às vezes processo na justiça. Superar um divórcio pede espaço pra elaborar a dor enquanto você resolve coisas práticas que não esperam.
Alguns cuidados valem pros dois casos:
- Diga pra você mesma o que aconteceu, com clareza. "A gente terminou" em vez de "estamos dando um tempo", quando já não é tempo.
- Proteja a rotina básica. Sono, comida, movimento. A dor derruba isso primeiro.
- Escolha com quem falar. Gente que escuta sem te empurrar pra "já passou" nem pra "volta com ele".
- Cuidado com as decisões grandes no calor da dor. Mudar de cidade, cortar o cabelo inteiro, entrar numa relação nova no dia seguinte. Não é proibido, mas vale perguntar pra quem você está fazendo isso.
- Aceite as recaídas. Uma música no mercado pode te derrubar meses depois. Isso faz parte.
Se o que mais pesa é o pensamento que não sai, escrevi em como esquecer alguém. Se você ainda está na dúvida se deve terminar, leia como terminar um relacionamento.
Quanto tempo dura a dor do término
Não existe um número confiável. Depende do tempo de relação, de como acabou, se houve traição, se você escolheu ou não, do que mais está acontecendo na sua vida e da rede de apoio que você tem.
Um sinal de que a dor está se movendo é ela mudar de forma: deixar de ocupar o dia inteiro e virar ondas, que vão ficando mais espaçadas. Um sinal de que ela travou é ficar meses no mesmo ponto, sem nenhuma mudança.
Quando procurar terapia depois de um término
Vale procurar ajuda quando:
- meses se passaram e você não consegue trabalhar, dormir ou ver gente;
- a tristeza virou constante e nada mais dá prazer;
- você se pega repetindo o mesmo tipo de relação, sempre com o mesmo final;
- você não consegue se afastar de alguém que te faz mal;
- vem vontade de sumir ou de se machucar.
Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa. A terapia, nesse momento, é um lugar pra você falar da perda sem ser apressada e sem receber julgamento sobre voltar ou não voltar. Quando há sinais de depressão ou outro quadro que pede outro tipo de tratamento, eu encaminho. Este texto não é diagnóstico. Se quiser olhar pra sua dor com mais calma, o teste de luto pode ser um ponto de partida.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva pra superar um término?
Não existe prazo. Relações longas, términos inesperados e perdas que vêm junto, como casa ou amigos, costumam pedir mais tempo. Comparar o seu ritmo com o de outras pessoas, ou com o do ex, costuma atrasar.
Contato zero é manipulação?
Depende da intenção. Se o objetivo é se proteger e dar espaço pra dor baixar, é cuidado com você. Se o objetivo é fazer o outro sentir falta e voltar, você continua presa à relação, só que em silêncio.
É normal ainda amar o ex depois de muito tempo?
É comum sentir carinho ou saudade por alguém que fez parte da sua história. Isso muda de forma com o tempo. Quando o amor pelo ex ainda impede você de viver, vale olhar pra isso com ajuda.
Por que é tão difícil superar quem me fez mal?
Porque relações com idas e vindas, carinho e frieza alternados, criam um laço muito forte. Não é falta de amor-próprio. Se você se reconhece nisso, leia sobre dependência emocional.
Ficar com outra pessoa ajuda a esquecer?
Pode distrair, mas não substitui o luto. Às vezes ajuda a perceber que a vida continua. Às vezes só adia a dor. Vale se perguntar se você está escolhendo alguém ou fugindo de sentir.
Se estiver muito pesado
Se o término vier junto com vontade de sumir, desesperança ou pensamentos de se machucar, procure ajuda hoje. O CVV atende 24 horas, de graça, pelo 188 ou em cvv.org.br. Se a relação tinha violência e você não se sente segura, o Ligue 180 orienta mulheres. Mais caminhos em ajuda agora.
Referências
- Marshall, T. C. (2012). Facebook surveillance of former romantic partners: Associations with postbreakup recovery and personal growth. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, 15(10), 521-526. doi.org/10.1089/cyber.2012.0125
- Dailey, R. M., Pfiester, A., Jin, B., Beck, G. & Clark, G. (2009). On-again/off-again dating relationships: How are they different from other dating relationships? Personal Relationships, 16(1), 23-47. doi.org/10.1111/j.1475-6811.2009.01208.x
- Slotter, E. B., Gardner, W. L. & Finkel, E. J. (2010). Who am I without you? The influence of romantic breakup on the self-concept. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(2), 147-160. doi.org/10.1177/0146167209352250
- Larson, G. M. & Sbarra, D. A. (2015). Participating in research on romantic breakups promotes emotional recovery via changes in self-concept clarity. Social Psychological and Personality Science, 6(4), 399-406. doi.org/10.1177/1948550614563085
- Lewandowski, G. W. & Bizzoco, N. M. (2007). Addition through subtraction: Growth following the dissolution of a low quality relationship. The Journal of Positive Psychology, 2(1), 40-54. doi.org/10.1080/17439760601069234
Superar um término não é apagar a história. É conseguir contar essa história sem que ela decida, sozinha, como vai ser o resto da sua vida.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de luto pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
Conversa sobre este texto
Se algo aqui te tocou, ou ficou uma dúvida, pode escrever. Eu leio tudo.
Pra continuar lendo
Se você chegou aqui procurando ajuda pra algo específico, tem caminho mais direto que continuar lendo.
