Como saber se tenho altas habilidades: sinais em adultos
Como saber se tenho altas habilidades/superdotação sendo adulta? Sinais, mitos, a relação com TDAH e autismo e por que teste online não identifica AH/SD.
Pra saber se você tem altas habilidades/superdotação (AH/SD), o caminho é uma avaliação psicológica ou neuropsicológica, feita por psicóloga com experiência no tema, que junta entrevista, a sua história desde a infância e instrumentos aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia. Teste online não identifica AH/SD. Antes da avaliação, dá pra observar alguns sinais: facilidade fora do comum em uma ou mais áreas, curiosidade intensa, envolvimento profundo com o que te interessa e um jeito criativo de resolver problemas, presentes desde cedo.
Muita gente chega a essa pergunta na vida adulta. Às vezes depois que um filho foi identificado. Às vezes por se sentir diferente a vida inteira sem saber explicar. Às vezes porque alguém comentou "você deve ser superdotada" e a frase ficou.
O que são altas habilidades/superdotação
No Brasil, o termo usado pelo MEC é altas habilidades/superdotação, com a barra mesmo. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, descreve essas pessoas como quem mostra potencial elevado em uma ou mais áreas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes. A política também fala de criatividade alta e de grande envolvimento com a aprendizagem e com as tarefas que interessam.
Repara que a lista não fala só de inteligência no sentido de prova escolar. Uma pessoa pode ter AH/SD na música, no esporte, na liderança, na escrita.
AH/SD não é doença nem transtorno. Não tem código na CID e não é algo que se "trata". É um jeito de funcionar, que pode trazer facilidades e também desencontros com o ambiente.
O modelo dos três anéis, de Renzulli
Um dos modelos mais usados no Brasil pra pensar AH/SD é o do pesquisador norte-americano Joseph Renzulli, publicado em 1978. Ele propõe que o comportamento superdotado aparece no encontro de três coisas:
- Habilidade acima da média em alguma área. Acima da média, e não necessariamente genial.
- Envolvimento com a tarefa. A motivação, a persistência, a capacidade de mergulhar fundo num assunto por muito tempo.
- Criatividade. Originalidade, curiosidade, vontade de fazer diferente do que já está posto.
Pra Renzulli, é a interação desses três anéis, junto com o ambiente, que faz a diferença. Por isso ele fala mais em comportamentos superdotados do que em uma etiqueta fixa.
Também aparece bastante a ideia de inteligências múltiplas, de Howard Gardner, pra lembrar que existem várias formas de ser muito capaz. Ela ajuda a ampliar o olhar, mas não é um método de identificação.
Sinais de altas habilidades em adultos
Alguns pontos que costumam aparecer na história de adultos com AH/SD. Nenhum deles, sozinho, quer dizer nada.
- Aprender rápido, às vezes com pouca explicação, e se entediar com repetição.
- Curiosidade que não desliga. Perguntas em cima de perguntas, vontade de entender como as coisas funcionam por dentro.
- Interesses intensos, em que você mergulha por meses ou anos.
- Pensamento que faz ligações inesperadas entre assuntos distantes.
- Vocabulário ou raciocínio que chamavam atenção na infância.
- Senso de justiça forte e incômodo grande com incoerência.
- Autoexigência alta, perfeccionismo, dificuldade com o "bom o suficiente".
- Sensação antiga de não se encaixar, de conversar em outra frequência.
- Intensidade emocional, sentir as coisas com muita força.
Vários desses sinais também aparecem em TDAH, em autismo, em ansiedade ou em quem é altamente sensível. Se a intensidade emocional te chamou atenção, escrevi sobre pessoa altamente sensível, que é outra coisa, mas às vezes se mistura.
Mitos sobre altas habilidades
"Superdotado tem QI acima de 130." O QI é um dado importante, mas não é tudo. Pelo modelo de Renzulli, criatividade e envolvimento com a tarefa contam tanto quanto. E há áreas, como artes e liderança, que um teste de QI nem mede.
"Quem tem AH/SD vai bem na escola." Nem sempre. Muita gente com AH/SD se entediou, se desligou, tirou nota baixa ou foi vista como desatenta e rebelde.
"É tudo fácil pra essa pessoa." A facilidade em uma área convive com dificuldade em outras. E ser rápida pra pensar não protege de ansiedade, solidão ou cansaço.
"Superdotação é ser gênio." Gênio é raro e costuma se referir a quem mudou uma área inteira. AH/SD é bem mais comum e aparece em gente comum, com vida comum.
"Se fosse, alguém já teria percebido." Meninas, principalmente, aprendem cedo a não chamar atenção. Muitas mulheres só se perguntam sobre isso adultas.
Altas habilidades, TDAH e autismo: a dupla excepcionalidade
Às vezes AH/SD aparece junto com outra condição, como TDAH, autismo ou dislexia. Isso tem nome: dupla excepcionalidade. Pesquisadoras como Sally Reis, Susan Baum e Edith Burke descrevem esse grupo como pessoas que têm potencial elevado e, ao mesmo tempo, uma condição que afeta o aprendizado ou o dia a dia.
Na dupla excepcionalidade, uma coisa pode esconder a outra:
- A facilidade compensa a dificuldade, e ninguém percebe o TDAH ou o autismo.
- A dificuldade aparece mais, e ninguém percebe o potencial.
- As duas se anulam no boletim, e a pessoa parece "mediana", só que exausta.
Também acontece de um quadro ser confundido com o outro. A inquietação de quem se entedia pode parecer TDAH. A intensidade nos interesses e a dificuldade de se conectar com pessoas da mesma idade podem parecer autismo. Uma pista que profissionais olham: em AH/SD, a dificuldade social costuma diminuir bastante entre pessoas com interesses parecidos. No autismo, ela tende a continuar mesmo assim. Só uma avaliação cuidadosa separa essas possibilidades.
Se você se reconhece em sinais de TDAH, os textos sobre o que é TDAH e sintomas de TDAH em adultos podem ajudar. Sobre autismo em mulheres, escrevi sobre diagnóstico tardio de autismo.
Existe teste de altas habilidades online?
Não existe teste online que identifique altas habilidades. Os questionários que circulam na internet, inclusive os que dão "seu QI" no final, não são instrumentos aprovados pra isso e não conhecem a sua história.
Um teste de inteligência de verdade é um instrumento psicológico. No Brasil, ele precisa ter parecer favorável no SATEPSI, o sistema do Conselho Federal de Psicologia que avalia os testes psicológicos, e só psicóloga pode aplicar e interpretar. Mesmo assim, ele é uma peça da avaliação, não a avaliação inteira.
Um questionário online pode servir pra organizar a dúvida e levar perguntas pra uma profissional. Só isso.
Como é feita a avaliação de altas habilidades
A identificação de AH/SD em adultos costuma ser feita por psicóloga ou neuropsicóloga com experiência no tema. Em geral, a avaliação junta:
- Entrevista sobre a sua história: infância, escola, interesses, amizades, trabalho.
- Instrumentos padronizados aprovados no SATEPSI, que podem incluir medidas de inteligência, de criatividade e de outras áreas.
- Informações de outras fontes, quando possível: boletins antigos, produções, relatos da família.
- Olhar pro que pode estar junto, como TDAH, autismo, ansiedade ou depressão.
O resultado não é uma nota. É uma descrição de como você funciona, do que você faz com facilidade e de onde você precisa de apoio.
A avaliação neuropsicológica que eu faço é focada em TDAH e autismo em adultos. Como altas habilidades aparecem com frequência junto com esses dois quadros, ou se confundem com eles, essa pergunta muitas vezes surge no meio da avaliação. Se a sua dúvida principal é TDAH ou autismo, você pode conhecer a avaliação neuropsicológica online. Se a dúvida é só AH/SD, o caminho é procurar uma psicóloga ou neuropsicóloga que trabalhe especificamente com identificação de altas habilidades em adultos.
E a terapia, onde entra
Descobrir AH/SD na vida adulta pode trazer alívio. Também pode trazer luto: pelo que não foi visto, pela criança que se sentiu errada, pelas escolhas feitas pra caber.
Muita gente com AH/SD carrega uma autoexigência pesada, que cobra desempenho o tempo todo. Escrevi sobre isso em autoexigência e em síndrome da impostora e perfeccionismo.
A terapia não identifica AH/SD. Ela é o lugar pra olhar o que essa história causou em você, com calma, tendo ou não uma resposta da avaliação.
Perguntas frequentes
Teste de QI online mostra se eu tenho altas habilidades?
Não. Teste de QI online não é instrumento psicológico aprovado e não identifica AH/SD. Mesmo um teste de inteligência aplicado por psicóloga é só uma parte da avaliação.
Altas habilidades é a mesma coisa que superdotação?
No Brasil, os documentos do MEC usam as duas palavras juntas, altas habilidades/superdotação, como um termo só. Por isso se escreve AH/SD.
Adulto pode descobrir altas habilidades?
Pode. AH/SD acompanha a pessoa desde cedo, mas muita gente só se pergunta sobre isso adulta. A avaliação olha pra sua história inteira, inclusive a infância.
Quem tem altas habilidades pode ter TDAH ou autismo?
Pode. Quando as duas coisas aparecem juntas, se fala em dupla excepcionalidade. Uma pode esconder a outra, por isso a avaliação precisa olhar as duas possibilidades.
Quem faz a avaliação de altas habilidades?
Psicóloga ou neuropsicóloga com experiência em AH/SD, usando instrumentos aprovados no SATEPSI. Em crianças e adolescentes, a escola e os núcleos de atendimento a altas habilidades também participam da identificação.
Ter altas habilidades é um diagnóstico?
Não. AH/SD não é transtorno e não tem código na CID. É uma característica do jeito de funcionar, que pede reconhecimento e, às vezes, apoio.
Fontes
- Brasil. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
- Renzulli, J. S. What makes giftedness? Reexamining a definition. Phi Delta Kappan, 60(3), 180-184, 1978.
- Reis, S. M.; Baum, S. M.; Burke, E. An operational definition of twice-exceptional learners. Gifted Child Quarterly, 58(3), 217-230, 2014.
- Gardner, H. Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences. Nova York: Basic Books, 1983.
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI, Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos: satepsi.cfp.org.br.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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