Alexitimia tem tratamento? Como a terapia ajuda a achar as palavras
Alexitimia tem tratamento? Entenda quando procurar ajuda e como a psicoterapia ajuda a reconhecer e nomear emoções, no seu ritmo e sem promessa de cura.
Quem descobre a palavra alexitimia costuma chegar logo na pergunta seguinte: e isso tem tratamento?
Alexitimia não é uma doença, então não se fala exatamente em "cura", mas existe cuidado, e a psicoterapia é o caminho mais usado pra isso. Alexitimia é um traço, uma dificuldade de identificar, diferenciar e descrever as próprias emoções. Traços podem mudar ao longo da vida, especialmente quando a pessoa encontra um espaço seguro pra se observar. O ritmo e o quanto muda variam muito de pessoa pra pessoa.
Alexitimia tem cura?
A ideia de "cura" não se encaixa muito bem. É mais parecido com uma habilidade pouco desenvolvida, ou uma porta que ficou fechada por muito tempo, do que com algo que precisa ser eliminado.
Existem também diferenças importantes entre as pessoas. Em algumas, a dificuldade com emoções está muito ligada à história de vida: ambientes onde sentir não era permitido, experiências difíceis, a necessidade de "desligar" pra sobreviver. Em outras, pode ter relação com o jeito de o cérebro processar informações, como acontece com frequência em pessoas autistas. Se quiser entender melhor as possíveis origens, escrevi sobre as causas da alexitimia.
Essas diferenças influenciam o caminho. Por isso, em vez de pensar em cura, prefiro pensar em ampliar o contato com o que você sente, do jeito que for possível pra você.
Quando procurar ajuda
Nem toda dificuldade de falar sobre sentimentos precisa de terapia. Mas vale procurar ajuda quando:
- A dificuldade está trazendo sofrimento pra você, mesmo que você não saiba nomear qual.
- Seus relacionamentos estão sendo afetados, com acusações de frieza, distância ou brigas que se repetem.
- O corpo vive dando sinais (dores, tensão, problemas de sono, estômago) e os exames não explicam.
- Existe um vazio ou um cansaço constante que não passa.
- Você percebe que explode de vez em quando e não entende de onde veio.
- Há outros sinais que pedem atenção, como tristeza persistente, ansiedade intensa ou uso de álcool e comida pra "aguentar".
Antes de marcar uma consulta, você pode fazer o teste de alexitimia online que preparei, com perguntas próprias. Ele pode ajudar a organizar o que você percebe e a levar isso pra conversa com uma profissional.
Como a psicoterapia ajuda na alexitimia
Existem várias abordagens em psicologia, e diferentes linhas trabalham com alexitimia de formas diferentes. Eu trabalho com a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida pelo psicólogo Carl Rogers. Na prática, o trabalho é assim.
Um espaço onde não precisa ter a resposta certa
Pra quem tem alexitimia, a pergunta "o que você está sentindo?" pode ser angustiante. Na terapia centrada na pessoa, não existe resposta certa nem pressa. Dá pra chegar dizendo "não sei", "tá tudo meio embolado", "só sei que tô cansada". Isso já é material de trabalho.
Aceitação sem julgamento
Um dos pilares da abordagem é o que Rogers chamou de consideração positiva incondicional: a experiência de ser aceita como você é, inclusive com a dificuldade de sentir. Muita gente com alexitimia cresceu num ambiente em que as emoções eram julgadas. Experimentar o contrário, com constância, pode abrir espaço pra que o que estava guardado apareça.
Empatia que ajuda a dar nome
Na escuta empática, a terapeuta tenta compreender a sua experiência por dentro e devolve isso em palavras. Às vezes, ouvir alguém dizer "parece que isso te deixou meio sem chão" faz algo clicar: é isso. Aos poucos, você vai encontrando suas próprias palavras.
Autenticidade na relação
A relação terapêutica é real. A terapeuta está ali como pessoa, não como alguém que sabe mais sobre você do que você mesma. Essa relação segura acaba funcionando como um lugar pra experimentar, com cuidado, formas novas de se perceber e de se mostrar.
E os exercícios fora da sessão?
Algumas coisas podem acompanhar a terapia, se fizerem sentido pra você: perceber o corpo, usar a roda das emoções pra ampliar o vocabulário, escrever um diário curto. São práticas simples, que dá pra testar em um minuto por dia.
Eles não substituem o acompanhamento, e não precisam virar obrigação. Funcionam melhor como curiosidade do que como tarefa.
Quando envolver outros profissionais
Em algumas situações, a psicoterapia anda junto com outros cuidados:
- Se há suspeita de autismo, TDAH ou outra condição do neurodesenvolvimento, vale uma avaliação com psiquiatra ou neuropsicólogo.
- Se há sinais de depressão ou ansiedade intensas, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a pensar se há necessidade de medicação.
- Se o corpo está dando muitos sinais, acompanhamento médico é importante pra cuidar da saúde física.
Na terapia, eu posso ajudar a pensar nesses encaminhamentos quando fizer sentido.
O que não esperar da terapia
A terapia não vai transformar você em outra pessoa, nem fazer com que você passe a falar de sentimentos com facilidade em pouco tempo. Também não tem um número certo de sessões. O que ela oferece é um processo, com idas e vindas, no seu ritmo, em que você vai se conhecendo melhor.
E se em algum momento o sofrimento ficar grande demais, com pensamentos de se machucar ou de desaparecer, procure ajuda agora: o CVV atende 24h, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Não ter palavras pro que se sente não é um defeito que precisa ser consertado. É um lugar de onde dá pra partir, com calma, com escuta e com alguém ao lado.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de alexitimia pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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