Mitos sobre ansiedade: 7 frases que atrapalham quem sente
Mitos sobre ansiedade como 'é frescura', 'é só pensar positivo' e 'remédio vicia' atrapalham quem sofre. Veja 7 frases comuns e o que há por trás de cada uma.
Os mitos sobre ansiedade mais comuns são frases como "é frescura", "é só pensar positivo", "remédio vicia" e "terapia é para quem está muito mal". Elas parecem inofensivas, mas atrapalham: fazem a pessoa sentir culpa pelo que sente e adiar o cuidado. Ansiedade é uma experiência humana, e quando ela passa do limite, merece atenção como qualquer outra questão de saúde.
O Brasil, aliás, aparece no relatório de 2017 da Organização Mundial da Saúde sobre transtornos mentais comuns (Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates) como o país com a maior proporção estimada de pessoas com transtornos de ansiedade, cerca de 9,3% da população. Ou seja, é muito provável que você, ou alguém perto de você, já tenha escutado algumas dessas frases.
Vou passar por sete delas.
Mito 1: "Ansiedade é frescura"
Essa é talvez a mais dolorosa. Quem sente ansiedade intensa já costuma se cobrar muito, e ouvir que é frescura só aumenta a vergonha.
Ansiedade envolve o corpo inteiro: coração acelerado, tensão muscular, sono ruim, estômago embrulhado, cabeça que não para. Não é escolha, nem falta de força de vontade. É um sistema de alerta que, por vários motivos, está ligado demais.
Chamar de frescura não faz a ansiedade ir embora. Só faz a pessoa sofrer calada.
Mito 2: "É só pensar positivo"
Se fosse simples assim, ninguém teria ansiedade. A maioria das pessoas ansiosas já tentou pensar positivo, muitas vezes. E quando não funciona, vem a sensação de estar falhando também nisso.
A ansiedade não é só um pensamento errado que dá para trocar por um certo. Ela tem raízes na história, no corpo, no ambiente. Olhar para essas raízes com cuidado ajuda mais do que forçar otimismo por cima.
Mito 3: "Remédio para ansiedade vicia"
Esse mito afasta muita gente de um cuidado que poderia ajudar. A verdade é mais cheia de nuances.
Existem diferentes classes de medicamentos usados para ansiedade. Algumas, como certos calmantes, podem sim causar dependência quando usadas por muito tempo sem acompanhamento. Outras não têm esse risco da mesma forma. Por isso, a decisão sobre remédio precisa ser feita com um psiquiatra, que avalia o seu caso, explica os efeitos e acompanha o uso.
O que atrapalha é generalizar. Nem todo remédio vicia, e nem toda pessoa ansiosa precisa de remédio. É uma conversa individual, com o médico.
Mito 4: "Terapia é para quem está muito mal"
Não precisa estar no fundo do poço para merecer um espaço de escuta. Muita gente busca terapia justamente porque percebeu que alguma coisa não vai bem e não quer esperar piorar.
Na abordagem centrada na pessoa, que é a que eu uso, a terapia é um espaço para você se entender melhor, no seu ritmo. Isso vale para quem está sofrendo muito e para quem só sente que está carregando mais do que gostaria.
Mito 5: "Quem tem ansiedade é fraca"
Muitas das pessoas ansiosas que a gente conhece são justamente as que dão conta de tudo. As que trabalham, cuidam, resolvem, lembram, organizam. A ansiedade, muitas vezes, anda junto com uma responsabilidade enorme.
Força e ansiedade não são opostas. Às vezes a ansiedade é o preço de ter sido forte por tempo demais, sem apoio.
Mito 6: "Ansiedade e insônia são coisas separadas"
Na prática, elas conversam muito. A cabeça que não para de noite atrapalha o sono. E dormir mal deixa o corpo mais sensível ao estresse, o que aumenta a ansiedade no dia seguinte. É um ciclo.
Se você tem dificuldade para dormir há semanas, vale olhar também para a ansiedade. E se tem ansiedade, vale cuidar do sono. Um médico pode ajudar a entender o que está acontecendo com o seu descanso.
Mito 7: "Ansiedade é o contrário de depressão"
Tem gente que imagina a ansiedade como excesso de energia e a depressão como falta dela, como se fossem opostas. Mas as duas aparecem juntas com frequência.
Meses de preocupação constante cansam, e esse cansaço pode virar desânimo, tristeza, perda de interesse pelas coisas. Por isso, se além da ansiedade você sente um vazio ou uma falta de vontade que não passa, vale contar isso a um profissional. Os dois quadros podem ser avaliados e cuidados juntos.
Mitos e verdades sobre ansiedade: o que fica
Se eu tivesse que resumir:
- Ansiedade é real, envolve corpo e mente, e não é frescura.
- Força de vontade sozinha raramente resolve, e isso não é culpa sua.
- Remédio é uma decisão individual, feita com psiquiatra, sem pânico e sem generalização.
- Terapia não é só para crises, é para quem quer cuidar de si.
- Ansiedade, sono e humor andam juntos, e vale olhar para o conjunto.
Se a sua ansiedade aparece principalmente como uma cabeça que não para de se preocupar, escrevi sobre isso em preocupação excessiva: como parar.
Como saber se a minha ansiedade passou do limite
Uma forma de começar é se observar com mais organização. O teste de ansiedade online que deixei aqui no site é baseado no GAD-7, uma escala de rastreio usada no mundo todo e validada para o português do Brasil. São sete perguntas sobre as últimas duas semanas.
O resultado não é diagnóstico. Ele mostra se há sinais que valem uma conversa com psicóloga ou psiquiatra. E, às vezes, só responder já ajuda a colocar em palavras algo que estava confuso.
Se estiver muito pesado agora
Se a ansiedade vier junto com pensamentos de se machucar ou de que não vale a pena continuar, procure ajuda imediata. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
As frases que a gente escuta sobre ansiedade também moldam como a gente se trata. Você merece ser olhada com mais cuidado do que esses mitos permitem.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de ansiedade GAD-7 pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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