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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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Pessoa altamente sensívelTema: Pessoa altamente sensível06 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Misofonia: o que é, sintomas e o que ajuda

Misofonia é uma reação intensa de raiva ou nojo a sons como mastigar e respirar. Entenda os sintomas, por que ainda não tem código no DSM e o que ajuda.


Misofonia é uma reação forte, rápida e difícil de controlar a sons específicos, quase sempre sons que outras pessoas fazem com a boca ou com o nariz: mastigar, engolir, respirar alto, fungar, estalar a língua. A reação não é só incômodo. É raiva, nojo, aflição, vontade de sair correndo. Ela ainda não tem um código próprio nos manuais de diagnóstico, mas existe uma definição de consenso entre pesquisadores, e há coisas que ajudam.

Se você já saiu da mesa no meio do jantar porque não aguentava o barulho de alguém comendo, e depois se sentiu culpada por isso, esse texto é pra você.

Misofonia: o que é, em palavras simples

A palavra quer dizer, ao pé da letra, "ódio ao som". O termo foi proposto no começo dos anos 2000 por dois pesquisadores da audição, Pawel e Margaret Jastreboff, para descrever pessoas cuja reação a certos sons não tinha a ver com volume.

Esse é o ponto central. Na misofonia, o som não precisa ser alto. Pode ser baixinho. O que pesa é qual som, e muitas vezes quem faz. É comum a reação ser mais forte com pessoas próximas: o parceiro, a mãe, um colega de mesa.

Sintomas de misofonia

Os sinais que mais aparecem:

  • Gatilhos específicos. Mastigação, barulho de boca, respiração, fungadas, pigarro, alguém estalando os dedos, clique de caneta, teclado, até alguns movimentos repetitivos que você vê (balançar a perna, por exemplo).
  • Reação imediata e intensa. Raiva, irritação forte, nojo, ansiedade. Às vezes uma vontade de gritar ou de fazer o som parar.
  • Reação no corpo. Coração acelera, músculos tensionam, vem calor, aperto no peito. O corpo entra em modo "lutar ou fugir".
  • Saber que é desproporcional e não conseguir evitar. Muita gente percebe que a reação é maior do que o som merece, e isso traz vergonha e culpa.
  • Evitação. Comer sozinha, usar fone o tempo todo, fugir de refeições em família, de cinema, de transporte público, de reuniões.
  • Antecipação. Ficar tensa antes mesmo do som acontecer, só de saber que vai ter uma refeição em grupo.

Costuma começar na infância ou na adolescência, e o primeiro gatilho muitas vezes é alguém da família.

Misofonia é doença? Por que não tem CID

Hoje a misofonia não aparece como diagnóstico próprio no DSM-5-TR (APA, 2022) nem na CID-11. Isso não quer dizer que ela não existe ou que é "frescura". Quer dizer que a pesquisa ainda está organizando o que ela é, como medir e onde ela se encaixa.

Um passo importante foi em 2022, quando um grupo de especialistas publicou uma definição de consenso (Swedo et al., 2022). Explicando com as minhas palavras, eles descrevem a misofonia como uma tolerância reduzida a sons específicos e aos estímulos ligados a eles, que provocam reações emocionais e físicas fortes e negativas, e que trazem sofrimento ou atrapalham a vida.

Na prática, isso significa que quem cuida de misofonia hoje trabalha a partir dos sintomas e do sofrimento, e não de um código.

Misofonia, ansiedade, autismo e alta sensibilidade

A misofonia pode aparecer sozinha. Também é comum aparecer junto com outras questões, como ansiedade, TOC, TDAH, autismo e outros jeitos de processar estímulos sensoriais de forma mais intensa.

Ela não é a mesma coisa que a sensibilidade sensorial do autismo ou a de uma pessoa altamente sensível. Na hipersensibilidade sensorial, muitos estímulos incomodam: luz, barulho alto, etiquetas de roupa, multidão. Na misofonia, o foco é bem específico, e a reação é muito mais de raiva e nojo do que de sobrecarga. Escrevi mais sobre o outro lado em hipersensibilidade sensorial em adultos e em o que é pessoa altamente sensível.

Se você se reconhece sensível a muitos estímulos, não só a sons de boca, o teste de pessoa altamente sensível pode te ajudar a se observar. Não é diagnóstico, nem mede misofonia. É um jeito de olhar com mais calma pro seu jeito de sentir o mundo.

Misofonia tem cura? O que ajuda

Ainda não existe um tratamento "padrão ouro" com décadas de estudo. Mas há caminhos que ajudam bastante a reduzir o sofrimento:

Psicoterapia. A terapia cognitivo-comportamental é a abordagem com mais estudos até agora, incluindo um ensaio clínico randomizado com resultados positivos (Jager et al., 2021). O trabalho costuma envolver entender a reação, diminuir a evitação aos poucos e lidar com a raiva e a culpa que vêm junto.

Avaliação auditiva. Vale passar por um otorrinolaringologista ou fonoaudiólogo, para descartar outras questões de audição, como zumbido ou hiperacusia (quando sons em geral parecem altos demais).

Som de fundo. Ruído branco, música baixa, um ventilador. Mascarar o gatilho em vez de ficar à espera dele costuma aliviar.

Fone com cancelamento de ruído, com moderação. Ajuda muito em momentos específicos. Usado o tempo todo, pode deixar você ainda mais sensível ao silêncio quebrado.

Combinar com quem você convive. Explicar que não é birra nem falta de amor. Algumas famílias combinam música na hora das refeições, ou alguém senta um pouco mais longe. Pequenos acordos mudam muito o clima da casa.

Cuidar do corpo como um todo. Cansaço, fome, falta de sono e estresse deixam a tolerância menor. Em dias assim, a reação costuma ser mais forte.

O que costuma piorar: se cobrar a "aguentar calada", brigar com quem faz o som (ele não está fazendo de propósito) e se isolar completamente.

Como a terapia pode ajudar na misofonia

Na terapia, comigo, a gente olha não só para o som, mas para tudo que vem com ele. A vergonha de sentir tanta raiva de quem você ama. O cansaço de evitar. As brigas que ninguém entende. Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, e ofereço um espaço em que você pode falar disso sem precisar justificar sua reação.

Perguntas frequentes

Misofonia é frescura?

Não. É uma reação real do corpo e das emoções, que já tem definição de consenso entre pesquisadores e vem sendo estudada em vários países. O fato de ainda não ter código próprio nos manuais não torna o sofrimento menor.

Qual a diferença entre misofonia e hiperacusia?

Na hiperacusia, sons comuns parecem altos ou dolorosos demais, e o problema é o volume. Na misofonia, o que pesa é o tipo de som, mesmo baixinho, e a reação é de raiva, nojo ou aflição.

Por que a misofonia é pior com pessoas próximas?

Não se sabe ainda exatamente por quê. Uma hipótese é que a convivência diária cria muita repetição e expectativa do gatilho, e a frustração de sentir raiva de quem você ama aumenta a reação.

Misofonia tem cura?

Ainda não existe uma cura conhecida, mas o sofrimento pode diminuir bastante. Psicoterapia, estratégias com som de fundo e acordos em casa ajudam muita gente a conviver melhor com os gatilhos.

Criança pode ter misofonia?

Pode. A misofonia costuma começar na infância ou na adolescência. Se seu filho reage com muita raiva a sons da família, vale conversar com o pediatra e buscar uma avaliação, em vez de tratar como malcriação.

Se o sofrimento estiver grande

Se a raiva, a culpa ou o isolamento estiverem pesando a ponto de você pensar em se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR).
  • Swedo, S. E., Baguley, D. M., Denys, D., Dixon, L. J., Erfanian, M., Fioretti, A., ... & Raver, S. M. (2022). Consensus definition of misophonia: a Delphi study. Frontiers in Neuroscience, 16, 841816.
  • Jager, I. J., Vulink, N. C. C., Bergfeld, I. O., van Loon, A. J. J. M., & Denys, D. A. J. P. (2021). Cognitive behavioral therapy for misophonia: a randomized clinical trial. Depression and Anxiety, 38(7), 708-718.

Sentir raiva de um som não faz de você uma pessoa ruim. Faz de você alguém que está sofrendo com algo que tem nome.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

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Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

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Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

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