Pular para o conteúdo
Fernanda Ferro
Voltar pros textos
Camuflagem autistaTema: Camuflagem autista14 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Masking não é só no autismo: camuflagem no TDAH e na ansiedade

Pessoas não autistas também fazem masking. Veja o que é parecido, o que é mais típico do autismo e por que camuflar muito não confirma diagnóstico nenhum.


Masking não é exclusivo do autismo. Pessoas com TDAH, com ansiedade social, com histórias de trauma, pessoas de grupos que sofrem preconceito e muita gente sem diagnóstico nenhum também escondem partes de si pra serem aceitas. O que a pesquisa sugere é que alguns aspectos da camuflagem são comuns a todo mundo e outros parecem mais típicos de pessoas autistas. Por isso, camuflar muito é um dado importante sobre você, mas não confirma autismo.

O que um estudo comparou

Em 2021, pesquisadoras do Reino Unido perguntaram sobre masking a três grupos: 144 pessoas autistas, 49 pessoas neurodivergentes sem diagnóstico de autismo e 45 pessoas neurotípicas (Miller, Rees e Pearson, 2021). O título do artigo veio da fala de uma participante: masking é a vida.

O que apareceu em todos os grupos:

  • Imitar os outros como estratégia social.
  • Sair exausta de situações em que precisou se ajustar muito.
  • Sentir-se desconectada de quem é de verdade.
  • Perceber que o masking fazia mal.

O que pareceu mais específico das pessoas autistas:

  • Segurar respostas sensoriais, como disfarçar o incômodo com barulho, luz ou textura.
  • Relatos de masking ligado a pensamentos de suicídio.

É um estudo com amostra pequena nos grupos não autistas, recrutada pela internet. Serve como pista, não como regra.

E na CAT-Q?

A CAT-Q, o questionário de camuflagem autista, também foi respondida por pessoas não autistas quando foi criada. Elas pontuaram, em média, menos que as autistas, mas as faixas se sobrepõem bastante (Hull et al., 2019). Tem gente não autista com pontuação alta, e gente autista com pontuação baixa.

É por isso que o resultado do teste de camuflagem autista fala de camuflagem, e não de autismo.

Masking no TDAH

Muitas pessoas com TDAH descrevem um tipo de camuflagem com outro foco: esconder a desatenção, a desorganização, a impulsividade. Anotar tudo pra não esquecer, chegar muito cedo com medo de atrasar, fingir que acompanhou a reunião inteira, conferir o e-mail cinco vezes antes de mandar.

A pesquisa sobre masking no TDAH ainda é bem menor que a do autismo, mas o custo descrito parece parecido: cansaço, autocrítica, sensação de ser uma fraude. Falei dos sinais que costumam passar despercebidos em sintomas de TDAH em adultos. E como autismo e TDAH aparecem juntos com frequência, às vezes os dois tipos de camuflagem convivem na mesma pessoa.

Masking na ansiedade social

Na ansiedade social, a pessoa também vigia a própria imagem, ensaia o que vai falar e revê a conversa depois. A diferença costuma estar no motor: o medo de ser julgada ou humilhada. Quando o medo diminui, boa parte do esforço diminui junto.

Na camuflagem autista, além de qualquer medo, existe um trabalho de tradução que não some quando a pessoa está tranquila: entender regras sociais que não vêm naturais, suportar estímulos que incomodam. Detalhei isso em autismo ou ansiedade social.

Masking depois de trauma

Quem cresceu num ambiente em que mostrar emoção era perigoso, ou em que o amor dependia de ser "boazinha", também aprende a se esconder. A hipervigilância de quem viveu trauma se parece muito com o monitoramento da camuflagem. A origem é outra, mas o cansaço pode ser parecido. Se isso fala com você, o teste de negligência emocional na infância pode ajudar a olhar pra essa história.

Então, como saber de onde vem?

Algumas perguntas que ajudam a pensar:

  • A camuflagem começou cedo, na infância, ou depois de uma fase específica da vida?
  • Ela inclui disfarçar incômodos sensoriais, ou é mais sobre esconder emoções e opiniões?
  • Quando você está com pessoas em quem confia, o esforço some ou continua?
  • Além da camuflagem, existem outros traços: interesses muito intensos, necessidade de rotina, sensibilidade forte, dificuldade antiga com as regras não ditas?

Nenhuma resposta isolada decide nada. Mas o conjunto ajuda a levar perguntas melhores pra uma avaliação. Se a dúvida é autismo, o teste de autismo em adultos é o ponto de partida mais direto. Se é TDAH, o teste de TDAH em adultos. O diagnóstico vem de psiquiatra ou neuropsicóloga.

O que vale pra todo mundo

Seja qual for a origem, o masking prolongado cansa, afasta você de si e faz as relações conhecerem só uma versão sua. Na terapia, a gente não precisa saber o nome de tudo pra começar. Dá pra olhar pro esforço, pro que ele protege e pro que ele custa, e ir abrindo espaço pra ser mais você em alguns lugares.

Se estiver pesado demais, com pensamentos de se machucar, o CVV atende 24h pelo 188 ou em cvv.org.br.


Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico.

Esse texto pode ajudar alguém?Manda pra uma amiga

Continue se escutando

Se você se reconheceu nesse texto, o teste de camuflagem autista (CAT-Q) pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.

Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

Conversa sobre este texto

Se algo aqui te tocou, ou ficou uma dúvida, pode escrever. Eu leio tudo.

Deixe seu comentário

Não aparece no site. Só pra eu poder te escrever se precisar.

Aqui não é espaço de atendimento nem de diagnóstico. Em sofrimento intenso, ligue 188 (CVV).

Oi, eu sou a Fernanda.

Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

Atendo em português, online e em Brasília. Trabalho com psicoterapia e avaliação neuropsicológica.

Minha prática segue a Abordagem Centrada na Pessoa. Fora do consultório, o cinema, a fotografia, a natureza e os animais fazem parte de quem eu sou.

Retrato de Fernanda Pessoa Ferro em um jardim

O que te trouxe até aqui?

Às vezes é difícil dar nome. Escolha um assunto e comece por um questionário de autoconhecimento.

Explorar todos os testes

Sem custo. Os resultados convidam à reflexão e não são um diagnóstico.

Conversemos com calma.

Terapia online em português.