Mãe que trabalha fora e está esgotada: a dupla jornada e o burnout materno
Mãe que trabalha fora esgotada: entenda como a dupla jornada, a culpa de estar longe e o burnout profissional se somam e podem levar ao burnout materno.
Se você é mãe que trabalha fora e está esgotada, provavelmente sente que não termina o dia nunca. Sai do trabalho e começa o segundo turno: janta, banho, lição, briga pra dormir. E no meio disso tudo ainda vem a culpa, de não estar presente o suficiente em casa e de não render o suficiente no trabalho. Esse acúmulo de jornadas, sem pausa real, é um terreno muito fértil pro burnout materno.
E não, não é só questão de se organizar melhor.
A dupla jornada: quando o dia tem dois turnos
A expressão "dupla jornada" descreve uma realidade que muitas mulheres conhecem de perto: o trabalho remunerado de um lado e o trabalho de casa e de cuidado do outro. Os dados da PNAD Contínua do IBGE mostram há anos que, no Brasil, as mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas do que os homens, e isso vale também pra quem trabalha fora.
Na prática, o que isso significa?
- Seu descanso nunca coincide com o fim do expediente. O fim do expediente é só a troca de turno.
- Você responde e-mail do trabalho no celular enquanto espera a criança sair da natação.
- Você pensa na reunião de amanhã enquanto dá banho, e pensa no pediatra durante a reunião.
- O fim de semana não é folga, é o dia de colocar a casa em dia.
A cabeça nunca fica inteira em lugar nenhum. E isso cansa de um jeito difícil de explicar pra quem não vive.
A culpa de estar longe
Uma coisa que eu escuto muito de mães que trabalham fora é a culpa. Culpa de perder a apresentação da escola, de deixar o filho com outra pessoa, de chegar em casa sem paciência, de sentir alívio quando volta pro trabalho depois da licença.
Esse último ponto, inclusive, costuma vir com vergonha. Muitas mães sentem que não deveriam gostar do próprio trabalho, ou que deveriam sofrer mais com a distância. Como se ser mãe de verdade fosse querer estar com o filho o tempo inteiro.
A culpa materna de trabalhar fora raramente tem a ver com o que você está fazendo de errado. Ela tem muito mais a ver com uma expectativa impossível de ser mãe sempre disponível e profissional sempre disponível, ao mesmo tempo. Ninguém dá conta disso. E quando a gente tenta, a conta chega no corpo e no humor.
Burnout profissional e burnout materno: quando os dois se somam
O burnout profissional é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, na CID-11, como um fenômeno ligado ao trabalho: exaustão, distanciamento ou cinismo em relação ao emprego e sensação de ineficácia. Já o burnout materno (ou parental) é estudado por pesquisadoras como Isabelle Roskam e Moïra Mikolajczak, da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ele envolve uma exaustão ligada ao papel de mãe, um distanciamento emocional dos filhos, a perda do prazer na maternidade e a sensação de não se reconhecer mais como mãe.
São coisas diferentes, mas elas conversam. Quando o trabalho já está te drenando, você chega em casa sem reserva nenhuma pra lidar com as demandas dos filhos. E quando a casa está te drenando, você vai pro trabalho sem ter descansado. Um alimenta o outro.
Alguns sinais de que o esgotamento pode estar vindo dos dois lados:
- Você sente pavor do domingo à noite, e também do fim do expediente.
- Não consegue se desligar em nenhum dos dois lugares.
- A paciência com as crianças acabou, e a motivação no trabalho também.
- Você está fazendo tudo no automático, sem sentir muito.
- Ficou difícil lembrar da última vez que teve um tempo que fosse só seu.
- Você fantasia com largar tudo, mas não sabe nem o que "tudo" seria.
Se você está se perguntando se o que sente é cansaço normal de quem tem uma rotina puxada ou se já passou disso, o teste de burnout materno online pode te ajudar a olhar pra isso com mais clareza. Não é diagnóstico, mas pode ser um bom começo de conversa com você mesma.
Mãe cansada do trabalho e dos filhos: o que costuma ajudar
Não existe uma saída única, mas algumas coisas costumam aliviar.
Separar o que é seu do que é expectativa
Muitas mães carregam um padrão que não é delas: a casa sempre arrumada, a lancheira caprichada, a presença em todos os eventos. Vale se perguntar, com honestidade: isso é importante pra mim ou é algo que eu acho que "deveria" fazer? Às vezes dá pra soltar mais do que parece.
Dividir de verdade em casa
A dupla jornada fica mais pesada quando o segundo turno é só seu. Se você tem um parceiro, a divisão das tarefas de casa e da carga mental precisa entrar na conversa. Escrevi sobre isso em burnout materno e o casamento.
Criar pequenas transições
O caminho do trabalho pra casa, quando existe, pode virar um respiro em vez de mais uma maratona. Dez minutos no carro em silêncio, uma música, uma volta no quarteirão antes de subir. Parece pouco, mas ajuda a cabeça a mudar de lugar.
Olhar pra culpa com mais gentileza
A culpa vai aparecer. A questão é não deixar que ela decida por você. Seu filho não precisa de uma mãe perfeita e sempre presente. Precisa de uma mãe que esteja razoavelmente bem, e isso inclui você ter um trabalho, uma vida e um pouco de descanso.
Falar com o trabalho, quando possível
Nem sempre dá. Mas em alguns lugares existe espaço pra negociar horário, dias de trabalho remoto ou uma carga mais realista. Pedir isso não é fraqueza nem falta de compromisso.
Quando o esgotamento pede mais que ajustes
Tem um ponto em que dormir no fim de semana e reorganizar a agenda já não resolvem. Quando você percebe que está sempre irritada, que se afastou emocionalmente dos filhos, que chora no banheiro do trabalho ou no carro, ou que tem vontade de sumir, isso merece cuidado de verdade.
E se em algum momento vierem pensamentos de se machucar ou de não querer mais estar aqui, procure ajuda imediata. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
A terapia online costuma ser uma possibilidade viável justamente pra quem não tem tempo sobrando: dá pra encaixar no horário de almoço, depois que as crianças dormem, sem deslocamento. É um espaço que é só seu, onde você não precisa render nem cuidar de ninguém. Onde dá pra olhar pra essa rotina, pra culpa e pro cansaço sem julgamento, e ir encontrando, no seu tempo, um jeito mais possível de viver as duas coisas.
Trabalhar fora e ser mãe não é um fracasso de organização quando cansa. É muita coisa pra uma pessoa só, e você merece um lugar pra respirar.
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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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