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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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LutoTema: Luto06 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

Luto por um filho: quando a perda não cabe em nenhuma palavra

Luto por um filho, pequeno ou adulto: o que mães e pais costumam sentir, por que essa dor é diferente, o casal, os outros filhos e onde encontrar apoio.


Luto por um filho é a dor de mães e pais que perderam um filho, seja bebê, criança, adolescente ou adulto. Muitas famílias descrevem essa perda como a mais difícil de todas, porque ela contraria a ordem que a gente espera da vida. Não existe prazo pra essa dor, nem jeito certo de atravessar. Existe, sim, a possibilidade de não atravessar sozinha.

Se você perdeu um filho, sinto muito. Não vou te dizer que vai passar, nem que tudo tem um motivo. Este texto é só pra fazer companhia e, talvez, ajudar a pôr nome em algumas coisas.

Perda de filho: por que essa dor é diferente

Pra quem perde o marido, existe a palavra viúva. Pra quem perde os pais, órfã. Pra quem perde um filho, em português não existe palavra. Muita gente sente que essa falta diz alguma coisa.

Perder um filho costuma tirar de lugar várias coisas ao mesmo tempo:

  • A ordem natural. Os pais esperam ir antes. Quando o filho vai primeiro, o mundo parece ter quebrado uma regra.
  • O futuro imaginado. Formatura, casamento, netos, a velhice com ele por perto. Vai embora junto um futuro inteiro.
  • A identidade. Ser mãe ou pai daquele filho fazia parte de quem você é. E continua fazendo.
  • A sensação de proteção. Muitas mães e pais carregam a pergunta "por que eu não consegui proteger?", mesmo quando não havia nada a fazer.

Pesquisas confirmam que é uma perda com efeitos longos. Um estudo nos Estados Unidos comparou 428 pais que perderam um filho com 428 pais parecidos que não passaram por isso. Em média 18 anos depois da morte, os pais enlutados ainda relatavam mais sintomas depressivos e mais problemas de saúde. Quem conseguiu reencontrar algum sentido de propósito na vida mostrava mais recuperação do luto (Rogers e colegas, 2008).

Esse dado não é pra assustar. É pra dizer que, se a dor ainda está aí depois de muito tempo, isso não é fraqueza. É o tamanho do amor e da perda.

Luto por filho adulto

Quando um filho adulto morre, o luto dos pais às vezes é menos visto. As pessoas olham primeiro pro cônjuge dele, pros filhos dele. A mãe e o pai ficam num canto do velório, sem saber qual é o seu lugar.

Mas filho é filho em qualquer idade. Perder um filho de 40 anos é perder o bebê que você segurou, a criança que você levou na escola e o adulto com quem você conversava. Pode vir junto a preocupação com os netos, a relação com a nora ou o genro, decisões em que você nem sempre é consultada.

Se esse é o seu caso, a sua dor de mãe ou de pai tem lugar, mesmo quando ninguém pergunta por ela.

O que mães e pais costumam sentir

Não há um roteiro. Algumas coisas aparecem bastante:

  • Uma dor física, no peito, no estômago, nos braços.
  • Choro que vem sem aviso, ou nenhum choro, só um vazio.
  • Culpa por tudo: pelo que fez, pelo que não fez, por ter continuado viva.
  • Raiva: de médicos, de Deus, de quem ainda tem os filhos, do outro pai ou mãe.
  • Medo intenso de perder mais alguém.
  • Dificuldade de ver crianças, de ir a festas, de ouvir "quantos filhos você tem?".

Sobre essa última pergunta: você não deve explicação a ninguém. Algumas mães contam todos os filhos, inclusive o que morreu. Outras preferem não entrar no assunto com estranhos. As duas respostas estão certas.

Quando o casal vive o luto de jeitos diferentes

É comum que o casal sofra em tempos e jeitos diferentes. Um quer falar do filho o tempo todo, o outro não consegue. Um chora, o outro se enterra no trabalho. Um quer mexer no quarto, o outro não quer tocar em nada.

Isso não quer dizer que um sofre mais que o outro. Cada um está tentando sobreviver do jeito que consegue. Ajuda dizer o que você precisa, sem cobrar que o outro sinta igual. E, se a distância entre vocês estiver crescendo, buscar apoio juntos pode fazer diferença.

E os outros filhos

Se você tem outros filhos, eles também estão de luto. Perderam um irmão e, muitas vezes, sentem que perderam um pouco dos pais também, que agora estão tomados pela dor.

Não precisa esconder a tristeza deles. Ajuda mais dizer a verdade com palavras simples, deixar que falem do irmão, manter um pouco da rotina e pedir ajuda a outros adultos de confiança. Escrevi também sobre o luto pelo irmão, do lado de quem perdeu um irmão.

Como seguir vivendo depois da perda de um filho

Ninguém "supera" a perda de um filho. O que muitas mães e pais contam é que, com muito tempo, a dor vai mudando de forma. Ela continua ali, e vai ganhando espaço também pra lembrar com carinho.

Algumas coisas costumam ajudar:

  • Falar do seu filho pelo nome. E pedir que os outros falem também. O silêncio dos outros costuma doer mais que a lembrança.
  • Manter o vínculo do seu jeito. Uma foto, um objeto, uma data, uma ação em nome dele. O laço com quem morreu não precisa ser cortado (Klass, Silverman e Nickman, 1996).
  • Ir no seu tempo com as coisas dele. Não existe prazo pra mexer no quarto ou nas roupas.
  • Encontrar outras mães e pais enlutados. Grupos de apoio a pais que perderam filhos existem em muitas cidades e também online. Estar com quem entende sem precisar explicar costuma aliviar.
  • Cuidar do corpo como der. Comer, dormir, beber água. Nos piores dias, isso já é muito.

Quando a dor pede mais cuidado

Toda perda de filho dói muito, e por muito tempo. Mesmo assim, vale procurar ajuda profissional se a vida parou por completo, se a culpa não dá trégua, se você não consegue cuidar de si ou dos outros filhos, ou se está usando álcool ou remédio pra conseguir passar os dias.

A CID-11 e o DSM-5-TR (APA, 2022) descrevem o transtorno do luto prolongado (código 6B42 na CID-11), em que a saudade intensa e o sofrimento continuam muito altos depois de muitos meses e atrapalham a vida. Depois da perda de um filho, essa possibilidade merece atenção, sem pressa e sem rótulo. Escrevi sobre os sinais de luto prolongado e sobre o luto complicado, com mais detalhe.

O teste de luto é gratuito e pode ajudar você a se perceber. Ele não é diagnóstico.

Terapia para quem perdeu um filho

Na terapia, ninguém vai apressar você nem dizer que já está na hora. É um espaço pra falar do seu filho, de quem ele era, do que aconteceu, das perguntas sem resposta.

Eu trabalho na abordagem centrada na pessoa, em que você conduz o ritmo e eu acompanho, sem julgamento. Quando o luto se prolonga e trava a vida, os tratamentos com mais estudos são os focados em luto, como a terapia para luto complicado de Katherine Shear (Shear, 2015), e eu encaminho quando for o caso. Também pode ser importante uma avaliação psiquiátrica. Mais sobre isso em terapia para luto.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o luto por um filho?

Não existe um prazo. Muitas mães e pais dizem que o luto por um filho dura a vida inteira, e que o que muda com o tempo é o peso e a forma da dor. Os primeiros anos costumam ser os mais duros.

É normal sentir raiva de quem ainda tem os filhos?

É comum, e costuma vir com culpa. Ver outras famílias inteiras pode doer muito. Esse sentimento não diz nada de ruim sobre você. Ele pode ser falado num lugar seguro.

Como responder quando perguntam quantos filhos eu tenho?

Do jeito que fizer sentido pra você naquele momento. Você pode contar todos, inclusive o que morreu, ou dar uma resposta curta pra quem é estranho. Não existe resposta errada.

Meu filho morreu por suicídio. Como lidar com a culpa?

A culpa costuma ser muito forte nesse luto, junto com perguntas que talvez nunca tenham resposta. Ela não prova que você falhou. Procure apoio profissional, e se pensamentos de morte aparecerem em você, ligue para o CVV no 188.

Perdi um bebê na gestação. Isso também é luto por um filho?

É. A perda gestacional e a perda de um bebê recém-nascido são lutos reais, mesmo quando as pessoas em volta não reconhecem. Você tem o direito de sentir a falta desse filho.

Se a dor estiver pesada demais agora

Muitas mães e pais, nesse luto, sentem vontade de ir junto. Se isso estiver acontecendo com você, por favor, não fique sozinha com esse pensamento. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br. Em emergência, ligue 192 ou procure um pronto-socorro. Outros contatos estão em ajuda agora.

Referências

  • Rogers, C. H., Floyd, F. J., Seltzer, M. M., Greenberg, J. & Hong, J. (2008). Long-term effects of the death of a child on parents' adjustment in midlife. Journal of Family Psychology, 22(2), 203-211. doi.org/10.1037/0893-3200.22.2.203
  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). APA Publishing.
  • World Health Organization. (2024). Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders (CDDR). who.int
  • Klass, D., Silverman, P. R. & Nickman, S. L. (Eds.). (1996). Continuing Bonds: New Understandings of Grief. Taylor & Francis.
  • Shear, M. K. (2015). Complicated grief. New England Journal of Medicine, 372(2), 153-160. doi.org/10.1056/NEJMcp1315618

Você continua sendo mãe ou pai desse filho. O amor não acabou com a morte dele, e a sua dor merece todo o cuidado que existir.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

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Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

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