Unmasking: como camuflar menos sem se expor demais
Unmasking é ir diminuindo a camuflagem autista aos poucos, onde for seguro. Veja por onde começar, onde vale manter a máscara e como lidar com a reação dos outros.
Unmasking é o processo de ir diminuindo a camuflagem autista: deixar de lado, aos poucos, algumas das adaptações que você faz pra parecer à vontade. Não é tirar a máscara de uma vez nem em todo lugar. É escolher onde, com quem e quais adaptações dá pra soltar, pra gastar menos energia sem se colocar em risco. Pra muita gente, começa por coisas pequenas: parar de forçar contato visual com quem já conhece você, usar o fone no mercado, dizer "prefiro mensagem" em vez de atender toda ligação.
Por que não dá pra simplesmente parar
A camuflagem não é só um hábito ruim. Ela foi, e muitas vezes ainda é, uma proteção. Pessoas autistas contam que ela abre portas em ambientes sociais e protege de agressões (Bradley et al., 2021). Pesquisadoras que analisaram o conceito argumentam que o masking nasce, em boa parte, do estigma, e que a escolha de camuflar muitas vezes é só aparente (Pearson e Rose, 2021).
O pesquisador William Mandy fez essa pergunta num editorial: será que é hora de tirar a máscara? A resposta dele coloca parte da responsabilidade no ambiente, e não só na pessoa (Mandy, 2019). Se o mundo em volta não muda nada, tirar a máscara sozinha pode sair caro.
Por isso o caminho costuma ser gradual.
Passo 1: mapear onde você camufla
Antes de soltar qualquer coisa, vale saber onde está o gasto. Algumas perguntas:
- Em que lugares você mais se ajusta? Trabalho, família, amigos, consultas médicas?
- Quais adaptações cansam mais? Contato visual, conversa fiada, segurar estímulos, esconder interesses?
- Com quem você já camufla pouco?
O teste de camuflagem autista pode ajudar nesse mapa. Ele usa as 25 frases da CAT-Q e separa a camuflagem em três partes: compensar, mascarar e se misturar ao grupo.
Passo 2: começar pelo que é barato e seguro
Algumas adaptações custam muito e trazem pouco. Costumam ser um bom começo:
- Estímulos. Usar fone, óculos escuros, roupa confortável, pedir pra baixar a música. Quase ninguém repara, e o ganho de energia é grande.
- Movimentos que acalmam. Deixar a perna balançar, mexer num objeto nas mãos, andar enquanto fala ao telefone.
- Contato visual com quem é próximo. Olhar pro lado enquanto conversa, avisando se quiser: "eu presto mais atenção assim".
- Preferências de comunicação. "Consigo responder melhor por escrito."
Passo 3: escolher os lugares
Vale pensar em três zonas:
- Zona livre: onde você pode ser você quase sem ajuste. Sua casa, uma pessoa, um grupo.
- Zona parcial: onde dá pra soltar algumas coisas. Amigos próximos, parte da família, uma colega de confiança.
- Zona de proteção: onde a máscara ainda faz sentido. Entrevista de emprego, um chefe difícil, lugares onde você sabe que existe preconceito.
A ideia é ir aumentando a zona livre, sem culpa por manter a zona de proteção. Um estudo encontrou que ficar alternando muito entre camuflar e não camuflar também se associou a pior saúde mental (Cage e Troxell-Whitman, 2019). Ter lugares mais estáveis, em vez de trocar de modo o dia todo, pode ajudar.
Passo 4: lidar com a reação dos outros
Quando você muda, as pessoas percebem. Algumas vão estranhar: "você está diferente", "antes você não era assim". Isso pode doer.
Algumas coisas que ajudam:
- Você não precisa explicar tudo. "Descobri que isso me cansa menos" é suficiente.
- Explicar pode ajudar, se quiser. Com pessoas próximas, contar sobre a camuflagem e o custo dela costuma aproximar.
- Algumas relações vão mudar. As que dependiam da versão adaptada podem esfriar. Outras podem ficar mais verdadeiras.
Passo 5: esperar o estranhamento
É comum, no começo, se sentir mais sensível, mais cansada com certas coisas, "mais autista". Muitas vezes é só você percebendo o que antes engolia. Isso tende a se acomodar.
Também é comum não saber quem você é sem a adaptação. Isso não é sinal de que deu errado. É o começo de conhecer o que é seu.
Com ou sem diagnóstico
Dá pra camuflar menos mesmo sem diagnóstico. Mas, se a dúvida sobre autismo está presente, o teste de autismo em adultos é um ponto de partida, e a avaliação com psiquiatra ou neuropsicóloga é o que confirma ou descarta.
Na terapia, meu papel é ser uma das zonas livres: um lugar onde você pode experimentar falar, olhar e se mexer do seu jeito, sem precisar atuar. E, a partir daí, ir pensando junto onde mais isso é possível.
Se o processo trouxer um peso grande demais, com vontade de sumir ou pensamentos de se machucar, o CVV atende 24h pelo 188 ou em cvv.org.br.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Não é diagnóstico.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de camuflagem autista (CAT-Q) pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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