Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro

CRP 01/30999-Estágios de adaptação · desenraizamento

Não me sinto em casa em lugar nenhum.

Estrangeira no país onde você mora. Estrangeira no Brasil quando volta. Sem um chão que seja seu nos dois.

Isso tem nome, e você não é a única pessoa vivendo isso agora.

Por Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga (CRP 01/30999) · atualizado em julho de 2026

Disponível 24h

Se você estiver passando por um momento de crise ou por pensamentos de se machucar, peça ajuda hoje. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo 188 e em cvv.org.br. Se você mora fora, use o serviço de emergência ou a linha de apoio do país onde está: nos Estados Unidos e no Canadá, 988; no Reino Unido e na Irlanda, Samaritans 116 123; em Portugal, SOS Voz Amiga; na Alemanha, Telefonseelsorge 0800 111 0 111. Em risco imediato, ligue para o número de emergência local.


Quando quiser começar um acompanhamento, eu estou aqui. Conversar com a Fernanda.

A lista de contatos de apoio por país, com o que dizer e o que fazer num momento assim, está em ajuda agora. Ela serve tanto pra quem está no Brasil quanto pra quem está fora.

O que é não se sentir em casa em lugar nenhum?

É a sensação de ter virado estrangeira nos dois lugares. No país onde você mora, porque nunca foi de lá. No Brasil, porque ele seguiu sem você e você seguiu sem ele. Costuma ser chamado de desenraizamento, e é o nome de uma experiência, nunca de um diagnóstico.

Dito de forma direta: você não perdeu um lugar, perdeu a referência de qual lugar é o seu. Isso costuma aparecer depois de anos fora, muitas vezes na primeira viagem em que o Brasil deixa de parecer volta e passa a parecer visita. É uma das descrições mais comuns entre as mulheres que eu atendo com mais tempo de migração.

Benet-Martínez e Haritatos (2005) mostraram uma distinção que ajuda aqui: sentir as duas culturas como distantes uma da outra é diferente de estar em conflito entre elas.

01-Talvez você se reconheça

Nem daqui nem de lá: como isso aparece no dia?

Costuma ser mais ou menos assim.

  • 01

    Você foi passar férias no Brasil e voltou com a sensação de ter visitado, e não de ter ido pra casa

  • 02

    Sua família ainda espera a versão sua de antes da mudança, e você não sabe como dizer que ela não existe mais

  • 03

    Você entende as piadas dos dois lados e não se sente completamente dentro de nenhum dos dois

  • 04

    Você fala do Brasil como "lá" com quem é daqui, e fala daqui como "lá" com quem é do Brasil

  • 05

    Você deixou de aceitar convites e já nem repara que parou

  • 06

    Você tem gente em dois países e ninguém que saiba a sua semana inteira

  • 07

    Você lê notícia do Brasil e sente uma mistura de saudade e distância que não dá pra explicar

  • 08

    Você se pergunta onde seria a sua casa se pudesse escolher hoje, e não tem resposta

Você não precisa se reconhecer em tudo. Se duas ou três dessas frases pareceram suas, já vale olhar pra isso com algum cuidado.

02-A volta que estranha

Voltei ao Brasil e me senti estrangeira.

A casa continua no lugar. Você mudou, e ela também.

Gullahorn e Gullahorn descreveram em 1963 um percurso em forma de U, que vira W quando a volta pra casa entra na conta. O segundo vale desse W é a reentrada, e ela pega muita gente de surpresa. Eu uso esse desenho como mapa narrativo, nunca como previsão: ninguém passa pelas fases no mesmo prazo nem na mesma ordem, e quem te disser em quantos meses isso se resolve está inventando.

O que costuma acontecer na volta é você chegar num lugar que era seu e descobrir que ele andou. As piadas mudaram, os preços mudaram, as amizades se reorganizaram sem a sua cadeira na mesa. E a expectativa de todo mundo em volta é que você retome de onde parou, porque pra eles você só esteve fora. Se essa parte é o que mais pesa agora, eu escrevi ela inteira em voltei do exterior.

Tem ainda a versão sua que a família guardou. Eles esperam a mulher que embarcou, e essa mulher passou anos vivendo coisas que não couberam em chamada de vídeo. Quando você aparece diferente, a leitura fácil do outro lado é que você ficou metida ou que se afastou. Explicar isso cansa, e é comum a pessoa desistir de explicar. O silêncio resolve a conversa e não resolve a distância.

Referências: Gullahorn, J. T. & Gullahorn, J. E. (1963). An extension of the U-curve hypothesis · Benet-Martínez, V. & Haritatos, J. (2005). Journal of Personality, 73(4) · Boss, P. (1999). Ambiguous Loss. Harvard University Press.

03-O isolamento que virou hábito

Por que ninguém entende quando eu falo disso?

A frase não cabe nas caixas que existem na conversa.

De um lado, quem está no Brasil escuta e entende crítica ao país. Do outro, quem está no país onde você mora escuta e entende ingratidão. Nos dois casos a conversa termina numa resposta que não tem nada a ver com o que você disse, e depois de algumas vezes sai mais barato guardar. Com o tempo, guardar deixa de ser escolha e vira hábito.

O isolamento que vem daí é discreto. Não é uma pessoa trancada em casa. É alguém que trabalha, responde mensagem, aparece nos aniversários, e há muito tempo não conta pra ninguém como foi a própria semana por inteiro. Pauline Boss descreveu, em 1999, a perda ambígua: a perda sem corpo e sem data, que fica em aberto porque nem parece perda. Perder a referência de casa é uma delas, e perdas assim quase nunca encontram alguém disposto a escutar até o fim.

Quando isso começa a mexer com quem você acha que é, e não só com o seu humor, vale ler sobre crise de identidade morando fora. E se junto disso aparece a culpa de ter ido embora, ou a culpa de estar bem enquanto alguém no Brasil não está, culpa de quem foi embora trata disso.

Eu não vou te dizer que existe um jeito de isso acabar. O que eu vejo acontecer, quando essa história ganha uma hora por semana pra ser contada inteira, é a pessoa parar de tratar o não pertencer como defeito próprio. Daí em diante dá pra pensar no que ela quer construir, e esse trabalho é lento.

04-Onde você está agora

Em que estágio da adaptação eu estou?

Um teste curto e anônimo, com perguntas sobre como está o seu dia a dia agora. Ele devolve o estágio que mais combina com o que você respondeu e o texto escrito pra ele. Não é diagnóstico e não prevê prazo nenhum: serve pra você se localizar.

01

Descubra onde você está na adaptação

Três minutos, anônimo, sem cadastro pra ver o resultado.

Fazer o teste →

Se preferir olhar os outros testes de autoconhecimento, eles são curtos do mesmo jeito.

05-Os outros estágios

Talvez o seu momento seja outro.

Cada estágio tem uma página própria. Se a descrição desta aqui não bateu com o que você vive, uma das outras costuma bater.

E se você quiser procurar pelo que dói em vez de procurar pelo estágio, o hub terapia para o que está pesando agora organiza as páginas por assunto. E o mapa por país mostra como isso costuma aparecer onde você mora.

06-Dúvidas

Perguntas frequentes

O que é não se sentir em casa em lugar nenhum?
É a experiência de ter virado estrangeira nos dois lugares. No país onde você mora, porque você nunca foi de lá e sempre tem um detalhe que te entrega. No Brasil, porque ele seguiu mudando sem você enquanto você mudava sem ele. Costuma ser descrita como desenraizamento e não é diagnóstico: é o nome de uma experiência que muita gente que migrou reconhece.
Voltei ao Brasil e me senti estrangeira. Por quê?
Porque ninguém se prepara pra estranhar a própria casa. Na ida você esperava dificuldade e tinha a novidade a seu favor. Na volta você chega num terreno que era seu, e a expectativa de todo mundo, inclusive a sua, é que você simplesmente retome. Gullahorn e Gullahorn (1963) já apontavam que a reentrada tem período próprio de adaptação, e é comum ela ser descrita como mais difícil que a saída.
Sentir as duas culturas distantes quer dizer que estou em conflito?
Não necessariamente. Benet-Martínez e Haritatos (2005) estudaram identidade bicultural e mostraram que sentir as duas culturas como distantes uma da outra é diferente de estar em conflito entre elas. Dá pra viver as duas em compartimentos separados, com pouca ponte entre eles, sem que isso signifique uma guerra interna. Reconhecer essa diferença costuma tirar peso de quem se cobra por não ser inteira em nenhum dos dois lugares.
Por que ninguém entende quando eu falo disso?
Porque de cada lado a frase soa como reclamação sobre o outro lado. Quem está no Brasil ouve e entende que você está criticando o país. Quem está no país novo ouve e entende que você não gostou de estar lá. O que você está dizendo é uma terceira coisa, e ela não cabe nas duas caixas que existem na conversa. Por isso costuma ser mais fácil parar de falar do que explicar de novo.
Isso passa?
Eu não vou te prometer que passa, e eu desconfiaria de quem promete. Não existe prazo pra isso e não existe número honesto pra dar. O que eu vejo acontecer em terapia é a pessoa deixar de tratar o não pertencer como defeito próprio e começar a olhar o que ela quer construir a partir daí. É um trabalho lento, sem garantia de destino, e ele costuma mudar o tamanho que a coisa ocupa no dia.
Como começo?
Você manda uma mensagem ou agenda um primeiro horário. A primeira sessão é online, de 50 minutos, em português: você conta o que está acontecendo e a gente vê juntas se faz sentido continuar. Se precisar de apoio imediato antes disso, os contatos de emergência estão no começo desta página e na página Ajuda agora.

Se você estiver passando por um momento de crise ou por pensamentos de se machucar, peça ajuda hoje. No Brasil, o CVV atende 24 horas pelo 188 e em cvv.org.br. Se você mora fora, use o serviço de emergência ou a linha de apoio do país onde está: nos Estados Unidos e no Canadá, 988; no Reino Unido e na Irlanda, Samaritans 116 123; em Portugal, SOS Voz Amiga; na Alemanha, Telefonseelsorge 0800 111 0 111. Em risco imediato, ligue para o número de emergência local.

Primeiro passo

Um lugar onde essa história cabe inteira.

Sessões online de 50 minutos, em português, de onde você estiver. No primeiro encontro você fala e eu escuto.

Eu atendo mulheres brasileiras dos dois lados dessa história: as que moram fora e as que voltaram. Aqui você não precisa escolher um lado pra poder falar, nem começar explicando o contexto antes de chegar no que dói. A hora é sua e o assunto pode ocupar ela toda.

Eu trabalho pela Abordagem Centrada na Pessoa (Carl Rogers), que na prática quer dizer escuta sem julgamento e sem plano fechado de sessões. Eu não prometo destino, e o ritmo é o seu. Se quiser entender antes como funciona o formato, do fuso ao pagamento, está tudo na página de terapia online para brasileiras no exterior.

Ou manda mensagem antes

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