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Psicóloga Fernanda Pessoa Ferro
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RelacionamentosTema: Outros textos06 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Vitimismo: o que é, de onde vem e quando a palavra é usada contra você

Vitimismo é a tendência de se ver sempre como vítima nas relações. Entenda o que a pesquisa diz, de onde isso costuma vir e por que a palavra também é usada pra calar quem foi machucada.


Vitimismo é a tendência de se ver como vítima de forma constante, em quase todas as relações: no trabalho, na família, no amor, com as amigas. A pessoa sente que está sempre sendo injustiçada, tem dificuldade de ver a própria parte nos conflitos e volta muitas vezes às mágoas antigas. Não é um transtorno. É um jeito de olhar pro mundo que, muitas vezes, nasceu de dores reais.

E tem um outro lado importante: "você está se fazendo de vítima" também é uma frase muito usada pra calar quem foi, de fato, machucada.

O que é vitimismo

Na linguagem do dia a dia, vitimismo é usado como crítica. "Ela é muito vitimista." Mas a psicologia tem estudado o tema com mais cuidado.

Em 2020, os pesquisadores israelenses Rahav Gabay, Boaz Hameiri, Tammy Rubel-Lifschitz e Arie Nadler publicaram uma série de oito estudos sobre o que chamaram de tendência à vitimização interpessoal: uma sensação duradoura de ser vítima em diferentes tipos de relação. Eles descreveram quatro dimensões:

  1. Necessidade de reconhecimento. Precisar muito que os outros reconheçam o sofrimento e admitam a culpa.
  2. Elitismo moral. Sentir que você é moralmente melhor e que o outro é o errado da história.
  3. Falta de empatia. Ficar tão tomada pela própria dor que fica difícil enxergar a do outro.
  4. Ruminação. Pensar e repensar a ofensa, de novo e de novo.

Nos estudos, essa tendência apareceu ligada a interpretar situações ambíguas como ofensa, a lembrar mais das coisas ruins e a ter mais vontade de vingança. Os autores também olharam pro apego e encontraram relação com o apego ansioso.

Pessoa vitimista: como reconhecer

Alguns sinais comuns:

  • Os problemas são sempre culpa dos outros.
  • Críticas são recebidas como ataque, mesmo quando são cuidadosas.
  • Mágoas antigas voltam em toda conversa.
  • A pessoa espera que os outros adivinhem e reparem o que ela sente.
  • Pedidos de ajuda vêm acompanhados de "ninguém liga pra mim".
  • Fica difícil pedir desculpas, porque admitir um erro parece perder o lugar de quem sofreu.

Todo mundo tem dias assim. O vitimismo é quando isso vira o jeito principal de se relacionar.

De onde vem o vitimismo

Quase nunca de uma escolha consciente. Muitas vezes, de uma história em que a pessoa foi realmente machucada e ninguém reconheceu. Uma infância em que a dor era ignorada pode ensinar que só sendo vista como vítima alguém vai prestar atenção. Ou que, se baixar a guarda, vai ser machucada de novo.

Por isso, vitimismo não é "frescura". É, muitas vezes, uma proteção que um dia fez sentido e hoje cobra um preço alto: afasta as pessoas, mantém a dor acesa e tira da pessoa a sensação de que pode mudar alguma coisa.

Quando "vitimismo" é usado pra calar quem foi machucada

Esse é um ponto que eu vejo muito no consultório. Mulheres que vivem relações abusivas ouvem com frequência que estão "se fazendo de vítima", "fazendo drama", "exagerando". E começam a duvidar do que sentem.

A psicóloga americana Jennifer Freyd descreveu, em 1997, um padrão chamado DARVO, sigla em inglês pra negar, atacar e inverter vítima e agressor. Quando alguém é confrontado sobre o que fez, nega, ataca a credibilidade de quem reclamou e se coloca como o verdadeiro injustiçado. "Eu é que sofro com o seu ciúme." "Você vive me acusando, eu é que sou a vítima aqui."

Ou seja: às vezes quem acusa o outro de vitimismo é quem está usando o lugar de vítima pra fugir da responsabilidade. Se isso soa familiar, leia sobre gaslighting no relacionamento e sobre chantagem emocional.

Uma pergunta ajuda a separar: existe um padrão concreto de alguém te machucando? Se sim, falar disso não é vitimismo. É reconhecer o que está acontecendo.

Como lidar com uma pessoa vitimista

  • Valide o sentimento, sem assumir a culpa que não é sua. "Entendo que você ficou magoada. Eu vejo a situação de outro jeito."
  • Não entre na disputa de quem sofre mais. Ninguém ganha.
  • Coloque limites claros. Você pode acolher sem virar a responsável pela felicidade da pessoa.
  • Sugira ajuda profissional, com cuidado. Não como acusação, mas como cuidado.

E se eu me reconheci?

Se você leu e pensou "acho que sou assim", isso já mostra coragem. Algumas perguntas pra levar com calma:

  • O que eu ganho e o que eu perco ficando nesse lugar?
  • Que dor antiga essa mágoa de hoje está tocando?
  • Em que pedaço dessa história eu tenho alguma escolha?

Na terapia, na abordagem centrada na pessoa, que é a minha, o foco não é te convencer de que você está errada. É criar um espaço em que a sua dor seja ouvida de verdade, e a partir daí você possa olhar pras suas escolhas com menos medo. Este texto não é diagnóstico. Se quiser olhar pros seus padrões nas relações, o teste de relacionamentos pode ser um começo.

Se estiver muito pesado

Se você vive uma relação em que sente medo, a Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, funciona 24 horas, de graça. Em perigo imediato, ligue 190. Se a dor estiver grande demais, o CVV atende pelo 188, e em ajuda agora você encontra outros caminhos.

Perguntas frequentes

Vitimismo é transtorno?

Não. Vitimismo não aparece no DSM-5-TR nem na CID-11 como diagnóstico. A pesquisa de 2020 trata como uma tendência de personalidade, algo que varia de pessoa pra pessoa.

Vitimismo é manipulação?

Pode ser usado pra manipular, quando alguém se coloca como vítima pra fugir da responsabilidade ou pra conseguir algo. Mas muitas pessoas vitimistas não estão manipulando de forma consciente. Estão presas a uma dor que não foi cuidada.

Qual a diferença entre ser vítima e ter vitimismo?

Ser vítima é ter sofrido uma violência ou injustiça concreta. Vitimismo é uma forma de se ver como vítima em quase todas as situações, inclusive quando não há uma agressão real.

Vitimismo tem tratamento?

Psicoterapia ajuda bastante, principalmente quando consegue chegar na dor que sustenta esse jeito de se relacionar.

Referências

  • Gabay, R., Hameiri, B., Rubel-Lifschitz, T. & Nadler, A. (2020). The tendency for interpersonal victimhood: The personality construct and its consequences. Personality and Individual Differences, 165, 110134. doi.org/10.1016/j.paid.2020.110134
  • Freyd, J. J. (1997). Violations of power, adaptive blindness, and betrayal trauma theory. Feminism & Psychology, 7(1), 22-32.

Reconhecer a própria dor não é vitimismo. Ficar morando nela pra sempre é que cansa. E dá pra sair dali com cuidado, no seu tempo.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

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Fernanda Pessoa Ferro - Psicóloga Clínica

Fernanda, em Brasília

Fernanda Pessoa Ferro

Psicóloga Clínica · CRP 01/30999


Oi, eu me chamo Fernanda, sou psicóloga clínica. Pra mim o cuidado começa pela escuta. Cada pessoa chega à terapia com uma história que é só dela, e o que eu ofereço é um espaço seguro, onde você pode falar de você sem medo de ser julgada.

Fora da formação, sou apaixonada por cinema, e isso acaba entrando no meu jeito de olhar. A fotografia veio daí: hoje faz parte da minha vida como hobby e, de vez em quando, como segundo trabalho. Também carrego o sonho de morar num lugar tranquilo, com mata em volta e muitos animais por perto: bicho é outra coisa que me encanta no mundo.

Trabalho de um jeito congruente e empático, respeitando o tempo que cada processo pede. Não uso respostas prontas nem fórmulas: o caminho a gente constrói junto, a partir do que você viveu.

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