Síndrome do impostor tem tratamento? Quando procurar terapia
Síndrome do impostor tem tratamento? Não é diagnóstico, mas pode trazer sofrimento. Veja quando procurar terapia e como a psicoterapia acolhe isso.
A síndrome do impostor não é um diagnóstico, então não existe um "tratamento" no sentido de remédio ou protocolo pra curar uma doença. O que existe é cuidado. A psicoterapia costuma ser um bom caminho quando essa sensação de ser uma fraude começa a trazer sofrimento, limitar escolhas ou vir junto de ansiedade e esgotamento. Em terapia, a pessoa tem espaço pra entender de onde vem essa voz crítica e construir, no próprio ritmo, uma relação mais gentil com as próprias conquistas.
Eu sei que a palavra "tratamento" aparece muito nas buscas. Faz sentido: quando algo dói, a gente quer saber o que fazer.
Síndrome do impostor tem tratamento ou tem cura?
O termo nasceu como "fenômeno do impostor", num estudo das psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, de 1978. Ele descreve uma experiência, não uma doença. Por isso não aparece como diagnóstico nos manuais de saúde mental.
Na prática, isso significa duas coisas.
A primeira é que você não está "doente" por se sentir assim. Não tem algo quebrado em você.
A segunda é que "cura" talvez não seja a melhor palavra. Não é como se um dia a sensação fosse desligada. O que costuma mudar, com o tempo e com cuidado, é o espaço que ela ocupa e o poder que ela tem sobre as suas decisões.
A síndrome do impostor pode aparecer junto com outras coisas que merecem atenção própria, como ansiedade, depressão ou esgotamento. Quando isso acontece, pode valer também uma avaliação com psiquiatra, que junto com a psicoterapia ajuda a entender se há algo além e qual cuidado faz sentido.
Quando procurar terapia para síndrome do impostor
Não existe uma régua exata. Mas alguns sinais costumam indicar que vale procurar ajuda:
- Você recusa oportunidades que quer (uma vaga, um convite, um projeto) por medo de não dar conta ou de ser "descoberta".
- A preparação virou exaustão. Você trabalha muito além do necessário e mesmo assim sente que não foi suficiente.
- Você adia coisas importantes e depois vive a culpa e a correria.
- A ansiedade antes de ser avaliada está alta, frequente, tirando o sono.
- Nenhuma conquista te traz paz. Você passa de uma meta pra outra sem conseguir sentir que chegou em algum lugar.
- Você se sente cansada o tempo todo, de um jeito que o descanso não resolve.
- Essa sensação aparece em várias áreas da vida, não só no trabalho.
Se você se reconheceu em alguns desses, não significa que tenha "algo grave". Significa que você tem carregado um peso grande, e que não precisa carregar sozinha.
Se quiser um ponto de partida pra se observar, eu fiz um teste de síndrome da impostora com perguntas próprias. Ele pode te ajudar a nomear o que você sente antes de decidir se quer conversar com alguém.
Como a terapia acolhe a síndrome do impostor
Eu trabalho com a abordagem centrada na pessoa. Vou contar um pouco de como eu vejo esse processo.
Um lugar sem avaliação
Pra quem se sente impostora, a vida muitas vezes é uma prova contínua. Em todo lugar, alguém está avaliando.
A terapia tenta ser o contrário disso. Um espaço onde você não precisa se sair bem, não precisa dar a resposta certa, não precisa estar "melhorando" rápido. Isso parece simples, mas pra muita gente é a primeira vez que existe um lugar assim.
Escutar a voz crítica, em vez de brigar com ela
Em vez de tentar calar a voz que diz "você é uma fraude", a gente olha pra ela com curiosidade. De onde ela vem? Do que ela tenta te proteger? Quando ela ficou tão forte?
Muitas vezes essa voz tem raízes antigas, em rótulos da infância, em cobranças familiares, em ambientes em que errar custava caro. Eu escrevi mais sobre isso em causas da síndrome do impostor. Entender a origem costuma diminuir a culpa e abrir espaço pra outras formas de se ver.
Aproximar o que você vive do que você sente
Na abordagem centrada na pessoa, a gente fala muito sobre a distância entre a experiência real e a imagem que a pessoa tem de si. Quem se sente impostora vive essa distância de um jeito muito concreto: as coisas acontecem (você entrega, conquista, é reconhecida), mas a imagem interna continua dizendo "não sou capaz".
A terapia pode ajudar a aproximar essas duas coisas, devagar. Não convencendo você de que é incrível, mas criando condições pra que você mesma consiga perceber o que já fez, com os próprios olhos.
No seu ritmo
Não existe prazo. Tem gente que sente diferença em pouco tempo, tem gente que precisa de mais. Os dois caminhos são legítimos. O que eu posso oferecer é presença, escuta e respeito pelo seu tempo.
E se eu me sentir impostora até na terapia?
Acontece, e é mais comum do que parece. Sentir que "não está fazendo terapia direito", que "tem gente com problema de verdade", que "está ocupando o espaço de alguém que precisa mais".
Se isso aparecer, é material pra conversa, não motivo pra desistir. A sessão também é um lugar onde essa voz pode ser ouvida, e às vezes é justamente ali que ela mostra como funciona.
Quando é urgente
Se, junto com a sensação de ser uma fraude, aparecerem pensamentos de que nada faz sentido, vontade de sumir ou de se machucar, busque ajuda imediata. O CVV atende 24 horas, de graça e em sigilo, pelo 188 ou em cvv.org.br.
Procurar terapia não é admitir que você é uma fraude. É se dar o direito de não precisar provar nada por um tempo, e ver o que aparece quando isso acontece.
Continue se escutando
Se você se reconheceu nesse texto, o teste de síndrome da impostora pode te ajudar a olhar pra isso com calma. É gratuito e leva poucos minutos.
Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999
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