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Fernanda Ferro
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ReflexõesTema: Outros textos10 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Quando concordar com metas assusta: o que a ansiedade de apego revela na terapia

Um estudo com 137 clientes revelou que mulheres com alta ansiedade de apego experimentam mais angústia na semana seguinte quando concordam com metas na terapia. O motivo merece atenção. A pesquisa identificou um padrão contraintuitivo: o ato de estabelecer objetivos terapêuticos, esperado como benéfico, produziu efeito oposto em parcela específica da amostra. Mulheres que pontuaram alto em ansiedade de apego relataram aumento de sofrimento psicológico após sessões em que houve consenso sobre metas de tratamento. A ansiedade de apego se caracteriza por preocupação intensa com abandono e necessidade de validação constante. Pessoas com esse perfil temem rejeição e monitoram de forma hipervigilante sinais de distanciamento nos relacionamentos. A hipótese dos pesquisadores sugere que a definição de metas ativa esse sistema de alarme interno. Quando a terapeuta propõe objetivos concretos, a cliente com alta ansiedade de apego pode interpretar a estrutura como evidência de que precisa mudar para manter o vínculo. A mensagem implícita seria: você não está suficientemente boa como está. Esse gatilho reativa feridas antigas de rejeição e intensifica o medo de ser abandonada se não corresponder às expectativas. O estudo mediu sintomas na semana subsequente às sessões. O grupo com alta ansiedade de apego apresentou escalada em indicadores de angústia, tristeza e ruminação. O efeito não apareceu em clientes com estilos de apego seguro ou evitativo, nem em homens da amostra (embora o número reduzido de participantes masculinos limite conclusões sobre diferenças de gênero). Os achados sugerem que a abordagem colaborativa padrão, centrada em metas, precisa de adaptação. Para essa população, o foco inicial deveria recair sobre o fortalecimento do vínculo terapêutico antes da formalização de objetivos. A sensação de aceitação incondicional pode funcionar como pré-requisito para o trabalho com metas estruturadas. Profissionais podem considerar ritmo mais lento na fase de planejamento, verificar com frequência como a cliente recebe as propostas de mudança e nomear explicitamente que o vínculo não depende de progresso mensurável. A segurança relacional precede a capacidade de tolerar desafios terapêuticos. A amostra de 137 participantes oferece indícios relevantes, mas estudos maiores com grupos diversos devem confirmar e expandir os resultados. A compreensão de como diferentes perfis de apego respondem a intervenções específicas pode refinar protocolos e reduzir iatrogenias inadvertidas.


Quando concordar com metas assusta: o que a ansiedade de apego revela na terapia

Um estudo com 137 clientes em terapia psicodinâmica mostrou algo que pode parecer estranho à primeira vista: para algumas mulheres com alta ansiedade de apego, quanto mais elas concordavam com as metas da sessão, pior se sentiam na semana seguinte.

Não era o combinado. Era justamente o acordo que deixava tudo mais confuso.

Quando você tem medo intenso de ser abandonada, definir metas junto com a terapeuta pode acionar algo parecido com um alarme interno. Porque meta exige escolha. E escolha expõe o quanto você tem medo de escolher errado e afastar quem cuida.

Esse padrão apareceu de forma clara: mulheres com níveis altos de ansiedade de apego, ao relatarem que concordaram muito com os objetivos da sessão, apresentaram funcionamento mais baixo na semana seguinte. Como se o próprio ato de dizer "sim, esse é o caminho" trouxesse junto o peso de não decepcionar, de não errar, de não perder a conexão.

Não é que você não queira melhorar. É que o combinado vira mais uma coisa pra dar certo, e o medo de falhar nisso fica maior que o alívio de ter um rumo.

O que acontece quando o acordo vira pressão

Esse estudo, conduzido ao longo de 5.356 sessões, mediu semana a semana como cada cliente se sentia e como avaliava a aliança terapêutica, aquele vínculo de confiança e parceria com a terapeuta. O resultado foi claro para um grupo específico: clientes com alta ansiedade de apego.

Para essas pessoas, a concordância verbal sobre objetivos não trouxe sensação de segurança. Trouxe tensão.

Isso acontece porque, quando você cresce temendo ser deixada, acaba aprendendo a adivinhar o que o outro quer. E em terapia, mesmo sem perceber, pode começar a tentar acertar o que a terapeuta espera, em vez de sentir o que você mesma precisa.

O acordo vira performance. E performance cansa, confunde, afasta você de você.

A pesquisa aponta que o problema não está no vínculo em si. Está em como as metas são construídas quando o medo de abandono está presente.

Quando o vínculo precisa vir antes do combinado

O mesmo estudo sugere algo importante: antes de definir pra onde ir, pode ser necessário construir um chão onde você consiga sentir que está segura pra dizer "não sei" ou "não tá fazendo sentido".

Na Abordagem Centrada na Pessoa, a terapeuta não define metas por você. Ela caminha com você, sem pressa de fechar acordos que ainda não cabem.

Quando há muita ansiedade de apego, forçar consenso rápido pode intensificar o medo. Porque você ainda não sente que pode discordar sem perder o vínculo.

O que ajuda não é combinar mais rápido. É criar espaço pra você sentir que pode hesitar, voltar atrás, mudar de ideia e continuar sendo acolhida.

Isso leva tempo. E pede uma escuta que não cobra.

O cuidado que respeita o seu tempo

Se você já sentiu que concordar com algo na terapia deixou você mais angustiada depois, não significa que você está "fazendo errado". Pode ser sinal de que ainda não era hora de fechar aquele combinado, ou de que ele precisava ser construído de outro jeito.

A ansiedade de apego não desaparece porque você assinou embaixo de um plano. Ela pede uma relação onde você possa existir sem ter que acertar o tempo todo.

Em terapia, isso significa que a aliança (esse vínculo de confiança) vem antes de qualquer meta. Você não precisa saber aonde quer chegar pra começar. Você pode simplesmente começar a sentir que está sendo vista.

Sou Fernanda Pessoa Ferro, psicóloga clínica (CRP 01/30999), e atendo mulheres em Brasília e online com escuta centrada na pessoa. Meu trabalho é acompanhar, não apressar.

Se você está passando por sofrimento intenso, pensamentos de se machucar ou em situação de crise, busque ajuda imediata pelo CVV: ligue 188 ou acesse cvv.org.br.


Fonte:
Estudo com 137 clientes e 5.356 sessões de terapia psicodinâmica, publicado em 2026: https://doi.org/10.1037/cou0000865

Perguntas frequentes

Por que concordar com metas na terapia me deixa mais ansiosa?

Quando há medo intenso de abandono, definir metas pode acionar a pressão de "acertar" pra não perder o vínculo. O acordo vira cobrança interna, não alívio.

A ansiedade de apego melhora com o tempo de terapia?

Pode melhorar, especialmente quando a aliança terapêutica cresce de forma segura. Mas é um processo, não uma promessa de resultado rápido ou garantido.

Como sei se minha terapeuta está respeitando meu ritmo?

Quando você pode hesitar, discordar ou mudar de ideia sem medo de ser julgada ou abandonada. A escuta acolhe, não cobra.

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Fernanda Pessoa Ferro · Psicóloga Clínica · CRP 01/30999

Atendo em português, online e em Brasília. Trabalho com psicoterapia e avaliação neuropsicológica.

Minha prática segue a Abordagem Centrada na Pessoa. Fora do consultório, o cinema, a fotografia, a natureza e os animais fazem parte de quem eu sou.

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